Recebido em: 10/02/2015
Aprovado em: 22/04/2015
Gênese e atualidade da noção de América Latina:
uma reflexão sobre o sentido histórico da integra-
ção continental
Genesis and present meaning of the notion of La-
tin America: a reflection about the historical mea-
ning of the continental integration
SANTOS, Fabio Luis Barbosa dos
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Resumo: Este texto tem como objetivo refletir sobre a pertinência da noção de América
Latina no século XXI, por meio de um diálogo crítico com as posições sustentadas pelo
historiador inglês Leslie Bethell em texto recente, que faz referência particularmente
ao Brasil (BETHELL, 2009). Para estabelecer esse diálogo, recuperaremos o debate em
torno das origens da expressão no século XIX, apresentando como um contraponto
o ideário de Nuestra América forjado pelo cubano José Martí. Nossa hipótese é que a
pertinência da noção de América Latina como categoria geopolítica está referida a uma
apreciação da natureza dos nexos entre essa região e os Estados Unidos no mundo
contemporâneo.
Palavras-chave: América Latina; Nuestra America; Integração Regional.
Abstract: This article intends to discuss the validity of the notion of Latin America
1 Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Curso de Re-
lações Internacionais da Escola Paulista de Economia, Política e Negócios da Universidade Federal de São
Paulo (EPPEN-UNIFESP). Rua Angélica, 100. Jardim das Flores, Osasco, CEP 06110-295. Este artigo é uma
versão aprimorada de trabalho apresentado no III Congreso de Estudios Caribeños em julho de 2014 na cidade
de Santa Marta, Colômbia, e integra uma pesquisa sobre a pertinência da noção de América Latina no século
XXI.
SANTOS, Fabio Luis Barbosa dos
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in the 21st century, through a critical dialogue with the propositions sustained by the
English Historian Leslie Bethell in a recent text, particularly referred to Brazil. With
that aim, we recall the debate around the origins of this expression in the 19
th
century,
presenting as a counterpoint José Martí’s idea of Nuestra America. Our hypothesis is
that the present relevance of the notion of Latin America as a geopolitical category is
related to an appreciation of the nature of the connections between this region and the
United States in the contemporary world.
Keywords: Latin America; Nuestra América; Regional Integration.
Introdução
Questionar o estatuto político e cultural da América Latina não é uma novidade,
como denunciam as linhas iniciais do ensaio “Caliban”, escrito em 1971, do poeta e
crítico literário cubano Fernández Retamar (FERNÁNDEZ RETAMAR, 2004). Ao longo
do século XX, alguns dos intelectuais mais criativos do continente se debruçaram sobre
essa problemática, que teve como principal expoente nos campos da filosofia e da
história das ideias o mexicano Leopoldo Zea (ZEA, 1957; 1976; 1985; 1995). A novidade é
ver um historiador inglês decretar a inutilidade do conceito, o que talvez gerasse pouca
repercussão não fosse o fato de que esse professor organizou uma obra de referência
sobre a área: “História da América Latina” editada pela Universidade de Cambridge,
traduzida para o castelhano e o português, e indicada como referência bibliográfica
em cursos superiores sobre o tema ao redor do mundo (BETHELL, 1990-1996). A pedra
angular do raciocínio apresentado pelo professor para desmontar o conceito é defender
a impertinência de considerar o Brasil como parte da região no século XXI, o que instiga
brasileiros que pensem o contrário a se manifestarem.
Em seu texto “O Brasil e a ideia de ‘América Latina’ em perspectiva histórica”,
publicado no país em 2009, o historiador inglês Leslie Bethell, inicialmente, reconstituiu
a construção da ideia de América Latina no século XIX. O autor demonstrou que os
hispano-americanos não integravam o Brasil em suas discussões, e tampouco os
brasileiros se enxergavam como partícipes de projeções de unidade continental. Bethell
argumentou que foi somente após a Segunda Guerra Mundial que se gestou no país
a percepção de uma identidade latino-americana. Em um raciocínio análogo ao que
John Phelan (PHELAN, 1986) construiu sobre a afirmação da América Latina como uma
denominação continental, o historiador inglês sugeriu que o motor dessa mudança de
percepção não seria endógeno, mas radica em alterações na formulação da política
externa dos Estados Unidos, que passam a encarar o continente dessa maneira. Bethell
encerrou seu texto indicando que, pela primeira vez em sua história, a política externa
brasileira tem como foco a América do Sul (mas não a América Latina), interpretada
como um caminho para afirmar-se como uma potência regional. O texto é concluindo
com a seguinte sentença:
É chegada a hora de o mundo parar de considerar o Brasil como parte daquilo
que, na segunda metade do século XX, foi chamado de América Latina, um
conceito que seguramente perdeu a utilidade que talvez tenha tido alguma vez
(BETHELL, 2009, p. 289).
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O presente artigo toma como ponto de partida as proposições de Bethell,
aliadas a questionamentos instigados por minha experiência profissional na UNILA
(Universidade Federal da Integração Latino-Americana) em Foz do Iguaçu - universidade
que, como o próprio nome anuncia, tem como referência a integração continental - para
uma reflexão orientada a restituir a densidade política da noção de América Latina no
século XXI, em particular para os brasileiros.
Embora a resposta a Bethell seja antes um pretexto do que um objetivo
deste texto, seu fio condutor é o nexo estabelecido entre as duas proposições
conclusivas do artigo do historiador inglês: a impertinência em considerar o Brasil como
parte da América Latina na atualidade e, como decorrência, a inutilidade do próprio
conceito. Contrapondo-se a esse raciocínio, procuro restituir as premissas históricas
que conferem sentido à noção de América Latina como expressão de um desígnio de
unidade continental e, como desdobramento, reafirmar os fundamentos políticos de um
horizonte civilizatório para o Brasil referido a América Latina. Minha hipótese é que a
pertinência dessa noção está relacionada, por um lado, a uma apreciação da natureza
dos nexos entre essa região e os Estados Unidos no mundo contemporâneo e, por
outro, às premissas políticas que orientam o horizonte civilizatório que se projeta para
o Brasil.
1.
Os dois estudos seminais em torno à gênese do termo América Latina foram
publicados no ano de 1965, respectivamente pelo historiador estadunidense John Phelan
e pelo filósofo uruguaio Arturo Ardao (PHELAN, 1986), (ARDAO, 1965; 1980). Phelan
argumenta que a noção de “América Latina” como uma entidade geopolítica foi cunhada
e difundida nos marcos da ideologia panlatina forjada durante o império de Napoleão III
na França. O historiador estadunidense sugeriu que o nexo ideológico entre a “Europa
Latina”- expressão de curso corrente no Velho Mundo naquela conjuntura - e a “América
Latina”, seria principalmente obra de um funcionário do império enviado ao Novo
Mundo em decênios anteriores, Michel Chevalier. Nessa perspectiva, o termo indicaria
uma área de potencial influência francesa na América, legitimando a invasão ao México,
iniciada em 1861, no contexto da Guerra da Secessão nos Estados Unidos, mesmo ano
em que Chevalier publicou o artigo que Phelan considerava como a referência original à
expressão. A decorrência de maior impacto da hipótese do historiador estadunidense é
uma leitura segundo a qual o termo “América Latina” foi forjado e difundido nos marcos
da política expansionista francesa para o continente.
Quase simultaneamente ao trabalho de Phelan, Arturo Ardao apresentava
resultados de uma pesquisa apontando em sentido diverso. O filósofo uruguaio mapeou
múltiplas referências a uma “América Latina” em diversos políticos e publicistas da
América hispânica, em meados do século XIX, até identificar nos escritos, do granadino
José María Torres Caicedo, nos anos 1850, e, mais especificamente, em um poema
intitulado “Las dos Américas”, uma mudança significativa: o termo “latino” tornara-
se um substantivo e não mais um adjetivo de América. Desde então, a paternidade da
expressão tem sido objeto de polêmica. O historiador chileno Miguel Rojas Mix defende
a primazia de seu compatriota Francisco Bilbao, que teria veiculado o termo em uma
conferência em Paris, em 1856, cidade em que também vivia Torres Caicedo. Rojas
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sugere que o intelectual granadino se apropriou do termo empregado por Bilbao, que
posteriormente o abandonaria por motivos políticos, como resposta crítica à invasão
francesa ao México (ROJAS MIX, 1986).
Mais recentemente, a historiadora Aims McGuiness identificou a expressão em
um texto intitulado “La cuestión americana y su importancia, publicado no mesmo
ano de 1856 pelo representante panamenho no Senado colombiano, Justo Arosemena
(AROSEMENA, 1982). Reivindicado posteriormente como uma espécie de patrono
do nacionalismo panamenho, Arosemena defendeu, na ocasião, um projeto de união
hispano-americana em termos similares aos avançados por Torres Caicedo, ao mesmo
tempo em que lutou pela autonomia dessa província colombiana (MCGUINESS, 2008).
O contexto que produziu essa circulação simultânea da expressão é iluminado pelo
livro da historiadora estadunidense, “Path to Empire” (MCGUINESS, 2008). Estudando
as relações entre a corrida para o oeste nos Estados Unidos e a questão social e racial na
região do istmo do Panamá, a historiadora sugeriu nexos entre os conflitos decorrentes
da expansão estadunidense e a difusão da expressão “América Latina”. Em 1848,
mesmo ano em que foi assinado o tratado Guadalupe-Hidalgo, consumando a expansão
territorial dos Estados Unidos a expensas do México vencido na guerra, anunciou-se
a descoberta de ouro na Califórnia. Este episódio desencadeou migrações massivas de
americanos do leste para o oeste do país, forçados a atravessar o continente por um
de seus pontos mais estreitos: o istmo de Tehuantepec no México, a rota nicaraguense
aproveitando-se do lago no interior do país, ou mais comumente, através do Panamá,
que integrava a Nova Granada (futura Colômbia) naquele momento. Esse afluxo em
massa de estadunidenses à região causou diversos conflitos analisados por McGuiness,
culminando na primeira de muitas intervenções militares estadunidenses na história
panamenha, em 1856.
É neste mesmo ano que, após prestar serviços à facção vencedora na guerra civil
entre Leon e Granada, ascendeu à presidência da Nicarágua o famoso flibusteiro William
Walker. Múltiplas motivações se entrelaçaram na empreitada desse filho do Tenessee,
incluindo a disputa entre empresários ianques pela exploração da rota interoceânica,
através do Lago Nicarágua, e o projeto sulista de adicionar um voto escravista à
federação, como pretendeu a fracassada expedição de Narciso Lopez a Cuba em 1850.
De fato, em seu breve governo, reconhecido pelos Estados Unidos, Walker aboliu as leis
anti-escravistas. Deposto por uma coligação militar liderada pelo presidente da Costa
Rica, o flibusteiro prosseguiu em suas atividades até ser executado por autoridades
hondurenhas em 1860 (LAFEBER, 1993).
Antes de serem episódios isolados, esses eventos evidenciaram o movimento
de expansão estadunidense, embalado pela ideologia do destino manifesto, em uma
conjuntura em que os interesses do país também se expandiam em direção à Ásia
(WILLIAMS, 1962). É esse o substrato político da ocorrência simultânea da expressão
em Torres Caicedo, Bilbao e Arosemena – quem, diga-se de passagem, cita a conquista
do Texas, o flibusteiro William Walker e a expedição do Comodoro Perry ao Japão em
sua defesa do “interés latinoamericano”. Assim, a despeito da polêmica em torno do
pioneirismo no emprego do termo, a senda aberta por Ardao mostrou que, ainda que
a matriz ideológica subjacente à expressão “América Latina” seja tributária da cultura
europeia em geral e francesa em particular, foi como uma reação política nativa à
projeção estadunidense, particularmente na América Central, que o termo ganhou a
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densidade histórica que o consagrou.
2.
Afastando-se da polêmica em torno à paternidade do termo, a historiadora
Monica Quijada critica a visão de Phelan, adicionando um argumento político ao debate,
ao perguntar-se porque adotariam os latinoamericanos um termo identificado com
uma agressão unanimemente condenada na região. Aceitando a gestação endógena
da expressão, Quijada enfoca, portanto, um problema diverso: por que a expressão
América Latina foi adotada nos anos seguintes, em detrimento de concorrentes como
América Espanhola ou Gran Colombia (QUIJADA, 1998).
Segundo essa historiadora, a explicação decorre da confluência entre dois
fatores: o ressurgimento de tendências que advogavam a unidade entre os países da
América espanhola, em resposta ao expansionismo estadunidense, e a “racialização”
das categorias explicativas, parte de um fenômeno geral no ocidente no século XIX.
Assim, tanto Bilbao como Torres Caicedo (bem como Arosemena, que não é citado em
seu texto), referem-se à oposição entre a América Latina e a América anglosaxônica em
termos raciais: “la raza latinoamericana”, descreve o chileno no Evangelho Americano,
enquanto o poema do segundo diz: “La raza de la América latina / al frente tiene la
sajona raza”.
Nesse sentido, embora gestada na América hispânica, a dicotomia entre América
Latina e América Anglosaxônica está referida a um vocabulário e a uma visão de mundo
característicos da Europa do século XIX, em que era corrente a oposição entre a Europa
Latina e a Anglosaxônica, ou germânica, como lembra Quijada:
De hecho, al promediar el siglo XIX era tan normal hablar de las “razas” en
general, de la división del género humano en “razas superiores” e “inferiores” e
incluso de las rivalidades entre la “raza latina” y la “germana” o “anglosajona”,
como lo es hoy referirse a “culturas”, a “naciones”, o a las rivalidades entre
Estados (QUIJADA, 1998, p. 599).
Quais as vantagens subjetivas, do ponto de vista dos hispano-americanos, em
adotar a denominação “América Latina”? Segundo a historiadora espanhola, a filiação
latina conferia projeção universal aos seus dilemas, inscritos na oposição entre latinos
e anglosaxões, o que poderia motivar simpatia europeia a sua causa, mas, sobretudo,
pode ser interpretado como uma maneira de afirmar o estatuto civilizatório daqueles que
Benedict Anderson chamou como os “Estados Criollos” (ANDERSON, 2003). O intelectual
chileno Walter Mignollo, que também se debruçou sobre o problema, acrescenta uma
perspectiva de classe a esse argumento quando aponta que a reivindicação latina não
contradizia a reprodução dos privilégios sociais, assentada na discriminação de negros
e índios no continente (MIGNOLLO, 2005).
A identidade latino-americana se afirmaria nos decênios seguintes à luz dos
esforços do secretário de Estado norte-americano, James Blaine, para concretizar uma
união panamericana, em nome da qual convocou uma conferência em Washington nos
anos 1880.
No entanto, seria a intervenção dos Estados Unidos na guerra de independência
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de Cuba em 1898 – que se converteu então em uma “Guerra Hispano-americana” – o
marco referente dessa consciência hispano-americana, como mostra, entre outros, o
crítico literário espanhol Teodosio Fernandez (FERNÁNDEZ, 2000). A indignação frente
à agressividade dos Estados Unidos aproximaria homens de letra hispano-americanos
das raízes espanholas do continente, a despeito da simpatia generalizada com a causa
cubana prevalente na época.
Assim, no próprio ano de 1898, Ruben Dario mobilizou a figura de Caliban
em defesa do campo hispânico e, na virada do século, o uruguaio José Enrique Rodó
celebrou, no continente, a dicotomia com Ariel em seu ensaio (RODÓ, 1998). Entre outras
expressões dessa consciência identitária, nos anos seguintes, é possível mencionar,
em polos opostos do sub-continente, a utopia da “Nação Latinoamericana” avançada
pelo argentino Manuel Ugarte (UGARTE, 1987), e as especulações em torno a uma
“raça cósmica” do ministro revolucionário mexicano José Vasconcelos – indicando a
longevidade da noção de raça na América Latina, ainda que em uma direção humanista,
sugerida pela consigna que batizou a Universidad Nacional Autónoma de México
(UNAM): “por mi raza hablará el espíritu” (VASCONCELOS, 2002).
Retomando o argumento de Monica Quijada, observa-se que no processo de
afirmação da identidade latino-americana no final do século XIX e princípios do século
XX, conflui uma reação ao expansionismo estadunidense que a historiadora espanhola
denominou como uma “racialização” das categorias explicativas. Assim, a “América
Latina” afirmou-se em oposição à “América Anglo-saxônica” e por aproximação ao
legado latina da cultura europeia. Depois dos eventos na América Central que motivaram
o termo na sua origem, Quijada identificou, na Primeira Conferência Panamericana,
convocada por James Blaine e na Guerra da Independência Cubana, entre 1895-98, dois
marcos sucessivos nesse processo identitário.
Houve um personagem que participou desses dois eventos e cujo ideário, na
minha leitura, endossa a interpretação de Quijada por um caminho complementar. O
cubano José Martí (1853-1898) participou da Conferência Panamericana, em 1889, como
delegado pelo Uruguai e teve atuação decisiva, juntamente com o delegado argentino,
Roque Saenz Peña, para frustrar os desígnios estadunidenses. Saenz Peña, que depois
seria presidente da Argentina, cunhou o lema “América para a humanidade” em oposição
à doutrina Monroe (RONNING, 1970), enquanto Martí pronunciou um de seus discursos
mais famosos, “Madre América, em um evento cultural em que estavam presentes os
delegados da Conferência.
Martí também foi o mentor intelectual e principal articulador do Partido
Revolucionário Cubano, fundado poucos anos depois (1892), responsável por
desencadear a Guerra da Independência em 1895. Exegetas do pensamento martiano,
como Fernandez Retamar, localizam no final dos anos 1880 a maturação do ideário do
militante cubano, que se condensaria no projeto de “Nuestra América. Dois eventos são
considerados determinantes para essa evolução: os protestos operários em Chicago no
ano de 1886 (que estão na origem do 1º de maio como dia do Trabalhador) e a referida
Conferência Panamericana. Deve-se lembrar que Martí vivia nos Estados Unidos,
depois de circular por diversos países latino-americanos (como México, Guatemala e
Venezuela), já que estava banido de Cuba desde a sua prisão aos dezessete anos –
pena que seu pai, um militar espanhol em serviço na ilha, conseguiu comutar pelo exílio
(FERNÁNDEZ RETAMAR, 1971).
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Consciente da vulnerabilidade da posição cubana, premida entre o colonialismo
espanhol e o expansionismo estadunidense, Martí inscreveu a guerra da independência
nas Antilhas em uma problemática mais ampla: o destino da América Latina. Para realizar
esse movimento, o cubano realizou o seguinte percurso ideológico: em primeiro lugar,
buscou um denominador comum entre os países americanos ao sul do Rio Bravo, que
localizou na história: Martí identificou uma origem comum, que por sua vez, projetava
um potencial civilizatório conjunto, percepção sintetizada em uma linha de sua alocução
“Madre América”: “Del arado nació la América del Norte, y la Española, del perro de
presa” (MARTÍ, 2000, t. 2, p. 425).
Em segundo lugar, Martí valorizou a especificidade da cultura latino-americana,
na qual identificou um potencial civilizatório único e original, ao mesmo tempo em que
salientava o estatuto particular da cultura europeia. Como premissas dessa reivindicação
do americano, Martí integrou o indígena e o negro ao seu projeto de formação nacional e
continental, em contraste notável, por exemplo, com Justo Arosemena, cuja confederação
americana discriminava negros e aborígenes. A democratização radical do seu projeto
político encontrou correspondência em um movimento no plano das ideias, em que o
pensador cubano rechaçou a noção de raça como categoria social válida: “El hombre no
tiene ningún derecho especial porque pertenezca a una raza o otra: dígase hombre, y ya
se dicen todos los derechos” (MARTÍ, 2000, t. 2, p. 205).
Esse humanismo radical que embasou a política martiana, levou-o a desmascarar
o substrato ideológico da dicotomia civilização e barbárie, em um contraste notável
com o pensamento de Sarmiento:
(...) el pretexto de que la civilización, que es el nombre vulgar con que corre el
estado actual del hombre europeo, tiene derecho natural de apoderarse de la
tierra ajena perteneciente a la barbarie, que es le nombre que los que desean
la tierra ajena dan al estado actual de todo hombre que no es de Europa o de
la América europea (MARTÍ, 2000, t. 1, p. 450).
É pertinente recordar que quando esteve no Haiti, Martí conheceu Antenor
Firmin, autor da obra “De l’égalité des races humaines” (FIRMIN, 2005), uma resposta
contundente proveniente da república negra das Antilhas ao ensaio de Gobineau sobre
a desigualdade das raças humanas, de extraordinária repercussão na Europa.
Em suma, ao projetar a luta cubana sobre o destino latino-americano, Martí
buscou na história elementos de uma identidade comum cuja especificidade procurou
valorizar, o que o levou a rechaçar a racialização das categorias: é esse humanismo
radical que substancia a aliança social, que sustenta a política do PRC, sintetizada na
consigna: “con todos y para el bien de todos”.
Por outro lado, enfrentando, simultaneamente, o colonialismo espanhol e o
expansionismo estadunidense, Martí afastou-se de uma identificação do destino
continental com a cultura latina projetando um horizonte civilizatório próprio,
alicerçado na autoctonia. Em suas palavras, “La universalidad europeia ha de ceder
a la universalidad americana”. Daí a valorização dos povos aborígenes, traduzida na
afirmação de que a nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa, por nos ser mais
necessária, assim como o vinho de plátano: “Injértese en nuestras repúblicas el mundo;
pero el tronco ha de ser el de nuestras repúblicas”, sentencia Martí (MARTÍ, 2000, t. 2,
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p. 483).
O ideário humanista martiano é sintetizado na noção de “hombre natural”, que
supõe uma natureza humana transcendente para o homem americano, em contraste com
o materialismo que domina a sociedade europeia e estadunidense. Martí propôs, para o
continente, uma sociabilidade alternativa, alicerçada em uma racionalidade amorosa de
inspiração cristã em oposição ao “ódio de classes” prevalente nas sociedades industriais.
Premido entre o colonialismo espanhol e o expansionismo estadunidense, Martí
projetou para o continente um horizonte civilizatório alternativo, que não estava
referido à Europa latina nem aos Estados Unidos. Em face deste dilema, foi levado a
buscar uma denominação que refletiu de maneira lapidar os paradoxos envolvidos:
Nuestra América, termo empregado anteriormente por diversos americanos, mas cujo
sentido político original é, geralmente, atribuído a Francisco de Miranda (BOHORQUEZ
MORÁN, 2003). Ao adotar esse termo, Martí assumiu a denominação europeia para a
região, apropriada pelos Estados Unidos (“América”), indicando ao mesmo tempo, que
o subcontinente estava destinado a não ser latino nem americano – no sentido inferido
pela Doutrina Monroe. Afirma que seremos América afinal – como vislumbraram os
europeus e projetaram os estadunidenses -, mas do nosso jeito.
Assim, convergem no ideário de Nuestra América um projeto geopolítico
defensivo face ao expansionismo estadunidense e uma utopia humanista própria e
original, de alcance universal. É nesse duplo sentido que o pensador cubano identificou
o desenlace da guerra nas Antilhas com o “equilíbrio del mundo”.
La guerra de independencia de Cuba, nudo del haz de islas donde se ha de
cruzar, en plazo de pocos años, el comercio de los continentes, es suceso
de gran alcance humano, y servicio oportuno que el heroísmo juicioso de
las Antillas presta a la firmeza y trato justo de las naciones americanas, y al
equilibrio aún vacilante del mundo (MARTÍ, 2000, t. 3, p. 517).
Retomando o diálogo entre a hipótese de Quijada e a análise de Martí, verificamos
que, impossibilitado de identificar o destino latino-americano com a Europa latina
em uma circunstância em que a Espanha era o inimigo imediato, o pensador cubano
descarta a racialização das categorias ao mesmo tempo em que refere à autoctonia
o horizonte civilizatório de sua utopia de unidade continental, face ao expansionismo
estadunidense. Antes de ser uma operação ideológica, esse movimento correspondeu
a uma radicalização política de sentido democrático do projeto martiano, que permitiu
situá-lo entre os esforços pioneiros para subordinar o desenvolvimento capitalista
aos desígnios da sociedade nacional no contexto de difusão das relações de produção
capitalistas no continente.
Nessa perspectiva, o desenlace da Guerra da Independência cubana, em que
a intervenção militar estadunidense no ocaso do conflito frustrou a emancipação
nacional, encerra um paradoxo. Por um lado, conforme já observado, a imediata derrota
espanhola no confronto com os Estados Unidos no Caribe e na Ásia provocou uma
onda de hostilidade à potência americana, que se desdobrou em uma reivindicação da
latinidade, evidenciada na repercussão do ideário arielista esboçado por Rodó. Por outro
lado, na crítica arielista à “nordomania”, ressoa a racialização das categorias referida
por Quijada. A radicalidade democrática do projeto martiano derrotado, em que índios e
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negros eram protagonistas, é dissolvida em uma ideologia compatível com a reprodução
dos privilégios sociais que caracterizavam as repúblicas criollas coevas.
Para nomear o problema em vocabulário político contemporâneo, a reação
prevalente aos acontecimentos de 1898 na América Latina evidenciou a dimensão
nacional do anti-imperialismo a expensas do seu conteúdo de classe, prefigurando um
dilema recorrente na política democrática do continente ao longo do século XX2. É esse
descolamento entre soberania e igualdade que o intelectual cubano Fernández Retamar
endereçou quando, no contexto da revolução cubana, reivindicou o papel de Caliban em
lugar de Ariel para a América Latina, invertendo a leitura de Rodó.
3.
Até esse ponto, indicamos que a noção de América Latina se afirmou em resposta
a expansão estadunidense, em um contexto em que a racialização das categorias
informava um projeto político de unidade do subcontinente. Na sequência, ao recuperar
o ideário martiano, observamos que a superação das categorias raciais correspondeu a
uma radicalização da dimensão democrática da integração nacional, que se articulava
à reivindicação de uma originalidade histórica como ponto de apoio de um projeto de
unidade continental, vislumbrado, simultaneamente, como uma estratégia geopolítica
defensiva face aos Estados Unidos, e um horizonte civilizatório próprio de estatura
universal.
Nesse ponto, é possível localizar, com precisão, as premissas políticas que
fundamentam a vitalidade do conceito de América Latina no século XXI: a pertinência
de uma política de integração continental para contrarrestar as pressões do capital
internacional, em geral, e dos Estados Unidos em particular, nos marcos de uma estratégia
para assumir o controle sobre o tempo e o ritmo da mudança social, objetivando afirmar
sociedades relativamente equitativas e autoreferidas. Ou para enunciar em uma linha,
sua pertinência está referida a uma apreciação da atualidade de um projeto de unidade
continental no contexto do imperialismo.
Assim, Leslie Bethell, ao afirmar que o conceito de América Latina “seguramente
perdeu a utilidade que talvez tenha tido alguma vez”, inferimos que o historiador inglês
considera desatualizada ou irrelevante a problemática que motivou sua origem, qual
seja, a natureza assimétrica e predatória da relação entre os Estados Unidos e os demais
países da região. Essa é uma leitura política possível, embora contestada por uma ampla
e plural tradição crítica latino-americana, que situa a questão do imperialismo - ou para
usar os termos da CEPAL, as relações centro-periferia - no âmago da problemática do
subdesenvolvimento.
Por outro lado, ao considerar que o sentido do termo América Latina se esvaziou,
desde que o México aderiu ao NAFTA (North American Free Trade Agreement) e o Brasil
orientou sua política externa na direção da América do Sul, sob a égide da UNASUL,
Bethell assume como dados processos políticos em curso e, portanto, objetos de disputa.
Basta recordar o levantamento zapatista em Chiapas, em 1º de janeiro de 1994, mesmo
2 Para dar dois exemplos: o debate entre Mariátegui e Victor Raul Haya de la Torre, líder da APRA; e
os impasses na relação entre operários e movimento indígena na história da Bolívia, em particular na revolução
de 1952 – que por sua vez, remetem ao problema da aliança operário-camponesa.
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dia em que entrou em vigor o NAFTA, ou o plebiscito popular sobre a ALCA em 2002,
ponto culminante de uma intensa mobilização social contra essa proposta no Brasil,
e que incidiu no fracasso da iniciativa. Para aqueles que consideram irreversível os
rumos da política mexicana, é pertinente lembrar que, embora os processos históricos
não sejam reversíveis – porque o próprio tempo não o é -, tampouco são inexoráveis.
Para dar dois exemplos aleatórios, eram raros os franceses que, no começo do século
XX, imaginavam uma Argélia independente, ou os soviéticos que vislumbraram o
esfacelamento da União quando morreu Stálin. Nessa perspectiva, a naturalização
de um contexto político em disputa revela-se como um procedimento intelectual
antidemocrático, na medida em que ignora o potencial de mudança social inerente à
própria história, o que na era neoliberal ressoa à ideologia do fim da história.
Desse modo, reivindicar a atualidade do conceito de América Latina significa
posicionar-se criticamente em relação às políticas que reafirmam uma inserção
internacional da região subordinada aos Estados Unidos e que, como decorrência,
reforçam a fragmentação continental, como é o caso do “Plan Colombia”, do NAFTA já
citado, dos Tratados de Livre Comércio assinados por diversos países em anos recentes,
entre outros. De forma correspondente, sugerir que a noção de América Latina está
ultrapassada, justamente em função de políticas dessa natureza, revela um empenho em
transformar uma questão em disputa em um fato consumado, operação característica
da ideologia e não do pensamento crítico.
Em suma, se a noção de América Latina terá vitalidade conceitual em anos
futuros, é uma questão em aberto, a ser resolvida não na academia, mas, sim, no terreno
da política, no qual os intelectuais têm um papel relevante, mas limitado. Afinal, há
sempre o risco de que a teoria seja atropelada pela história.
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