Entrevista com Álvaro Vázquez Mantecón
Entrevistadores
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FÁZIO, Andréa Puydinger de
GRECCO, Priscila Miraz de Freitas
O dossiê “O lugar sem limites: América Latina em perspectiva”, traz uma entrevista
com o historiador mexicano Doutor Álvaro Vázquez Mantecón, professor investigador
da Universidad Autónoma Metropolitana – Azcapotzalco. Mantecón aborda em seus
trabalhos, tanto bibliográficos quanto museográficos, as relações entre o cinema, a
cultura e a política mexicana do século XX.
Também atua na área museográfica, destacando-se exposições como La
era de la discrepancia, arte y cultura visual en México, 1968-1997, realizada em
2006; a investigação e pesquisa no Memorial del 68, de 2007; a exposição Cine y
revolución, de 2010, e Imágenes del cardenismo, de 2011. Entre seus livros temos
Orígenes literários de un arquetipo fílmico: adaptaciones cinematográficas a Santa
de Federico Gamboa (2005), Memorial del 68 (2007), e El cine súper 8 en México,
1970-1989 (2013). Ao final da entrevista selecionamos alguns trabalhos do professor
que estão disponíveis na internet.
1. A entrevista foi realizada entre fevereiro e março de 2015.
Entrevista com Álvaro Vázquez Mantecón
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.2, nº1, p. 185-191, jan.-jun., 2015.
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Professor Álvaro, gostaríamos que falasse um pouco sobre sua trajetória
profissional e de como surgiu o interesse em pesquisar a cultura
audiovisual mexicana.
Desde que cursava a licenciatura em História, na Universidad Nacional Autónoma
de México (UNAM), a história do cinema me chamou a atenção. Para mim, foi muito
importante a influência de um de meus professores, Ricardo Pérez Montfort, que
ensinava a história do cinema vinculada à da cultura popular, com enfoque na história
social. Meu trabalho de conclusão da licenciatura já apontava para esses temas: era
um trabalho sobre como o cinema mexicano da “época de ouro” (nos anos quarenta
do século XX) codificava um olhar moral para as noções de campo, cidade e trópico.
Depois, com o passar dos anos, fiz um trabalho muito variado, na medida em que,
além dos produtos acadêmicos convencionais (livros e artigos), fiz documentários e
exposições museográficas (sempre temi que, mais do que diverso, seja um diletante).
Mas vejo que, ao longo desses anos, existe uma constante: tenho me interessado pela
história da cultura por meio de uma perspectiva social, ainda que os formatos dessa
história sejam distintos.
O senhor também tem trabalhos desenvolvidos em museus, com a
organização de exposições. Qual a maior dificuldade na organização de
uma exposição como foi, por exemplo,
La era de la discrepancia : arte y
cultura visual en Mexico 1968-1997
?
2
Incluiria mais uma exposição: Desafío a la estabilidad. Procesos artísticos en
xico, 1952-1967, que expus no MUAC (Museo Universitario de Arte Contemporáneo
de la UNAM), em 2014, em que participei como organizador curatorial ao lado de Rita
Eder e Pilar García. Mais do que duas exposições, tratam-se de projetos de investigação
coletiva em longo prazo. Ambas estiveram expostas em museus da Universidade e, nesse
sentido, acreditamos ser necessário ir mais além do projeto curatorial comum, que
implica uma investigação monográfica, a edição de um catálogo breve e uma montagem
museográfica que se mantenha por alguns meses. As duas exposições traçavam um
panorama que ainda não se havia feito sobre a arte e a cultura no México contemporâneo,
de maneira que era um tema impossível de ser realizado individualmente. Dessa forma,
empreendemos projetos de investigação universitário – de acordo com o tipo de
museus a que o projeto estava destinado – com a colaboração de vários professores,
investigadores e alunos. Em ambos os casos, foram feitos seminários de pós-graduação
2 Esta exposição foi concebida para o Museo Universitario de Ciencias y Arte (MUCA) da UNAM
na Ciudade do México, onde foi apresentada entre março e setembro de 2007. Organizada pelos cura-
dores Pilar García de Germenos, Álvaro Vázquez Mantecón, Cuauhtémoc Medina y Olivier Debroise, a
exposição foi mais que um panorama de todas as correntes e tendências que emergiram durante essas
três décadas, mas também pretende introduzir cortes transversais para destacar momentos em que ar-
tistas de distintas gerações e provenientes de horizontes culturais diversos se propuseram a transformar
formal ou politicamente o sentido de produzir arte. A mostra se destaca não só pelas mais de 300 obras
- entre pintura, fotografia, escultura, cartazes, ilustrações, cinema, vídeo e documentos - que a confor-
mam, mas pelo esforço de reconstrução de obras destruídas e efêmeras do período, em colaboração com
os próprios artistas. A reconstrução esteve a cargo de Tatiana Falcón, coordenadora do Laboratorio de
Arte del Instituto de Investigaciones Estéticas (IIE) da UNAM. Foi também fundamental a participação de
outras instâncias universitárias como TV UNAM e a Filmoteca na obtenção dos materiais documentais
incluídos no projeto.
ZIO, Andréa Puydinger de; GRECCO, Priscila Miraz de Freitas.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.2, nº1, p. 185-191, jan.-jun., 2015.
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dos quais saíram algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Também
se realizaram colóquios acadêmicos nos quais foram postas à prova hipóteses com
as quais estávamos interpretando o passado recente e, finalmente, foram feitas duas
publicações extensas em que alunos, professores e investigadores propuseram uma
visão panorâmica
3
. Logicamente, tudo isso não foi feito rapidamente: cada um dos
projetos durou mais de quatro anos. Creio que são casos que podem funcionar como
modelos de novas formas de trabalho acadêmico coletivo que incluem, de maneira
importante, um rosto ao público geral.
Quais cuidados os historiadores devem ter ao trabalhar com imagens?
Quais as diferenças do trabalho com um filme de ficção e com um
documentário, por exemplo?
Acredito que a imagem seja uma fonte a mais e que temos que tratá-la como a
todas as outras, com o mesmo cuidado. Deve-se fazer o mesmo trabalho heurístico
(análise das características físicas e históricas do objeto) e hermenêutico (análise de seus
sentidos narrativos). A imagem também é um texto e a única diferença é que seu sentido
prescinde o da palavra escrita (com algumas exceções, como é o caso das fotografias
anotadas e dos diálogos no cinema). Assim como os velhos exercícios taxionômicos
de diferenciação entre a história e a pré-história começam a perder o sentido, ocorre
algo semelhante com o desdém dos acadêmicos com relação às fontes visuais. Desde a
segunda metade do século XX, diversos enfoques, como o da semiologia e da história da
arte, trabalharam com imagens sem nenhum problema. Cada vez é mais comum que os
historiadores trabalhem com esses tipos de fontes sem confiná-las ao papel secundário
e ornamental da ilustração. O importante é que se faça um uso da imagem (fotográfica,
artísticas, cinematográfica) conhecendo e respeitando seus sentidos. Exatamente como
faz o historiador com as fontes escritas.
É possível falar em cinema latino-americano como um fenômeno
homogêneo, como uma generalização? A partir de quando essa
cinematografia deu início ao seu desenvolvimento e interação?
Se apreciamos o conjunto da produção cinematográfica por uma posição,
culturalmente, muito distante, é inegável que existe uma unidade. No entanto, um
especialista é capaz de reconhecer inúmeras diferenças entre as épocas e as condições
de produção entre diversos países. Por exemplo, nem todos os países da América Latina
desenvolveram uma indústria cinematográfica e é difícil comparar a situação de países
como Argentina, Brasil e México com países como Colômbia, Venezuela e Equador. A
relação entre os países muda quando debatemos temas em particular. Se pensássemos
no cinema militante latino-americano dos anos setenta do século XX, veríamos que
existem países que, em nível industrial, estiveram marginalizados, como Cuba e Bolívia, e
que começaram a produzir filmes que se tornaram referência, enquanto que a produção
de países que foram fortes nos anos quarenta, como o México, ficaram situadas na
periferia. O latino-americano é um enfoque que precisa estar em constante movimento.
3. Me refiro a Olivier Debroise (editor), La era de la discrepancia: arte y cultura visual en México, 1968-
1997, México, UNAM-Turner, 2007; e Rita Eder (editora). Desafío a la estabilidad. Procesos artísticos en
xico, 1952-1967, México, UNAM-Turner, 2014.
Entrevista com Álvaro Vázquez Mantecón
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Hoje, existe um debate sobre a pertinência dos estudos comparativos no cinema
latino-americano. De um lado, estão os que pensam que as realidades são tão distintas
que é impossível estabelecer comparações. De outro, os que encontram elementos
comparativos para traçar e entender uma história comum. Eu acredito que, sem cair
em posições esquemáticas, é importante reconhecer as diferenças para encontrar os
elementos em comum. Sempre se pensa melhor um caso quando se contrasta com outro.
O historiador e crítico de cinema Paulo Paranaguá, na obra
Tradicion y
modernidad en el cine de America Latina
mostra
, de forma pouco otimista,
que essa região ainda se mostra marginal, tanto no desenvolvimento
cinematográfico quanto no campo historiográfico acerca do tema (o
qual, segundo ele, é desconhecido e não dialoga nem com disciplinas
afins). Gostaríamos que você comentasse sobre esses pontos.
Penso que a historiografia do cinema latino-americano está passando por um
bom momento. Já não é um patrimônio exclusivo de alguns historiadores e tem avançado
muito na criação de um campo de estudos específicos sobre cinema. É notável que,
nos últimos dez anos, tenham-se consolidado espaços acadêmicos em diversos países
onde os interessados em cinematografia se propõem a discutir a partir de distintas
perspectivas: SOCINE no Brasil, SEPANCINE no México, ASAECA na Argentina, entre
outros. O mais interessante é que começa a existir uma circulação internacional
de investigadores e cada vez é mais comum ver publicações que insistem em uma
perspectiva regional. O foco agora é a criação de redes de trabalhos que, por meio da
mobilidade de estudantes e do intercâmbio de professores, possam continuar com o
esforço que já se iniciou. O que me parece importante é que estão começando a fazer
estudos de cinema latino-americano a partir da América Latina e não das metrópoles
culturais estadunidenses e europeias, como estávamos acostumados. Claro que se
um pesquisador que se situa em uma dessas metrópoles estuda os fenômenos latino-
americanos, esses sempre aparecem como marginais.
Qual é o interesse, no México, por estudos que priorizam as fontes
cinematográficas nas pesquisas históricas?
Disciplinas como Comunicação e História da Arte, desde muito tempo, interessaram-
se pela história do cinema e seus meios. No entanto, é notável como tem crescido o
interesse por usar as fontes visuais nos estudos de política e sociedade contemporânea.
Se as ciências sociais experimentaram há mais de meio século um giro linguístico, creio
que agora experimentamos um giro visual, fenômenos que têm sido assinalados por
pensadores como Giovanni Sartori. O que, a princípio, fazia-se intuitivamente, agora se
faz com base metodológica mais firme. Carreiras como História e Sociologia têm matérias
específicas para a análise de imagem e de fontes narrativas. Na pós-graduação em
Historiografia da Universidad Autónoma Metropolitana, onde tralhado, temos uma linha
de análise visual que cada vez conta com um número maior de pesquisadores.
Ainda nesse viés, há algum historiador do cinema brasileiro que se
destaca nos estudos acadêmicos mexicanos, assim como cineastas,
ZIO, Andréa Puydinger de; GRECCO, Priscila Miraz de Freitas.
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filmes ou períodos que estão mais vivos nas pesquisas e debates?
Provavelmente a época mais conhecida do cinema brasileiro seja o Cinema
novo e entre os diretores, sem dúvida, destaca-se a figura de Glauber Rocha. Talvez
como um reflexo do interesse por esse período, um dos historiadores brasileiros
mais conhecidos e apreciados no México é Ismael Xavier. Seus trabalhos em torno da
alegoria como elemento de análise estética e filosófica vão mais além de sua aplicação
na obra de Glauber e se lê como um modelo de trabalho intelectual. No final de 2014,
Ismail foi convidado para ir ao México por um grupo de estudantes (o SUAC: Seminario
Universitario de Análises Cinematográfico) e teve um êxito notável.
Tendo em vista sua última publicação, El cine súper 8 en México, 1970-
1989, gostaríamos de saber sobre as particularidades do trabalho com
essa fonte, os filmes em super 8, já que ela se apresenta, também, como
um tema importante para o estudo do cinema brasileiro.
O super 8 é uma fonte difícil porque se trata de uma película em positivo que,
na maioria dos casos, carece de cópias. De forma que estamos falando de obras únicas.
É como se, para trabalhar com um romancista, só pudéssemos ter acesso aos seus
manuscritos originais. Por isso não estão conservados nos acervos como as cinematecas.
Dessa forma, para investigar esse cinema, temos que fazer um trabalho minucioso que
sempre termina sendo interessante. Tanto no caso mexicano como no brasileiro, que foi
muito bem estudado por Rubens Machado da USP, temos, nesse cinema, uma expressão
intensa, juvenil, muito perto da contracultura. E falta ainda dizer que é uma contracultura
muito típica da América Latina, que se localiza em uma margem cultural, e que, por isso,
tinha sido pouco estudada. No caso mexicano, a produção de super 8 é muito diversa
e, ainda que as obras nem sempre fossem sublimes, são capazes de proporcionar uma
fotografia imbricada de uma geração e de sua maneira de entender o mundo.
Quando o assunto é o desenvolvimento de instituições para preservação
e restauração do cinema, a Filmoteca da UNAM (Universidad
Nacional Autónoma de México) é uma referência. Você pode explicar
a importância desse tipo de instituição para o cinema e o papel do
Estado para sua manutenção?
A filmoteca da UNAM é um produto do longo sonho de uma geração de cinéfilos
que aspirava ter espaços dedicados ao bom cinema e à sua preservação. Hoje, é algo
mais que isso. Reflete a visão universitária de estudo, aquisição, preservação e difusão
de materiais fílmicos. Trata-se de um trabalho gigantesco que, dificilmente, pode-se
fazer fora do Estado. A Cinemateca Uruguaya é um caso excepcional, em nível latino-
americano, de uma instituição cultural importante gerida por particulares. No México,
existe outra grande instituição, a Cineteca Nacional, que também compartilha o
trabalho de restauração com os materiais fílmicos. Ao tratar de um assunto de memória
cultural, forma parte das responsabilidades sociais do Estado. Seria necessário que
começássemos a perguntar quem será o responsável por respaldar as produções visuais
contemporâneas, que já não passam pela película cinematográfica. A produção digital –
Entrevista com Álvaro Vázquez Mantecón
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que é imensa – está, agora, em uma terra de ninguém.
O México, principalmente durante a
Era de Ouro
4 teve forte influência
nos festivais de cinema internacionais e se manteve presente nas salas
de cinema latino-americanas, que se identificavam com o que viam nas
telas. Gostaríamos de entender qual a importância das artes para a
história mexicana desse período, além de saber como se deu a interação
entre o cinema e a pintura mexicana.
Essa é uma pergunta que deveria ser respondida com um livro, e não com
um parágrafo. O cinema mexicano nasceu em posição antagônica a da ideologia
governamental durante os anos de 1930 do século XX. Para os anos quarenta, quando
inicia a Época de Ouro, as diferenças parecem ter se diluído e podemos ver murais de
Diego Rivera em filmes como Río Escondido (1946), de Emilio Fernández, como uma
prova de que o muralismo e o discurso cinematográfico poderiam terminar entremeados
em uma mesma narração. Naquele momento, a Escuela Mexicana de Pintura, surgida
da Revolução mexicana, assumiu-se como um elemento constitutivo do imaginário
nacional. Aí vemos que a fotografia de Gabriel Figueroa estava cheia de referências
ao que acontecia na pintura. Em uma ocasião, chegou a recriar uma gravura de José
Clemente Orozco para uma cena de Flor Silvestre (1942) de Emilio Fernández. Mas,
além da anedota, é interessante ver a circulação de ideias e de imagens entre o cinema
e as artes plásticas. É algo que alavancou com clareza no momento em que Serguei
Eisenstein filmou ¡Qué viva México!, em 1931, e que, sem dúvida, continuou durante a
produção do cinema industrial.
Professor, para encerrarmos, quais temas que o senhor tem se
ocupado ultimamente?
Atualmente, estou trabalhando sobre a produção de cinema experimental em
super 8. Com o tempo, gostaria de traçar um grande panorama do cinema independente
no México e essa experimentação forma parte importante da história.
Trabalhos disponíveis on-line
Vázquez Mantecón, Álvaro. “Debates culturales en torno a la cultura visual
latinoamericana. El caso del cine en súper 8 y la contracultura desde la periferia. TRAMA
(Taller de Reflexión sobre América Latina). Los desafíos de investigar, enseñar y divulgar
sobre América Latina. Buenos Aires: Universidad Nacional de General Sarmiento, 2011.
http://www.ungs.edu.ar/cm/uploaded_files/file/publicaciones/trama/vazquez.html
Vázquez Mantecón, Álvaro. “La república ludens”, capítulo sobre a história do jogo
no México no século XIX, como parte do livro Juego y jugadores en México. México:
Pronósticos Deportivos, 2000.
http://www.historiacultural.net/hist_rev_vazquez.htm
4 Ocorrida entre os anos de 1930 e 1950, na qual o cinema mexicano apresentou intensa produção.
Foi um período voltado principalmente para o desenvolvimento de um cinema de viés nacionalista.
ZIO, Andréa Puydinger de; GRECCO, Priscila Miraz de Freitas.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.2, nº1, p. 185-191, jan.-jun., 2015.
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Vázquez Mantecón, Álvaro. “Imaginários contraculturais na segunda metade do século
XX no México: o surgimento do movimento do cinema em Super 8”. Carlos Alberto
Sampaio Barbosa e José Luis Bendicho Beired (org.), Política e Identidade na América
Latina. São Paulo: Universidade Estadual Paulista / Cultura Académica, 2010.
http://culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=132