Poder, moral e dinheiro: A CPI da Última Hora na imprensa e
nas memórias
Power, morale and money: The CPI of the Última Hora
in the press and in the memoirs
ROSALINO, Antonio Robson de Freitas *
https://orcid.org/0000-0002-1510-4326
BRAGA, Raiomara Lopes **
https://orcid.org/0009-0001-4304-6194
RESUMO: Este artigo pretende problematizar a
Comissão Parlamentar de Inquérito da Última
Hora como um momento de crise da República.
A investigação feita no Congresso Nacional
acerca do financiamento do Última Hora, jornal
aliado de Getúlio Vargas e dirigido por Samuel
Wainer, com dinheiro de bancos públicos, teve
grandes repercussões no noticiário de 1953 e
envolveu três tópicos principais: poder, dinheiro
e moralidade. Desse modo, este trabalho
analisará como estes três pontos supracitados se
articulam para criar um tensionamento de forças
em torno da CPI. Será utilizado neste trabalho o
jornal Tribuna da Imprensa, periódico fundado
por Carlos Lacerda, um dos principais inimigos
de Wainer e Vargas; caricaturas desenhadas por
Hilde Weber e uma breve análise sobre a CPI nas
autobiografias de Carlos Lacerda e Samuel
Wainer. Como metodologia, utilizaremos os
procedimentos de pesquisa em periódicos
propostos por Tânia Regina de Luca (Luca, 2010)
e a metodologia de interpretação de imagens
descrita na obra de Vinícius Liebel (Liebel, 2017).
PALAVRAS-CHAVE: CPI; Poder; Imprensa;
ABSTRACT: This paper aims to problematize the
Parliamentary Commission of Inquiry of Última
Hora as a moment of crisis in the Republic. The
investigation in the National Congress about the
financing of Última Hora, a newspaper allied to
Getúlio Vargas and headed by Samuel Wainer
with money from public banks had major
repercussions on the news of 1953 and involved
three main topics: power, money and morality.
This paper will analyze how these three points
mentioned above are articulated to create a
tension of forces around the CPI. This paper will
use as reference the newspaper Tribuna da
Imprensa, a periodical founded by Carlos
Lacerda, one of the main enemies of Wainer and
Vargas; caricatures drawn by Hilde Weber and a
brief analysis of the CPI in the autobiographies of
Carlos Lacerda and Samuel Wainer. The
methodology will use the procedures of research
in periodicals proposed by Tânia Regina de Luca
(Luca, 2010) and the image interpretation
methodology described in the work of Vinícius
Liebel (Liebel, 2017).
KEYWORDS: CPI; Power; Press;
* Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, Mestrando em História, Programa
de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Ceará, Bolsista CAPES. E-mail:
antoniorobsondefreitas@gmail.com
** Graduada em História pela Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza-CE, Mestranda em História, Programa
de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Ceará, Bolsista CAPES. E-mail:
raiomaralopes@gmail.com
Este é um artigo de acesso livre distribuído sob licença dos termos da Creative Commons Attribution License.
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Faces da História, Assis/SP, v. 10, n. 2, p. 132-150, jul./dez., 2023
Recebido em: 20/07/2023
Aprovado em: 17/10/2023
História da imprensa: Tribuna da Imprensa e Última Hora
Os dois principais envolvidos na crise da República de 1953, a “CPI da Última Hora”,
Carlos Lacerda e Samuel Wainer, fundadores dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora,
respectivamente, começaram quase ao mesmo tempo que os partidos políticos, a envolver-
se ainda no ano de 1949, na sucessão presidencial e nos debates sobre a corrida eleitoral
que se aproximavam, Wainer com a bombástica entrevista com Getúlio Vargas e Lacerda
com a fundação de seu jornal, veículo que serviu em 1950, como porta-voz de suas ideias e
da União Democrática Nacional, a UDN.
Sobre a entrevista de Vargas feita por Wainer: em 1949, quando ainda era jornalista
dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, ele conversou com Vargas, sendo esse
diálogo o responsável pelo reaparecimento do político perante ao público depois dos longos
anos de regime autoritário e de seu “autoexílio” em São Borja (Costa, 2014) após ter sido
empossado senador por seu estado natal. Assim, começou a aproximação entre os dois
(Capelato, 1988), a qual viria a ter como principal fruto, o jornal Última Hora.
Do lado oposto ao do jornalista Samuel Wainer temos o também jornalista Carlos
Lacerda. Foi durante o contexto de preparação para a sucessão presidencial, mais
precisamente nos dias finais de 1949, que o Tribuna da Imprensa começou a circular na
então capital do Brasil. Esse jornal foi fundado por Lacerda após a sua saída do jornal Correio
da Manhã, onde atuava como colunista. O periódico traz em seu título o nome de sua ex-
coluna, “Na Tribuna da Imprensa.” Para o seu surgimento, o Tribuna contou com o apoio e a
mobilização de políticos udenistas, de intelectuais católicos conservadores, de grupos
liberais ligados ao capital externo e da burguesia industrial (Delgado, 2006a), o que explica o
alinhamento político do periódico a favor da UDN, além do fato de Lacerda ser filiado ao
partido desde 1945 (Delgado, 2006b). O Tribuna, desde a sua origem, se mostrou oposição a
Getúlio e, conforme os laços entre o ex-presidente e Wainer foram se estreitando, o jornal
também se colocou como oposição ao antigo colega de Lacerda.
A eleição presidencial de 1950 foi disputada por Getúlio Vargas, Cristiano Machado,
João Mangabeira e Eduardo Gomes, sendo que os partidos políticos e lideranças políticas
desta época estavam discutindo o problema da sucessão presidencial desde 1949, levando
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em conta o fim do governo Dutra e o começo de um novo governo na democracia que havia
surgido após 1945. Desse modo, alianças e acordos políticos foram construídos visando unir
forças para enfrentar um cenário incerto diante do resultado que poderia surgir na apuração
dos votos (D’Araújo, 1992, p. 42-84). No geral, com a redemocratização, a grande imprensa
começou a publicar em suas páginas declarações contra Getúlio Vargas e, nas eleições de
1950, assim como fizera nas eleições de 1945, apoiou o brigadeiro Eduardo Gomes,
candidato à presidência pela UDN. No ano de 1950, Getúlio Vargas foi eleito como
presidente do Brasil ao obter a cifra de 3 milhões de votos (D’Araújo, 1992, p. 84).
O retorno de Getúlio Vargas ao cargo de Presidente da República, oficialmente a
partir de 31 de janeiro de 1951, incomodou diversos adversários, principalmente os da UDN,
tendo em vista que logo após a divulgação do resultado final da disputa eleitoral, uma de
suas principais figuras dentro deste partido, Carlos Lacerda, afirmava que a obtenção de um
total de 48,7 por cento do total de votos era incapaz de dar uma vitória para Getúlio,
entretanto tal argumento não tinha uma legítima sustentação constitucional (Skidmore,
2010, p. 136). De acordo com o ideário udenista propagado, a reeleição de Vargas era um
claro indício que a democracia que foi restaurada não estava funcionando corretamente.
Vargas ganhou a eleição sem contar com o apoio da grande imprensa brasileira
(Capelato, 1988, p. 51), como foi mencionado. Segundo Alzira Alves de Abreu e Fernando
Lattman-Weltman, os principais órgãos de comunicação do Brasil, principalmente os do eixo
Rio-São Paulo, se colocaram contra a candidatura de Vargas e, após a vitória do gaúcho,
contra o seu governo (Abreu; Lattman-Weltman, 1994). Como não tinha apoio da grande
imprensa brasileira da época e sabia da importância desta para a manutenção do poder,
Vargas após a sua vitória, decidiu investir na criação de um jornal que fosse, entre os jornais
antigetulistas, defensor e divulgador de sua imagem e de seu governo.
Consciente da necessidade de ter uma base de sustentação no meio jornalístico, o
Presidente eleito procurou Samuel Wainer, com quem articulou a criação do jornal
Última Hora em 1951. A partir dessa época travou-se intensa peleja entre esse
órgão getulista e os porta-vozes da UDN (União Democrática Nacional) O Estado
de S. Paulo e Tribuna da Imprensa, principalmente (Capelato, 1988, p. 51).
Segundo Maria Celina D’Araújo, o segundo governo Vargas é marcado por uma crise
causada por uma série de fatores: não havia uma concordância e confiança entre as elites
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sobre as políticas e os propósitos do governo de respeitar as instituições e a ordem
constitucional; o governo não se amparava nos partidos para obter consenso político; o
esforço de construção de alianças com os partidos de oposição desgastou a base de apoio
mais próxima; o poder de interdição da UDN; e, por fim, a defesa da política de
desenvolvimento econômico e social nacionalista é feita principalmente por determinadas
instituições criadas especialmente para este fim e não por meio de uma anuência partidária
(D’Araújo, 1992, p. 39-40). Todavia, este tipo de entendimento sobre o segundo governo
Vargas pode ser problematizado, porque “[...] revela-se o resíduo do pensamento autoritário
brasileiro, que apenas no consenso a condição para soluções legítimas, e que considera a
imprevisibilidade como sinônimo de caos” (Costa, 2016, p. 45).
De modo geral, o governo Vargas foi marcado por uma crise econômica e por uma
crise política que se entrelaçam desde o seu começo (Leopoldi, 1994, p. 197). Além destes
problemas que impactaram o segundo mandato de Vargas, é possível pensar que os
problemas enfrentados durante este governo podem ser caracterizados como uma crise da
República. Desde a eleição de Vargas em 1950 até o seu suicídio em 1954, é possível
constatar que o segundo governo Vargas foi perpassado por uma disputa de construção de
um projeto de República, seja pelos nacionais-estatistas ou pelos liberais-conservadores.
Mesmo que a CPI da Última Hora não tenha sido uma situação limite como as crises da
República de 1954, 1955 e 1961, que foram analisadas por Jorge Ferreira (Ferreira, 2003,
p.338), cabe ressaltar que este evento também é um momento de crise na qual o papel do
governo com as empresas de comunicação é questionado, abalando e tensionando ainda
mais as escaramuças em torno da construção democrática de uma República recém-
instaurada.
A operação de financiamento do Última Hora foi feita com o auxílio do Walter
Moreira Salles, Euvaldo Lodi e Ricardo Jafet, homens detentores de grande poder monetário
que proporcionaram facilidades para a concretização daquele periódico (Wainer, 1993, p.
129-130). Para Ana Maria de Abreu Laurenza, essa operação de financiamento do Última
Hora não se diferenciava de outras realizadas na formação de novos grupos editoriais
desde a República Velha. Mas, esse financiamento junto ao Banco do Brasil para o
lançamento do Última Hora, acabou levando à instauração de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito da CPI, em 1953 (Laurenza, 2008). A CPI foi instaurada em junho de 1953 e teve o
seu relatório final publicado em 18 de novembro do mesmo ano. Com relação ao
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financiamento público do Estado com a imprensa, é possível afirmar que a estratégia de
Lacerda e de outros donos de jornais ao acusarem Wainer de estar se beneficiando de
maneira ilícita dos empréstimos obtidos do Banco do Brasil, por meio de intermediários
passa por um viés seletivo de um discurso, porque conforme Laurenza, os débitos que
Samuel Wainer possuía com os bancos eram muito menores se comparados com as dívidas
de grandes empresários que atuavam no mesmo ramo que o dele (Laurenza, 1998, p. 66).
Assis Chateaubriand era um dos principais devedores e, antes da década de 1950, ele contou
com o apoio de Getúlio Vargas para intermediar um empréstimo para fundar O Cruzeiro, a
mais conhecida revista semanal brasileira durante a primeira metade do século XX (Morais,
1994, p. 178). Tendo como base as discussões suscitadas por John B. Thompson, Matheus
Vitorino Machado, enfatizando que o escândalo político visa deslegitimar algo, ou seja, a
emergência do escândalo tem o propósito de ser "[...] instrumentalizado como forma de
deprimir legitimidade de atores políticos inseridos no campo” (Machado, 2018, p. 306).
Portanto, as acusações que foram feitas contra Wainer a respeito de sua proximidade com
figuras de renome da esfera política e de ter obtido empréstimos por meio de favores passa
por uma seletividade de moralidade.
Segundo Delgado, os ataques de Lacerda à Wainer ocorreram além do Tribuna, sendo
realizados também por meio da rádio Globo e da TV Tupi, meios de comunicação
pertencentes a Roberto Marinho e a Assis Chateaubriand, respectivamente (Delgado,
2006a). Além da mencionada oposição dessas mídias a Getúlio, oposição essa que se
intensificou durante o seu novo governo, culminando inclusive no seu suicídio, devemos
ressaltar que, o que realmente preocupava Marinho e Chatô, a ponto de se unirem a
Lacerda nessa série de ataques à Wainer e a seu jornal, não pode ser resumido apenas em
seu antigetulismo: o Última Hora, embora novo no mercado, conseguia se colocar no páreo
e concorrer diretamente com os jornais dos dois empresários (Delgado, 2006a), algo que o
Tribuna, ao que sabemos, não chegava nem perto
1
(Abreu; Lattman-Weltman, 1994). Além
da rádio e da TV, a investigação de Wainer passou a ser noticiada diariamente nos jornais,
1
De acordo com a pesquisadora Karla Monteiro, o Última Hora foi responsável por uma mudança estética e
editorial dentro do meio jornalístico do Rio de Janeiro dos anos 1950. Sua popularidade estava ligada à
cobertura política, esportiva e do cotidiano, tendo como sua marca principal a partilha dos ideais trabalhista e
nacional-desenvolvimentista. Além disso, os seus concursos e brindes aguçavam o interesse dos leitores em
adquirir e ler este periódico. Ao fim do seu primeiro ano de circulação, o jornal passava de 100 mil
exemplares em uma tiragem (MONTEIRO, 2020, p. 179-209).
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sendo entre eles destaque a cobertura realizada pelo Tribuna da Imprensa, que colocou
ainda mais lenha na fogueira quando publicou a verdadeira nacionalidade do jornalista:
“Wainer não é brasileiro” (Tribuna da Imprensa, 1953, p. 1-2)
CPI da Última Hora: escândalo e moralidade
Logo após o fim do Estado Novo em 1945, o campo político brasileiro ficou dividido
entre nacionalistas e “entreguistas.” Enquanto os adeptos do ideário nacional-
desenvolvimentista acreditavam que somente com uma forte industrialização nacional
auxiliada pela intervenção do Estado poderia garantir um maior bem-estar social, os mais
próximos de um espectro liberal acreditavam que o melhor seria aproveitar o potencial
econômico através do setor privado, seja ele nacional ou internacional, sem qualquer tipo de
interdição oriunda do Estado. Desse modo, os embates na esfera política do período da
experiência democrática (1945-1964) envolvem a discussão socioeconômica, qual o tipo de
projeto de sociedade seria mais adequado para se aderir. De acordo com Jorge Ferreira, os
grupos estavam dispostos da seguinte maneira:
De um lado, as esquerdas, compostas por trabalhistas, comunistas, socialistas,
sindicalistas, estudantes e facções do Exército, com o projeto nacional-estatista,
cujo programa, em termos gerais, baseava-se na soberania nacional, no
desenvolvimento econômico e na justiça social; de outro, os liberais-conservadores
de direita, como udenistas, políticos tradicionais, empresários, latifundiários, meios
de comunicação e facções da Aeronáutica, Marinha e Exército, defendendo
restrições ao direito do movimento sindical, o liberalismo econômico, a abertura do
país ao capital estrangeiro e o alinhamento incondicional aos Estados Unidos
(Ferreira, 2005, p. 14).
Nessa perspectiva, Wainer, que se aproximou de Getúlio a ponto de não ser mais
visto por ele como um simples repórter, mas, como o próprio Wainer veio a admitir, tinha
chegado à posição de “quase um conselheiro” e até mesmo de um “emissário” (Barbosa,
2007, p. 169), foi incentivado pelo presidente eleito em 1950 a criar um jornal que se
opusesse à “conspiração do silêncio” que a grande imprensa lhe impusera, especialmente
durante a recente campanha eleitoral. Para tanto, fundou duas empresas: uma gráfica, a
Érica, e a Editora Última Hora, ambas atreladas ao novo jornal em circulação.
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Para viabilizar a primeira, consegue recursos com o banqueiro Walter Moreira
Salles, com Ricardo Jafet, presidente do Banco do Brasil, e com Euvaldo Lodi,
empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria. Obteve ainda um
empréstimo de 26 milhões junto ao Banco do Brasil, que, além disso, absorveu a
dívida da empresa com a Caixa Econômica Federal. Para viabilizar a Editora Última
Hora consegue recursos do Banco Hipotecário de Crédito Real, através da
intermediação de Juscelino Kubitschek, então governador de Minas (Barbosa, 2007,
p. 170)
No que concerne às suspeitas levantadas em torno de Samuel Wainer e de seu
próprio jornal, é possível apontar que a polêmica gira em torno de um campo que envolve
três fatores: poder, em razão de sua especificidade política diante de uma imprensa que está
entrelaçada com outras afinidades ideológicas; moralidade, tanto em razão do apontamento
de que o processo de financiamento do Última Hora se desenrolou através de um ilegítimo
favorecimento em decorrência dos laços que Samuel Wainer constituiu com os que estavam
próximos dele, e do crime cometido por ele , querer ser um estrangeiro dono de um jornal;
e, por fim, dinheiro porque o poder monetário dos proprietários de um veículo de
comunicação desta época implicava em limitações e no aumento do alcance da publicação,
desse modo angariando um público leitor mais amplo.
Ao destoar do que era propagado hegemonicamente de seus adversários, a questão
do nacionalismo adquire relevância por meio da acusação de que Samuel Wainer estaria
impossibilitado de ser o proprietário de uma empresa no ramo da comunicação em razão de
sua origem estrangeira. No dia 15 de julho de 1953, o Tribuna da Imprensa estampa em sua
primeira página a referência ao artigo 160 da Constituição Brasileira de 1946, que
impossibilitaria a existência legal do Última Hora (Tribuna da Imprensa,1953, p. 1).
Além disso, no segundo governo Vargas houve um grande debate promovido por
jornais acerca do que seria uma esfera pública. A emergência deste questionamento realiza
uma mistura de dois pontos supracitados: o controle da imprensa pelo Estado e a questão
dos projetos de nação que estavam em discussão naquele momento (Carvalho, 2012).
Portanto, o enquadramento dos jornais e de seus proprietários em um campo repleto de
interesses torna evidente uma disputa pelo poder que envolve qual caminho seria melhor a
ser trilhado para um melhor desenvolvimento do Brasil. Além disso, a acusação de Wainer
implica uma certa seletividade, porque a grande imprensa do Rio de Janeiro recebeu
volumosas contribuições para difundir publicidade de empresas estrangeiras durante a
primeira metade da década de 1950 (Monteiro, 2020, p. 234).
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A pauta moral que defendia Lacerda era muito próxima de um ideário udenista que
atravessou todo o segundo governo Vargas, tendo como um de seus principais pilares, “as
denúncias constantes de corrupção administrativa, a caça “aos escândalos” (o moralismo
udenista surge como a marca “ideológica” do partido)” (Benevides, 1981, p. 84). Um
exemplo disto fica evidente no modo como o Tribuna da Imprensa faz questão de publicar,
no mês de julho de 1953, o apoio de seus leitores à campanha de “moralização da imprensa.
Sempre enfatizando que se trata de um “escândalo”, o Tribuna coloca em relevo a
“comovedora demonstração de solidariedade à campanha que iniciamos contra o
esbanjamento dos dinheiros públicos na orgia da ‘Última Hora’” (Tribuna da Imprensa, 1953,
p. 2). Tendo como arma preferida a defesa de uma moralização, Lacerda aproveitou suas
investidas contra Wainer para também atacar Nelson Rodrigues
2
, em decorrência de suas
produções textuais serem bastante distantes dos padrões morais udenistas de classe média,
reprovando as histórias com “adultério”, “homicídios”, “embriaguez alucinatória”,
“necrofilia”, “instigação ao suicídio”, “prostituição”, “apologia ao aborto”, entre outros
tópicos sensíveis que não deveriam ser expostos (O Preto ..., 1953, p. 16).
Carlos Lacerda não retrocedeu na sua oposição a Vargas, mesmo após a vitória do ex-
presidente. Durante o novo governo de Vargas, o Tribuna da Imprensa seguiu com uma
oposição agressiva contra o ex-ditador, enquanto Wainer, com o seu Última Hora, defendia
os interesses do governo.
Ademais, devemos ressaltar que essa relação de desafeto entre Wainer e Lacerda,
oposição que ganhou a mídia na década de 1950, especialmente durante a CPI de 1953,
quando a inimizade entre os dois foi escancarada para o país nas manchetes de jornais e até
mesmo na televisão, nem sempre foi assim, sendo marcada em seu início por uma certa
proximidade entre os dois. Os jornalistas chegaram a morar sob o mesmo teto durante a
década de 1940, período em que ambos trabalhavam nos Diários Associados. Foi durante
esse período de proximidade que Wainer confessou a Lacerda que não havia nascido no
Brasil. Essa revelação da origem de Wainer acabou ganhando as páginas da imprensa, sendo
este um fato que foi usado contra ele durante a CPI. No caso, Wainer era proveniente da
2
Nelson Rodrigues ganhou bastante notoriedade em sua coluna no Última Hora denominada de “A vida como
ela é...”, que estreou em 16 de novembro de 1952. As histórias de situações cotidianas, crimes e histórias
escandalosas abordadas pela linguagem literária de Nelson Rodrigues, que ultrapassava a mera descrição de
acontecimentos, ajudou na popularidade do periódico de Wainer e foi extremamente importante na
construção do renome do autor destas narrativas (Monteiro, 2020 p. 199-200).
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Bessarábia, atual Romênia, e emigrou para o Brasil com a sua família quando ainda era
criança. De origem judaica e natural do Leste Europeu, na época zona sob influência da
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, a oposição, ao usar esse fato, buscava
nutrir um sentimento de antissemitismo contra Wainer, além de associá-lo à espionagem ou
ao comunismo. Além do desafeto pessoal que Lacerda nutria contra Wainer, como foi
dito, esses ataques se inseriram no contexto de anseio da concorrência em se livrar do
Última Hora, que era um sucesso editorial, além da busca da oposição em fragilizar a base de
apoio do presidente da República (Laurenza, 2008, p. 192-194).
Na edição de 18-19 de julho de 1953, o Tribuna tratou de apresentar para os seus
leitores, com direito a um mapa desenhado, a procedência de Wainer. Segundo o jornal,
Edineti era a cidade onde Samuel Wainer nasceu, que seria, segundo o jornal, um lugarejo
sem importância, onde os seus habitantes, em sua maioria judeus e romenos, dedicavam-se
à agricultura, cultivando especialmente o girassol (Tribuna da Imprensa, 1953, p. 2). Nesse
viés, o jornal brinca com essa informação sobre a economia local, dizendo que a mesma é
sugestiva das posições políticas de Samuel ou até de suas atividades jornalísticas, pois, como
o jornal nos leva a interpretar, ele mudava constantemente de posicionamento, assim como
um girassol.
Além disso, jornal ainda complementa que “[...] até de dezembro de 1918, a
Bessarábia era província da Rússia czarista, tendo TODOS os cidadãos essa nacionalidade”
(Tribuna da Imprensa, 1953, p. 2, grifo do autor), levando Wainer, durante os anos de Guerra
Fria, a ser associado pela população brasileira como alguém ligado à URSS. Segundo Karla
Monteiro, jornalista e biógrafa de Wainer, nesse período a imprensa passou a chamá-lo de
“russo branco”, que nenhum leitor fazia ideia de onde ficava a Bessarábia e porque
qualquer associação com a Rússia gerava pânico (Monteiro, 2020, p. 240). Eram tempos
delicados e a imprensa sabia usar isso ao seu favor.
A notícia sobre a verdadeira nacionalidade de Samuel Wainer é chamada por Hélio
Silva de “a mais avassaladora bomba de retardamento” (Silva, 2007, p. 220). Nas páginas do
Tribuna, o caso de falsificação de documentos ganhou destaque, estampando a primeira
página de várias edições do periódico. De acordo com o Tribuna, aos dezesseis anos Wainer
se aproveitou das facilidades que os cartórios do Brasil ofereciam e se registrou como
brasileiro, aumentando inclusive sua idade em dois anos (Silva, 2007). O Última Hora até
chegou a refutar as publicações oposicionistas, publicando a cópia das listas de passageiros
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do navio Canárias, listas essas que comprovariam a chegada no Brasil de Dora e Jaime
Wainer, pais de Samuel em 1905, documentos esses que posteriormente foram
comprovados como adulterados (Monteiro, 2020). A caricatura abaixo trata justamente
dessa falsificação.
Imagem 1: O maior escritor da Terra.
Fonte: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, n. 1087, 22 de julho de 1953, p. 4.
Intitulada “O Maior Escritor da Terra”, a caricatura assinada por Hilde Weber, na
época caricaturista principal do Tribuna, traz uma representação de Samuel Wainer. Na
cena, ele aparece com uma expressão concentrada, enquanto que, com uma caneta bico de
pena, escreve na parte inferior de uma folha aparentemente desgastada pelo tempo e
identificada como sendo a lista de passageiros do Canárias. Wainer assinar “papai e mamãe”
nessa lista representa o envolvimento dele na então descoberta falsificação da lista,
falsificação essa que acrescentou os nomes dos pais dele, forjando assim a data de chegada
da família no Brasil. A representação de Wainer é facilmente identificada por trazer
importantes características físicas do jornalista, essas características marcantes como as suas
sobrancelhas grossas e as orelhas de abano. Karla Monteiro, em sua biografia sobre Wainer,
chega a descrever essas características: “Um tipo esquisito com avantajadas
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sobrancelhas, sombreando o rosto encovado, além das orelhas de abano , mas
terrivelmente charmoso” (Monteiro, 2020, p. 43).
O exagero de características do retratado com objetivos de ressaltar defeitos,
suscitando risos e ironia, seria a característica principal desse tipo de desenho (Melo, 2003).
Porém, além de apenas exagerar traços físicos com a finalidade de caricaturar o retratado,
ressaltar o formato da cabeça, a orelha de abano e principalmente o tamanho do nariz,
formas de identificar um personagem como sendo judeu (Liebel, 2010). Segundo Liebel, esse
tipo de representação do judeu não é uma invenção nazista, remontando à Idade Média,
mas que se expandiu com a imprensa e foi utilizada em charges antissemitas como elemento
tanto de identificação quanto de estigma (Liebel, 2010). O nariz grande também pode
significar que o seu portador é um mentiroso. Assim, tal caricatura além de colocar Samuel
como mentiroso e falsificador, também o identifica como judeu.
É possível afirmar que Hilde o identificou como judeu, pois nas páginas do jornal a
etnia e a religião de Wainer eram abordadas, e as charges, nesse contexto, também
representavam uma extensão daquilo que o jornal vinha publicando. Nas páginas do
Tribuna, Lacerda chegou a publicar as transcrições de algumas perguntas que foram feitas a
ele durante sua fala de três horas consecutivas como ele fez questão de ressaltar na TV
Tupi. Em uma das perguntas dos telespectadores, fica evidente que o jornal costumava
colocar Wainer como judeu, e que esse fato não era passado como desapercebido pelos
leitores do jornal. Essa pergunta, além de nos mostrar que a etnia dele era abordada no
jornal, também nos apresenta uma negativa de Lacerda sobre um possível antissemitismo
partindo dele e de seu jornal.
P. Parece ter havido em seu jornal uma referência sobre o fato de Wainer ser
judeu. É contra os judeus?
R. Nada há, nem haverá partindo de mim, que incrimine Wainer pelo fato de ser
judeu. Nada há de racista ou de antiracista em minha campanha. Os trampolineiros
existem entre os cristãos ou judeus, maometanos ou budistas. Para mim, Wainer
não é um judeu. É, simplesmente, um estrangeiro, que não pode dirigir jornais,
porque assim o proíbe a Constituição. É apenas um trapaceiro vulgar, cúmplice na
mais extraordinária empreitada de assalto aos dinheiros públicos jamais realizada
no Brasil (Tribuna da Imprensa, 1953, p. 3).
É também enfatizado nesse trecho, o apelo à moralidade do público da TV Tupi.
Lacerda, pontua que o seu posicionamento está ligado apenas com a Constituição ou seja,
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em investigar se de fato legalidade na atividade desempenhada por Samuel como diretor
de um periódico em solo brasileiro; e com o povo, pois sua luta também se contra o
esquema de corrupção feita com dinheiro público no qual Wainer está envolto.
Nesse viés analítico, a trajetória de Samuel Wainer envolve paradoxos entre os
aspectos da etnicidade, de sua identidade e da nacionalidade. Ao mesmo tempo que ele é
condicionado por múltiplos pertencimentos que envolvem seu local de nascimento, sua
religião, seu ofício como jornalista, seus posicionamentos políticos e sua experiência de vida
em solo brasileiro, ele fez escolhas que podem apontar um desejo de ser assimilado e de
pertencer ao Brasil.
3
Em outra caricatura de Wainer, a origem do jornalista também é abordada. Em meio
a matérias sobre a falsa nacionalidade brasileira de Wainer, foi publicada no editorial do
Tribuna, a caricatura intitulada “Estranho nascimento”, também assinada por Hilde Weber.
Na imagem, ele está representado como uma ave recém-nascida, que nasceu em um lugar
tropical, com uma palmeira e sol intenso no plano de fundo do desenho, o que nos leva a
acreditar que o local retratado no desenho seja o Brasil. O ovo, que é um símbolo de
nascimento, foi chocado mesmo sem a presença dos genitores, e de dentro dele veio ao
mundo uma criatura com características antropozoomórficas, sendo ela metade ave e
metade homem, que identificamos como sendo uma representação de Samuel Wainer
graças às principais características físicas do jornalista, características essas mencionadas
anteriormente e que estão acentuadas na caricatura.
Imagem 2: Estranho nascimento.
3
De acordo com Joëlle Rochou: “[...] as dificuldades de inserção do imigrante no universo social brasileiro num
período em que este se acha marcado pelos rompantes nacionalistas de uma elite sempre “ameaçada” por
novos atores sociais Samuel abraça a causa nacionalista como uma das formas de afirmação de sua
identidade” (Rochou, 2006, p. 348). Além disso, havia também “as possíveis estratégias de construção da
subjetividade de imigrantes judeus no Brasil, procurando compatibilizar sua condição judaica com as exigências
assimilacionistas do Estado e da sociedade brasileira” (Rochou, 2006, p. 348).
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Fonte: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, n. 1082, 16 de julho de 1953, pag. 4.
A caricatura acima é uma metáfora sobre a origem de Wainer, havendo nela, mais
do que na primeira imagem, uma maior aproximação com o grotesco: em busca de provocar
uma estranheza no leitor, além do riso, do espanto e da repulsa, ela exagera as
características físicas do retratado e coloca Wainer como sendo uma figura metade homem
e metade ave, sendo que a forma de ave foi escolhida, no contexto da imagem, por
simbolizar o nascimento sem a presença dos genitores, escolha essa que faz referência às
notícias sobre o incerto lugar de origem do retratado.
Além disso, na primeira página da mesma edição na qual a presente caricatura foi
publicada, o Tribuna destaca uma confusão de informações sobre a nacionalidade de
Wainer: “O pai entrou no Brasil em 1920, a mãe em 1915 As declarações dos pais de
Samuel Wainer perante o governo[sic] brasileiro tornam irremediável a situação do filho,
que se diz nascido no Estado de São Paulo (em que cidade, Samuel?) em 1912” (Tribuna da
Imprensa, 1953. p. 1). Dessa forma, ao colocar Wainer como alguém que nasceu de um ovo
e sem a presença dos pais, a caricatura ironiza as várias versões sobre o nascimento: se
Wainer de fato nasceu no Brasil em 1912, como isso teria se dado se seus pais aportaram
no país anos depois?
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Nesse contexto, como a função da caricatura é a de provocar o riso, exagerando as
principais características do retratado, ridicularizando-o, o seu uso no jornal é reservado às
críticas, enquanto que outros espaços do jornal, como a primeira página, principalmente,
podem trazer tanto críticas quanto elogios. “As melhores são as que, para atingir o efeito
cômico desejado, zombam impiedosamente dos personagens [...]. Por isso, [...] as
caricaturas políticas são dedicadas aos adversários, raramente aos líderes admirados”
(Motta, 2006, p. 20-21). Isso explica o motivo de, nesse período da CPI, Wainer aparecer
constantemente na caricatura do editorial do Tribuna, enquanto Lacerda não aparece nesse
espaço “ridicularizador”. Na capa do Tribuna, Lacerda chega a divulgar suas aparições na TV
Tupi e na rádio Globo e, enquanto se coloca como um representante do combate à
corrupção, coloca Wainer como representante dessa corrupção a ser combatida.
A edição de 1º de julho de 1953 enfatiza que a campanha de Lacerda contra o Última
Hora, tinha apoio de pessoas de todos os recantos do país. Alguns desses apoios, que
chegavam ao jornal em forma de mensagens, tiveram trechos publicados e, por meio da
divulgação dessas mensagens, percebemos a construção de Lacerda como uma figura
moralizadora e, até mesmo, salvadora.
Diante do vosso relato no caso da “Última Hora”, feito através da Rádio Globo, não
pude deixar de escrever a presente, hipotecando-vos meu apoio moral. Realmente,
precisamos acabar com essa vergonheira. Foi hoje o primeiro dia que ouvi o vosso
relato, o qual, embora termine tarde, jamais deixará de ser escutado por mim,
todos os dias (Tribuna da Imprensa,1953, p. 2).
Esse trecho, que expressa apoio moral de um leitor a Lacerda, coloca o caso do
Última Hora como uma “vergonheira” a ser combatida e Lacerda como alguém à frente
desse combate. Além de publicar as suas críticas ao escândalo envolvendo Samuel Wainer,
Lacerda também publicava o apoio recebido, o que ajudava na construção de sua imagem
como sendo a “voz da moral”, numa construção de si mesmo como um “Salvador” (Girardet,
1987).
Portanto, o relatório final da CPI concluiu que, depois da realização de dezenas de
reuniões e de ouvir diversas testemunhas, que realmente houve um favorecimento
financeiro de Wainer para a constituição do Última Hora. Apesar de ser desfavorável para
Wainer, o documento final não conseguiu apontar laços de envolvimentos diretos ou
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indiretos de Getúlio Vargas dentro das movimentações financeiras que estavam sendo
devassadas (Diário do Congresso Nacional,1953, p. 4992-4314).
Usos políticos do passado: memórias de Carlos Lacerda e Samuel Wainer
De acordo com David Lowenthal, o principal caminho pelo qual os seres humanos
podem ter acesso ao pretérito é através do ato de rememoração, distinguindo o que seria o
passado e o presente através da memória (Lowenthal, 1998, p. 64). Uma fonte histórica que
seja composta pela escrita de si não é relevante por afirmar precisamente o que ocorreu,
“Mas de dizer o que o autor diz que viu, sentiu e experimentou, retrospectivamente, em
relação a um acontecimento” (Gomes, 2004, p. 15). O exame de como esses sujeitos
relembram seu passado é um ponto importante para se compreender como eles constroem
suas imagens e suas identidades a partir de um relato.
Ademais, apesar de serem reconhecidos na história do jornalismo brasileiro como
inimigos, Carlos Lacerda e Samuel Wainer compartilham algumas semelhanças e alguns
distanciamentos entre si nas suas respectivas trajetórias. Um dos pontos de semelhança é o
fato que Lacerda e Wainer publicaram entrevistas marcantes em momentos de destaque da
história do Brasil: enquanto no dia 22 de fevereiro de 1945, Carlos Lacerda fez uma
entrevista emblemática com José Américo de Almeida, que é referenciada como um marco
na queda do Estado Novo, Wainer publicou em 3 de março de 1949, uma conversa que teve
com Getúlio Vargas acerca de um possível retorno ao cargo de presidente da República.
Tanto Wainer quanto Lacerda, em um período próximo de sua morte, publicaram
livros sobre suas trajetórias biográficas. O nome dado ao livro de Wainer foi “Minha razão de
viver” e o título que ganhou o de Lacerda foi “Depoimento.” Cada um destes livros foi
publicado de maneira póstuma, sendo que “Minha razão de viver” veio a público em 1987 e
“Depoimento” foi publicado um pouco antes, em 1978, um ano depois do falecimento de
Lacerda. De acordo com os prefácios que dispõem cada uma das produções textuais,
parentes e amigos encarregaram-se de editar e transformar em livro de memórias
autobiográficas o que foi gravado na voz de cada autor, havendo um processo de transcrição
dos relatos gravados originalmente em formato de fita e posteriormente redigido no papel
(Wainer, 1993, p. 5-12; Lacerda, 1978, p. 11-24)
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Nesse viés, no que concerne ao modo como as principais figuras da CPI relembram o
que viveram, cada um defende um ponto de vista diferente. Lacerda afirma que sua
campanha contra o Última Hora foi movida com o auxílio de outros jornais e contando
também com o apoio de outros meios de comunicação, como o rádio e a televisão (Lacerda,
1978, p. 128-129). Desta maneira, Lacerda utilizou-se de um meio tradicional de
comunicação, o rádio, e da novidade audiovisual que estava emergindo no Brasil da década
de 1950, a televisão, para alcançar o maior número possível de pessoas e ampliar o alcance
de uma polêmica ainda restrita para as páginas dos jornais.
Em Minha razão de viver, Wainer enfatiza que seu sonho de construir um grande
jornal foi realizado, mas este fato despertou um certo incômodo nos sujeitos que eram os
proprietários de jornais com uma popularidade já consolidada. Segundo as reminiscências de
Samuel Wainer, a presença do Última Hora tornou-se um concorrente incômodo para os
grandes barões da imprensa (Wainer, 1993, p. 133-140.) Tal como ele mesmo definiu, a CPI
era “uma guerra sem quartel, sem tréguas, sem limites” (Wainer 1993, p. 179). Em suma, a
autobiografia de Wainer endossa que a única proeza que ele conseguiu durante a CPI foi
mostrar o “verdadeiro rosto” de Lacerda e que o ponto mais doloroso de toda esta história
foi a acusação publicada no dia 12 de julho de 1953, em diversos jornais, de que ele não era
brasileiro (Wainer, 1993, p.179-183).
Por meio da comparação entre as autobiografias destes dois jornalistas, é possível
evidenciar como os dois elaboram usos políticos do passado para legitimar suas recordações.
Por um lado, Lacerda destaque para a grande utilização do rádio e da televisão em sua
empreitada contra o Última Hora, enquanto Wainer denuncia a injustiça e expõe a
conspiração de seus rivais para liquidar o Última Hora. Nas duas narrativas, o relato reveste
o passado de uma utilidade política para moldar e construir uma identidade e uma imagem
nas trajetórias que estão sendo narradas.
Considerações finais
Levando em consideração o que foi exposto ao longo das páginas anteriores, é
possível explicitar a complexa trama que se delineou nas investigações sobre o Última Hora
em 1953. O envolvimento de políticos, de banqueiros e de jornalistas nesta polêmica
implicou na emergência de uma querela narrativa entre os detentores dos meios de
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comunicação no Rio de Janeiro dos anos 50. De acordo com Michel Foucault, a utilização de
um discurso visa atender a determinados fins:
[...] suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo
controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de
procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu
acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade (Foucault,
1996, p. 8-9)
Tanto os textos como as caricaturas publicadas no Tribuna da Imprensa são fontes
que mesclam dois aspectos essenciais para que a inteligibilidade do passado seja possível: o
escrito e o visível. De acordo com Manoel Luiz Salgado Guimarães, a escrita e a visão
coadunam-se “[...] na tarefa de tornar o passado uma evidência, uma certeza e, por isso,
objeto passível de um conhecimento” (Guimarães, 2010, p. 35). Além do caráter político e
econômico que entrelaçou a queda de braço na CPI, é oportuno ressaltar também que ela
foi afetada por sujeitos que vivenciaram uma época de restauração e consolidação de uma
nova ordem democrática na República brasileira.
Portanto, consideramos que a CPI da Última Hora pode ser caracterizada como uma
crise da República em razão de seu desenrolar implicar no questionamento e tensionamento
das relações entre o Estado e a imprensa, mobilizando as atenções dos mais diferentes
grupos que compuseram o corpo social: sejam nacionais-estatistas ou liberais. Nessa
perspectiva, o que esteve no centro do debate ao longo da CPI não foi somente a ilegalidade
do favorecimento para obter financiamento com dinheiro de bancos públicos, mas um
projeto dos opositores do segundo governo Vargas para se criar um escândalo que minasse
o principal meio de comunicação que apoiava Getúlio. Os três principais tópicos de discussão
giraram em torno do dinheiro, da moral e de um poder, criando uma trama que minasse aos
olhos dos leitores dos jornais a validade e legitimidade do segundo mandato de Vargas e do
prestígio de seus aliados.
As formas de textos e imagens que a CPI da Última Hora ganhou ao longo de seus
desdobramentos na imprensa, mostra como a produção do legível e do visível ganham
relevância na emergência de uma polêmica que envolve poder, moralidade e dinheiro. De
certo modo, a estruturação desta narrativa histórica lida com o que Michel de Certeau
colocou em relevo sobre os efeitos deste tipo de produção discursiva: “[...] Ao pretender
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relatar o real, ela o fabrica, ela é performática, ela torna crível e faz agir por essa razão. Ao
produzir crentes, ela produz praticantes” (Certeau, 2023, p. 53).
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