Recebido em: 11/03/2019
Aprovado em: 03/04/2019
História global:
uma solução ou um retorno?
Global history:
a key or a return?
CONRAD, Sebastian.
What Is Global History?
Princeton:
Princeton University Press, 2016. 299p.
CALÇA, Elaine
*
A tentativa de construir uma história não eurocêntrica surge a partir da crise
contemporânea do Estado Nacional e dos acontecimentos do final do século XX,
consequentemente, surgiram diversas abordagens dentro da historiografia, como
história atlântica, história transnacional e história global. Dentre estas correntes, a
história global demonstra ser a alternativa menos empregada pelos historiadores
brasileiros. Diante disso, esta resenha pretende apresentar o trabalho publicado pela
editora da Universidade de Princeton, em 2016, do renomado teórico do campo da
História Global na Alemanha, Sebastian Conrad, professor da Frei Universität Berlin e do
programa de pós-graduação em História Global na mesma instituição.
A obra de Sebastian Conrad parte da necessidade de esboçar os motivos da
popularidade repentina que a História Global ganhou em espectro mundial no início do
*
Graduada pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” UNESP, Assis-SP, Mestranda
pelo Programa de Pós-Graduação em História e docente bolsista de alemão do Departamento de Letras
Modernas na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho” UNESP, Assis-SP. Bolsista de
mestrado CNPq. E-Mail: elaine.calca@unesp.br.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.6, nº1, p.478-482, jan.-jun., 2019
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século XXI dentro do meio acadêmico, em especial, no campo da História; revistas como
The American Historical Review e Past & Present estão publicando estudos nessa área, e
em 2006 foi fundado pela Cambridge o Journal of Global History.
O trabalho de Conrad nos apresenta uma perspectiva atual da história que,
segundo nossa análise, se contrapõe diretamente tanto à tradição historiográfica do
século XX, quanto à tradição dos antropólogos, filósofos e cientistas alemães do século
XIX, desde Immanuel Kant até Alexander von Humboldt e Adolf Bastian. Enquanto a
tradição antropológica alemã alegava que as culturas africanas não possuíam história e,
portanto, eram estáticas, a História Global, segundo Conrad, consiste na saída do
continente europeu e na busca da história a partir do enfoque nos sujeitos, ideias e
comércio em movimento.
Em geral, o autor defende esta corrente por considerar que a tal engaja-se em
quebrar a relação estabelecida entre os historiadores do final do século XIX e o Estado
Nação, relação esta que é fruto da fundação da História enquanto disciplina.
Entretanto, sabe-se que a reivindicação em história de uma metodologia
relacional ou comparativa é presente em outras vertentes como História Comparativa,
História Cruzada, História Transnacional, História Atlântica e esta reivindicação é
justamente vista como meio de desvincular a atual disciplina com as instituições estatais,
as quais a história vinculava-se durante o século XIX e parte do século XX. Essas
correntes também tencionam abordar o tema e o objeto de forma diferente da
tradicional, dominantemente presente na historiografia. Apesar desse anseio, José
d’Assunção Barros pontua que a intencionalidade de transgredir ou se desvincular com a
abordagem tradicional não implica no sucesso garantido do trabalho, já que os
historiadores também estão inseridos em “categorias e formas estereotipadas de
pensamento que os amarram” que exercem “pressões que sobre eles” (BARROS, 2014, p.
279), ou seja, também produzimos estereótipos e pré-conceitos de nosso tempo.
Na introdução o autor apresenta as diversas formas em que a História Global se
apresenta, auxiliando o leitor a se orientar dentro desse debate e a definir o termoo
enquanto objeto de estudo ou metodologia específica, mas como perspectiva que
enfatiza as interações ou transformações estruturadas em nível global. Dividido em
introdução e 9 capítulos, este livro é um manual que sistematiza como a história global
foi e é utilizada pelos historiadores, nos apresentando os problemas e apreensões que a
escrita da história, dentro deste campo, pode encontrar, bem como algumas possíveis
soluções.
“História em sua maior duração foi sinônimo de história nacional” (CONRAD,
2016, p. 3), afirma Conrad nas primeiras páginas da introdução, onde explicita que a
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abordagem da história global objetiva suprimir tal história, já que o Estado Nação tem
sido tão problematizado pela historiografia desde o final do século XX. O objetivo não é
escrever uma história total do planeta ou ser um sinônimo de macro-história, mas uma
tentativa de ressaltar conexões globais e condições estruturais que, na verdade, sempre
houve, mas em níveis de impacto diferentes. Sendo assim, tudo pode se tornar história
global. Sobre esta perspectiva, o trabalho, enquanto conceito, é uma das temáticas que
pode ser analisada numa perspectiva global, por exemplo, como parte da economia da
escravidão, que estabeleceu relações entre Brasil, Angola e Portugal.
O capítulo II, “Historiografia Ecumênica”, apresenta ao leitor autores que teriam
uma visão planetária da história, como o otomano Mustafa Ali (15411600) ou o
historiador mongolês Tahir Muhammad (ca. 1560). Conrad (2016) afirma que esses
autores teriam produzido uma História Mundial na época da hegemonia ocidental,
entretanto, não obtiveram reconhecimento, pois eram considerados historiadores
amadores. Ampliando o conceito de história global, segundo o autor, Heródoto e Ibn
Khaldun tamm já teriam escrito uma história considerada planetária. Além disso,
pesquisa olhares de pensadores periféricos sobre a Europa, um dos temas deste capítulo,
como o exemplo do livro História da Índia Ocidental (Tarih-i Hind-i garbi), escrito em
Istambul, em 1580, por um turco em anonimato, que tentava compreender a inesperada
ampliação de horizonte e do dilema cosmológico apresentado pela descoberta do “Novo
Mundo”.
Ademais, o autor reconhece que fazer uma história global não seria algo novo, e
cita que a teoria da dependência produzida na América Latina, os estudos subalternos e
de gênero, o pan-africanismo e o movimento de negritude, produzidos por autores como
Frantz Fanon (1925-1961), Aimé Césaire (1913-2008) e Léopold Senghor (1906-2001),
seriam o ponto de partida para ou uma tentativa de produzir uma história global.
História comparativa, transnacional, estudos pós-coloniais, concepção de
múltiplas modernidades e teoria dos sistemas mundiais são abordados no capítulo III,
“Disputa de Abordagens”. Estas correntes são colocadas em diálogo com a História
Global pelo autor. Ele explicita a influência destas sobre os historiadores globais (por
vezes sem reconhecimento), que são potencialmente usadas para escrever uma narrativa
global coerente. Cada uma dessas abordagens é apresentada também com seus limites.
No conjunto da produção de história comparativa, os estudos permaneceram vinculados
ao conceito de diferentes “civilizações” e muitas vezes foram escritas a partir da
perspectiva da cultura europeia. A concepção de múltiplas modernidades pressupõe a
existência de vários modelos de modernidade, que não são construídos sobre o
paradigma da ocidentalização, todavia esta metodologia acaba por negligenciar
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conectividades globais. Para o autor, os estudos pós-coloniais e as múltiplas
modernidades são abordagens historiográficas que derivam da falta de satisfação com a
teoria da modernidade, mas também possuem diversas limitações.
Essas vertentes possuem nomes diversos que, no entanto, têm mais semelhanças
do que divergências, as quais geraram um debate ainda atual. O uso do método
comparativo, por exemplo, acabou sendo um dos argumentos para que estas correntes
se diferenciassem. Sean Purdy, em seu artigo A História Comparada e o Desafio da
Transnacionalidade, apresenta que historiadores da história transnacional negam o
método comparativo. O autor nos propõe uma crítica não ao conceito de
transnacionalidade, mas como este é utilizado (PURDY, 2012, p. 65).
Ainda dentro desse panorama, Sebastian Conrad afirma que o marxismo, apesar
de ser vulgarmente reconhecido como uma abordagem que daria ênfase aos estágios de
desenvolvimento, e seu método materialista histórico, apresentaria análises das muitas
interações que ocorrem em nível global ao analisar o desenvolvimento social, o qual vai
ao encontro com a proposta dialética apresentada também pela história global.
Diante dos apontamentos críticos que o autor faz as outras abordagens teórico-
metodológicas citadas até agora, o capítulo IV, “História Global como uma abordagem
distinta”, defende que a História Global responde a urgente necessidade de se repensar a
história ao propor a análise de fenômenos, processos e eventos sob o aspecto global, os
quais permitem ver relações entre histórias e experiências em tempo e espaço diversos,
o que não seria possível dentro da investigação tradicional da história. Os historiadores
que desejarem utilizar a história global, segundo o autor, deverão não apenas fazer
conexões entre os espaços, mas também revisitar as abordagens e métodos citados
anteriormente para a elaboração de uma nova história.
As diferenças entre história global e história da globalização serão apresentadas
ao leitor no capítulo 5, bem como as potencialidades que os historiadores possam
encontrar ao utilizar tal abordagem para analisar as estruturas e as interações globais.
Neste momento do texto,o apontados seis campos de pesquisa como já cristalizados
na História Global, são eles: História do Oceano; dos Bens; da Migração; da Nação;
História Ambiental e dos Impérios. Em relação a última área, destaca-se que a
interpretação trazida pela História Global tem mudado substancialmente a área de
estudos sobre Imperialismo, ao olhar para aspectos como as concepções de
domesticidade, família, infância, sexualidades e masculinidades.
O autor retoma a necessidade dos historiadores repensarem o tempo e o espo
de formas alternativas nos capítulos 6 “Espaço segundo a História Global”, como pela
micro-história ou pelas interações networks; e 7 “Tempo segundo a História Global,
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com a ideia de curta e longa duração, metodologia consagrada desde a obra de Fernand
Braudel (1902-1985), bem como os revestimentos (ou escalas) temporais Zeitschichten,
de Reinhart Koselleck (2000).
Em “Posicionamentos e abordagens centradas”, capítulo 8, o autor questiona se
uma versão transcultural da história é acessível em todo o mundo, bem como realça a
importância das ciências sociais a despeito de sua origem europeia. Tal discussão é
mantida no capítulo 9, “Os conceitos da história global e a construção de mundo”, onde o
autor aborda o eurocentrismo, a posicionalidade, a ascensão, a queda e o retorno ao
modelo de civilizações.
No último capítulo, “História Global para quem? A Política da História Global”, se
discute as diferenças entre escrever sobre globalização e a globalização enquanto uma
ideologia presente na política. Esta diferenciação pode ser tênue e utilizada
acriticamente, levando a equívocos em relação às desigualdades sociais que, além de
econômico e estrutural, também está presente nas tradições historiográficas ocidentais,
orientais e africanas, que acaba por prevalecer a historiografia eurocêntrica em
detrimento das demais. Além da contribuição da hegemonia do inglês como um
instrumento de disseminação do conhecimento que é produzido em um espaço
delimitado, ou seja, por instituições e mídias europeias e americanas, sobre todo o
mundo.
Por fim, é importante ressaltar que as versões da obra em inglês e em alemão
(Globalgeschichte, publicada pela editora C.H. Beck em 2013), apesar de possuírem o
mesmo título, são diferentes entre si. É importante salientar que na edição de 2016, a
qual nos baseamos para esta resenha, o autor pôde revisar, acrescentar capítulos e
descartar outros.
Referências
BARROS, José d’Assunção. História cruzada: considerações sobre uma nova modalidade
baseada nos procedimentos relacionais. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 277-310, 2014.
CONRAD, Sebastian. Globalgeschichte: Eine Einführung. München: C.H. Beck Verlag, 2013.
_________. What Is Global History? Princeton: Princeton University Press, 2016.
KOSELLECK, Reinhart. Zeitschichten. Studien zur Historik. Frankfurt/M.: Suhrkamp
Taschenbuch Verlag 2000.
PURDY, Sean. A História Comparada e o Desafio da Transnacionalidade. Revista de História
Comparada, UFRJ, Rio de Janeiro, p. 64-84, 2012.