Recebido em: 09/08/2015
Aprovado em: 21/02/2016
Usos do relato histórico pelo poder régio em
Castela e Leão (1252-1284)
Usage of historical chronicles by the monarchy in
Castile and León (1252-1284)
SOUZA JUNIOR, Almir Marques de
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Resumo: A proposta deste artigo é discutir a relação existente entre as obras de cunho
histórico e os fundamentos ideológicos da monarquia medieval castelhana no século
XIII. Para tanto, cabe aqui ressaltar que, durante este período, o poder régio dedicou-
se a produzir uma série de documentos em língua vulgar, sendo o próprio vernáculo
adotado como idioma oficial dos tratados políticos desta época. Dentre esta produção
documental, destacamos as obras de cunho histórico, que, juntamente com as demais
produções escritas patrocinadas pela autoridade monárquica, veicularam uma série
de enunciados discursivos sobre a própria instituição régia e sobre os detentores da
dignidade real castelhano-leonesa. Caberia ao historiador refletir sobre os objetivos de
tais ideias, bem como quais seriam as bases que sustentavam estas construções dentro
da sociedade.
1. Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense. Professor de História
Antiga e Medieval da Universidade Castelo Branco – Rio de Janeiro. E-mail: almirjr@
castelobranco.br
Usos do relato histórico pelo poder régio em Castela e Leão (1252-1284)
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 157-175, jul.-dez., 2016.
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Palavras-chave: História; Legitimidade; Península Ibérica; Poder.
Abstract: The purpose of this paper is to discuss the relationship between the
historical chronicles and the ideological foundations of medieval Castilian monarchy
in the 13
th
century. It is appropriate to point out that during that period the monarchy
was dedicated to produce a series of documents in the vernacular, and the vernacular
itself was adopted as the official language of political treaties at the time. Within
this production we highlight the royal chronicles, which, among other written works
sponsored by the monarchical authority, disseminated a series of discursive statements
about the monarchy itself and the holders of royal titles in Castile and Leon. It behooves
the historian to ponder the objectives of such ideals, as well as what would be the
foundations to support these constructions within society.
Keywords: History; Legitimacy; Iberian Peninsula; Power.
Para a historiadora Inés Fernandez Ordóñes, quando o rei de Castela e Leão,
Afonso X, foi alçado à condição de monarca em 1252, ele teria herdado não apenas os
direitos senhoriais sobre um território, mas também toda uma herança de construções
simbólicas e ideológicas sobre as quais se apoiava um projeto político (ORDÓÑEZ,
2002-2003, p. 93). Tal projeto teria como uma de suas bases a produção textual de
caráter histórico, iniciada no reinado anterior, mas só plenamente consolidada durante
o governo Afonsino.
De fato, durante os reinados de Afonso X e de seu predecessor, Fernando III (1217-
1252), houve um considerável aumento de interesse com relação à produção de obras
de cunho histórico. Só o governo de Fernando III produziu três obras de dimensões
expressivas. São elas: a Chronica latina regum Castellae (BREA, 1997, p. 7-118), atribuída
ao chanceler pessoal do rei, Juan de Osma; o Chronicon Mundi (REY, 2003) do bispo
Lucas da cidade de Tuy (1230-1239); e a Historia Gothica sive Historia de rebus Hispanie,
de Rodrigo Jiménez de Rada (VALVERDE, 1989), arcebispo da cidade de Toledo.
O reinado de Afonso X, por sua vez, não produziu um número tão vasto de
obras, contando “apenas” duas: a Estoria de España (MENÉNDEZ PIDAL, 1955)
2
e a
General Estória, ambas escritas a mando do soberano. Ainda assim, se colocarmos
estes escritos em uma perspectiva comparada, percebemos que as diferenças entre as
obras produzidas nos dois reinados são verdadeiramente marcantes e nos dizem muito
a respeito do contexto político no qual foram concebidas.
Um dos traços principais das crônicas afonsinas encontra-se no próprio idioma
de sua escrita. Enquanto que até a primeira metade do século XIII as crônicas eram
escritas em latim, a Estoria de España e a General Estória foram em castelhano. Para
compreender esta mudança, é preciso levar em conta, primeiramente, o papel que este
tipo de texto desempenhava na sociedade, bem como as mudanças sofridas na função
que tais registros possuíam naquele contexto histórico. Ordóñez sustenta a hipótese
de que os documentos, destinados a uma leitura pública, teriam sido elaborados
preferencialmente utilizando o idioma vulgar, enquanto que os demais textos nos quais
a leitura era feita preferencialmente de forma privada ou silenciosa, por um grupo seleto
de pessoas, seguiram fazendo uso do latim (ORDÓÑEZ, 2002-2003, p. 2).
2. Obra publicada sob o título de “Primera Crónica General de España”.
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A mudança na escrita do texto expressava também uma mudança no tipo de
leitor almejado pelas crônicas. Ordóñez nos lembra que aquelas que foram escritas em
latim objetivavam servir como modelo de comportamento e conduta para os chefes de
estado, agindo de modo semelhante aos Espelhos de Príncipes (ou Speculum Principis).
Tratavam-se de obras dedicadas à leituras privadas, preferencialmente feitas pelo
próprio monarca, nas quais os feitos do passado serviriam para instruir as ações dos
próximos soberanos. Já os relatos históricos afonsinos tinham em mente outros leitores
além dos próprios soberanos. O poder central, à partir do reinado de Afonso X, passou
a manifestar significativa atenção para que os documentos produzidos pela cúria régia
tivessem amplo alcance em meio a população. Para isso, a utilização da língua vernácula
em detrimento do latim mostrou-se uma iniciativa primordial. Com a adoção desta
medida, a leitura das obras (em especial as leis e as histórias) não se restringia apenas
a um seleto grupo de eruditos, ficando disponíveis àqueles que tinham algum grau de
conhecimento das letras.
O relato histórico e o novo idioma de escrita da história
O uso do idioma “vulgar” também possuía uma aplicabilidade prática, na
medida em que o latim ia se tornando uma língua cada vez mais restrita ao clero e à
intelectualidade. Além deste ter se tornado um idioma falado por poucos no século XIII,
o uso da língua castelhana em seu lugar tornava mais fácil a própria comunicação entre
as diversas partes do reino, sem mencionar no auxilio imediato à administração pública.
A preocupação em fazer com que os homens compreendessem as leis ficou
marcada também nas obras legislativas. Quando Fuero Real, uma das primeiras obras
legislativas compiladas no Reinado de Afonso X, afirma que “la ley debe seer manifesta
que todo ome pueda entender, e que ninguno non sea engañado por ella”
3
, podemos
perceber ai a preocupação do discurso régio em viabilizar que a lei pudesse ser do
conhecimento de todos os homens, evitando com isso infrações pontuais que por
ventura pudessem ser fruto do desconhecimento da norma.
Todo saber esquiva a no saber. Ca escripto es, que aquel que no quiso entender,
no quiso bien facer, è por ende establecemos, que ninguno non piense de mal
facer: por que diga que non sabe las leyes, ni el derecho: ca si ficiere contra
ley, no se puede escusar del a culpa que ficiere por non saber la ley.
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Mesmo os monarcas castelhanos estando preocupados em atingir a uma grande
audiência com o uso do idioma local, devemos considerar que tal estratégia servia ainda
como um forte veículo de propaganda. Sobe esta questão, Evelyn Procter indicava que o
vernáculo possibilitava uma maior difusão da ideologia régia, fomentando sentimentos
de identificação entre o texto e seu interlocutor (PROCTER, 1951, p. 47).
O campo de ação e veiculação destes elementos ideológicos era vasto e não se
3. A lei deve se manifestar para que todo homem possa compreendê-la, e que nenhum seja enganado por
ela. (Fuero Real. Livro. I. Título VI. Lei II. Tradução livre).
4. Todo conhecimento afasta a ignorância. Aqui está escrito que, aquele que não procurou compreender,
também não quis fazer o bem, e por fim estabelecemos que ninguém pense que irá fazer o mal dizendo
que não conhece as leis ou o direito, pois se [alguém] atentar contra a lei, não poderá se eximir da culpa
pelo que fez com o argumento de não saber as leis. (Fuero Real. Livro. I. Título VI. Lei IV. Tradução livre).
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limitava unicamente à lei. A história e os registros do passado, de forma geral, podiam
servir ao mesmo propósito. Com o auxílio destes documentos, buscava-se construir
uma memória social na qual era reforçada a imagem de uma realeza soberana que
pretensamente conseguia sustentar seu poder e sua proeminência perante as forças
locais. Neste sentido, as crônicas régias possuem papel determinante na edificação
destes ideais.
Ao relatar nas páginas das crônicas a história do reino, o poder régio projetava
sobre o passado as expectativas e anseios que alimentava no presente. Tomemos como
exemplo o relato conhecido hoje como Primera Crónica General de España ou Estoria
de Espanna. Redigido entre os reinados de Afonso X e Sancho IV, esta obra detém-se,
majoritariamente, nas ações perpetradas pelas cabeças coroadas que já haviam vivido
em território hispânico, desde a época da dominação romana até o século XIII.
No caso afonsino, mesmo que a crônica não tenha retratado o reinado do próprio
Afonso X, é possível nos valermos de sua narrativa para perceber as atitudes que o
rei tentava inscrever no imaginário da população de seu tempo. Em uma conjuntura
marcada por sucessivos episódios em que o poder central teve sua autoridade posta
em cheque pelas aristocracias senhoriais – tal como foi o governo de Afonso X – é
possível identificar nos relatos de cunho histórico episódios nos quais a soberania da
realeza tenta se projetar por sobre as forças dissidentes do reino. Um destes momentos
é constituído pelas cerimônias em que os reis aparecem exercendo a justiça e punindo
os “insurgentes e criminosos” do reino, frequentemente apresentados como nobres
que ameaçavam a população camponesa.
Consideremos, como exemplo da questão acima levantada, observar o momento
em que a Estoria de Espanna ou Crónica General de España relata a intervenção régia
em um senhorio onde o senhor daquelas terras havia roubado a herança de um de seus
camponeses:
Vn inffançon que moraua em Gallizia, et auie nombre don Fernando, tollio por
fuerça a um laurador su heredat; et el laurador fuesse querellar all emperador,
que era em Toledo, de la fuerça quel fazie aquel infançon. (...) Ell inffançon,
como era omne muy poderoso, quando uio la carta dell emperador, fue muy
sannudo, et começo de menazar al laurador, et dixo que matarie, et non le
quiso fazer derecho ninguno. Quando el laurador vio que derecho ninguno
non podie auer dell inffançon, tornosse al emperador a Toledo (...). Et ell
emperador pues que sopo todo el fecho, fizo sus firmas sobrello, et llamo
omnes buenos del logar, et fue com ellos, et parosse a la puerta dell inffançon
et mandol llamar et dezir que saliesse all emperador quell llamava. Quando
ell inffançon aquello oyo, ouo muy grand miedo de muerte, et começo de
foyr; mas fue logo preso, et aduxieronle antell emperador. Et ell emperador
razono todo el fecho ante los omnes buenos (...) Et ell inffançon nin contradixo
respuso contra ello ninguna cosa, et ell emperador mandol luego enforcar de
la su puerta misma.
5
5. Um nobre que morava na Galiza e que havia por nome Fernando tomou pela força de um lavrado a sua
herança. O lavrador foi querelar ao imperador [da Espanha] que estava em Toledo, da força que sofreu de
tal nobre [...] o nobre, como era homem muito poderoso, quando viu a carta do imperador, foi muito irão e
começou a ameaçar o lavrador, e disse que o mataria, e que não lhe iria fazer direito algum. Quando o la-
vrador viu que justiça alguma partiria do nobre, voltou ao imperado em Toledo [...] e o imperador quando
soube de todo o feito colocou sua assinatura sobre ele, e fez vir homens bons de outros lugares, e foi com
eles até as terras do nobre, e manou-o chamar e sair [da sua casa] para ficar diante do imperador que o
chamava. Quando o nobre aquilo viu, teve muito medo da morte e começou a fugir, mas foi logo preso e
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As motivações que justificam a elaboração detalhada desta parte do relato em
pleno fim do século XIII não são difíceis de perceber. A audiência em que o camponês
foi recebido pelo monarca (uma das poucas ocasiões narradas no documento em
que um homem humilde se dirige diretamente ao rei) cumpria uma dupla função. Em
primeiro lugar, ela concedia maior pessoalidade a um sistema de relações cada vez mais
institucionalizado, que tendia a alargar ainda mais as distâncias entre o governante
e seus súditos mais humildes. Em segundo lugar, a passagem continha a mensagem
de que o poder dos nobres não estava acima da autoridade monárquica. No relato, o
nobre que desrespeitara os direitos do homem do campo e não atendera a ordem de
cessar as hostilidades foi punido exemplarmente pelo rei, recebendo uma das penas
mais indignas, que era o enforcamento.
A ideia de Reconquista
Não era apenas a ideia de um combate por uma causa justa que servia como
força a impulsionar os reis hispânicos e seus exércitos de guerreiros para marcharem
em direção aos territórios islâmicos do sul peninsular. Havia também outro sentimento
que, desde o século IX – portanto antes de qualquer ideal de cruzada –, havia servido de
motivação para as lutas e a expansão da cristandade ibérica. A ideia de uma reconquista
dos territórios perdidos para o islã.
Outros estudos apontam que a própria noção de uma retomada territorial
cristã era na verdade fruto de um discurso historicamente enraizado no imaginário
hispânico. Primeiramente, observaremos como se consolidou tal enunciado, para
então averiguaremos as novas proposições que se divisam acerca deste problema. Este
imaginário da reconquista, que procurava evocar um passado longínquo, chegou ao
século XIII com grande força e influência sobre os espíritos de seus contemporâneos.
Tanto castelhanos quanto leoneses proclamavam-se herdeiros não só da tradição
asturiana, mas da cultura cristã-visigótica como um todo.
Na Primera Crónica General vemos como esta forma de perceber a realidade
se encontrava profundamente enraizada nas formas de pensar e de sentir. Segundo
a crônica, no momento da conquista peninsular do século VIII, o poder dos “mouros”
que vieram da África era tão grande que “conquistaram toda a terra e a devastaram, e
a colocaram sob seu senhorio, e dai em diante foi o reino dos godos e suevos destruído
arrasado por grande tempo” (Primera Crónica General. vol.I. Cap. 560. p. 322).
Vislumbra-se nesse momento, o argumento que os cronistas utilizam para
justificar a empreitada militar. Com base em tal retrospectiva, a vingança contra aquela
injúria não caberia apenas aos “espanhóis”, mas tratava-se de uma vendeta que envolvia
toda a cristandade latina. Relata-se que, para as batalhas, afluíram não só cavaleiros
especializados no combate armado, mas também homens de toda sorte, como peões e
citadinos – de modo similar a uma romaria – visando obter o perdão dos pecados e a
reparação de seus erros perante Deus.
trouxeram-lhe diante do imperador. E o imperador ponderou tudo que foi feito perante os homens bons
[...] e o nobre não contradisse ou respondeu contra ele coisa alguma e o imperador mandou logo enforca
-lo em sua porta mesmo. (Primera Crónica General de Espana. vol. 2. cap. 980. p. 660).
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Cuenta ell arçobispo don Rodrigo de como uinieron a esta batalla de Hubeda
yentes de muchos regnos [...] empos esto, ouo otrissi el rey don Affonsso
[VIII] su fabla com las yentes vltramontanas, que eran los françeses et los de
Leon de sobre Rodano, et los otros de allent esse ryo Rodano, et los de Italia,
los de Lombradia, los de Alemanna, et predicoles em razon de la eglesia de
Cristo e de la cristandad.
6
Munidos dos ideais de Reconquista e de Cruzada, os reis de Castela começaram
a projetar sobre si, em pleno século XIII, uma aura que procurava lhes conceder
uma inigualável proeminência em relação aos demais monarcas cristãos. Eles se
representavam como reis cruzados, que vinham empreendendo uma guerra santa por
séculos na fronteira ocidental contra os supostos inimigos da fé cristã.
O mito da reconquista como elemento unificador
As crônicas e as obras jurídicas do período de Afonso X não serviram apenas para
marcar a eminência do monarca perante os demais segmentos da sociedade senhorial.
Elas também apoiaram as pretensões territoriais dos soberanos de Castela e Leão,
construindo um valioso mito de origem de cunho histórico que também projetava o
reino e a instituição régia para um patamar de superioridade perante os demais poderes
peninsulares.
Este mito utilizava como elemento principal a questão do conflito com os estados
islâmicos do sul da Península Ibérica, apresentando os cristãos – e mais precisamente
os reis de Castela e Leão – como legítimos proprietários das terras ocupadas pelas
taifas. Até os dias atuais, a história do embate entre cristãos e muçulmanos em terras
hispânicas, durante o medievo, é lembrada pelo nome de Reconquista da Península
Ibérica. Mesmo hoje, é comum utilizar-se o termo “reconquista” para fazer menção à
expansão territorial empreendida pelos reinos cristãos entre os séculos VIII e XV. Uma
parcela considerável da historiografia de nossos dias, ai incluídas as obras de vários
medievalistas espanhóis, tais como Sánchez-Albornoz (SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1972),
José Angel Garcia de Cortázar (GARCIA DE CORTÁZAR, 1999) e Emilio Mitre (MITRE,
s/d), ainda imprimem em seus trabalhos esta expressão.
Já que se trata de um mito relativamente conhecido, passamos então a delimitar
quais seriam as nuanças que compunham a maior parte dos seus elementos discursivos.
Segundo o mesmo, ainda no século VIII, após a primeira invasão da península pelas
tropas muçulmanas vindas do Marrocos, um homem chamado Pelayo, supostamente
um dos sobreviventes da antiga nobreza visigótica, teria sido o responsável por liderar a
primeira empreitada militar bem-sucedida de resistência contra os invasores, retomando
pequenas porções do seu antigo território.
A Primera Crónica General, reforçando o mito, afirma que Pelayo seria membro
direto da antiga família real visigoda, sendo supostamente bisneto do rei Recesvinto
(653-672). O pai de Pelayo teria sido vítima das conspirações e intrigas que cercavam
6. Conta o arcebispo dom Rodrigo como vieram a esta batalha de Hubeda gentes de muitos reinos[...] após
isso, houve então a fala do rei dom Afonso [VIII] com as gentes ultramontanas, que eram os franceses, e
o os de Leão sobre o Ródano, e os outros de além deste rio Ródano, e os de Itália, os da Lombardia, os da
Alemanha, e pregou a eles em favor da Igreja de Cristo e da cristandade. (Primera Crónica General. vol
II. Cap.1013. p. 692- 693. Tradução Livre).
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a nobreza do antigo reino, e teve sua morte supostamente encomendada pelo rei Vítiza
(702-710). Em função destes eventos, Pelayo teria se refugiado na Cordilheira Cantábrica,
permanecendo no reino das Astúrias até o momento da invasão islâmica. Após a queda
do reino visigodo de Toledo, por volta do ano 722 da era cristã, e do estabelecimento
do Emirado de Córdoba, Pelayo e um grupo de guerreiros aliados teriam enfrentado as
tropas muçulmanas na garganta de um vale, próximo à vila de Covadonga, onde teriam
obtido uma importante vitória.
A vitória na Batalha de Covadonga foi tratada como ponto de partida para o início
do processo de Reconquista da Península Ibérica. Contudo, os trabalhos de Abílio Barbero
e Marcelo Vigil (BARBERO; VIGIL, 1978) trouxeram uma diferente perspectiva acerca
deste antigo paradigma historiográfico. Ambos os autores procuraram empreender
uma análise das orientações ideológicas deste relato, chegando à conclusão de que a
sequência dos eventos narrados constituía, a rigor, uma construção retórica de cunho
historiográfico elaborada a partir do século IX, num momento bem posterior à chegada
dos Muçulmanos à península.
Naquele momento, o núcleo de poder das Astúrias, que pouco contato mantivera
com a população visigótica, passava por um processo de afirmação e consolidação da
sua jovem instituição monárquica. Em função disso, Barbero e Vigil demonstram como
houve, de forma intencional, uma tentativa de fazer entroncar a origem do reino das
Astúrias na história do reino visigodo, criando com isso uma ilusão, para os homens
do século IX, de uma suposta continuidade dinástica. Tal vinculação passava por uma
apresentação dos monarcas asturianos como descendentes dos antigos reis visigodos,
tal como foi o caso de Pelayo. Graças a este mito de continuidade do antigo reino
germânico, o reino de Astúrias e os subsequentes domínios que se desenvolveram
em seu interior – os quais posteriormente acabaram por se configurar em Estados
específicos, tais como Leão e Castela – reproduziram tal mito, apresentando-o como
parte de sua própria história. Assim, tanto Castela quanto Leão se apresentavam como
legítimos continuadores deste mítico processo de reconquista havia muito iniciado.
Este imaginário da reconquista, que procurava evocar um passado longínquo,
chegou ao século XIII com grande força e influência sobre os espíritos de seus
contemporâneos. Tanto a monarquia castelhana quanto a leonesa proclamavam-
se herdeiras não só da tradição asturiana, mas da cultura cristã-visigótica como um
todo. Na Primera Crónica General, vemos como esta forma de perceber a realidade se
encontrava profundamente enraizada nas maneiras de pensar e de sentir. Segundo ela,
no momento da conquista peninsular do século VIII, o poder dos “mouros” que vieram
da África era tão grande que “conquistaram toda a terra e a devastaram, e a colocaram
sob seu senhorio, e dai em diante foi o reino dos godos e suevos destruído e arrasado
por grande tempo” (Primera Crónica General. volume II. Cap. 560. p.322. Tradução
nossa).
A crônica faz uma menção clara ao ano de 1085, apontando que teria sido a data
em que supostamente o reino dos godos teria sido restaurado. A referência a esta data
é uma menção direta ao momento da conquista da antiga capital visigótica, Toledo,
tomada por Afonso VI no referido ano. O evento é apresentado como se os homens que
recuperaram Toledo no século XI fossem os mesmos que a haviam perdido mais de três
centúrias antes.
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O encadeamento destes fatos parece apontar para a concepção de uma história
linear dos reinos de Castela e Leão. Iniciada com o reino visigodo, passaria pela conquista
de sua antiga capital no século XI, chegando até a unificação definitiva dos reinos no
século XIII, período em que supostamente teria havido uma consolidação da autoridade
castelhana no âmbito do território peninsular. Seria o caso de se perceber como tal ideia
serviu para impulsionar as subsequentes guerras entre cristãos e muçulmanos naquela
região. Para tanto, basta evidenciar que o resgate daquele suposto passado visigótico não
remetia apenas a um tempo histórico longínquo para os castelhanos e leoneses do século
XIII. O passado que era recuperado por meio das crônicas régias referia-se a um “tempo
de guerras”, em que se travavam lutas para preservar o território (quando remetia aos
tempos de Afonso IIII), bem como para preservar e/ou expandir a fé de Cristo.
Mais do que tudo, tratava-se de um tempo distante em que os ancestrais dos
“espanhóis” do século XIII já lutavam contra seus inimigos de fé, aqueles que eram
considerados como conquistadores do antigo reino de Toledo. A luta de reconquista,
ainda que fosse uma construção ideológica, serviu como um dos principais fatores que
impulsionaram as tropas cristãs hispânicas na guerra contra os reinos islâmicos do sul
peninsular. Em pleno século XII, as noções de reconquista passaram a ser associadas à
noção de uma cruzada na Península Ibérica, aumentando, assim, a carga simbólica que
revestia os conflitos contra as taifas muçulmanas.
As crônicas afonsinas, em especial a Primera Crónica General de España,
recuperam este mito da continuidade visigótica e da legítima retomada dos territórios
hispânicos das mãos dos islâmicos. Evidentemente, o os oficiais régios dão significativa
atenção a esta questão como o intuito de legitimar não só o processo expansionista
perpetrado pelo antecessor de Afonso, mas também buscam embasar as próprias
pretensões que o reino de Castela possuía sobre os demais territórios peninsulares que
ainda não estavam sobre o seu domínio. Afinal, se os reis castelhanos são a continuação
da monarquia que outrora havia dominado toda a Península Ibérica, nada mais legítimo
e justo do que o pleito, pelos descendentes desta “antiga linhagem”, da “reafirmação” da
hegemonia de poder de seus soberanos sobre todo aquele território.
O argumento que os cronistas utilizam para justificar a empreitada militar era de
que a vingança contra a injúria de ter perdido o reino cristão visigodo não caberia apenas
aos “espanhóis”, mas tratava-se de uma vendeta que envolvia toda a cristandade latina.
Amigos, todos nos somos espannoles, et entraronnos los moros la tierra
por fuerça et conquerieronnosla, et em poco estendieron los cristianos que
a essa sazon eran, que non fueron derraygados et echados della; et essos
pocos que fincaro de nos em las montannas, tornaron sobre si, et matando
ellos de nuestros enemigos et muriendo dellos [...] et pues que aqui sodes,
que me ayudedes a tomar uengança et emienda del mal que e tomado yo et la
cristandad.
7
Munidos dos ideais de Reconquista e de Cruzada, os reis de Castela começaram
7. Amigos, todos nós somos espanhóis e os mouros entraram em nossa terra por força e a conquistaram,
e em pouco [tempo] desbarataram os cristãos que ali estavam e que não foram desenraizados e expulsos
de lá; e estes poucos de nós que permaneceram nas montanhas, voltaram-se sobre eles [seus algozes]
e os mataram, bem como também foram mortos por eles [...] e já que aqui estamos, que ajudem a tomar
vingança e emenda do mal que tomou a cristandade. (Primera Crónica General. Volume II. p. 693. c.1013.
tradução livre).
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a projetar sobre si, em pleno século XIII, uma aura que procurava conceder-lhes uma
inigualável proeminência em relação aos demais monarcas cristãos. Esta associação
da realeza com a guerra de cruzada procurava estabelecer uma íntima relação com os
preceitos básicos da função régia que eram a proteção do reino e a propagação da fé
cristã. Ao apresentar a atividade militar de conquista dos territórios muçulmanos como
parte do programa de expansão da cristandade, o discurso régio procurava reforçar o
mito da reconquista, vinculando-o à cruzada contra os supostos “inimigos da fé cristã”.
Ao veicular estas ideias, abria-se a possibilidade de se criar um elemento de integração
que pudesse, enfim, unir as populações dos reinos de Castela e Leão em consonância
com um ideal comum. Estas lutas contra os reinos muçulmanos eram apresentadas
no relato como momentos em que se produzia uma reparação de um mal perpetrado
contra a população cristã hispânica e contra a cristandade como um todo.
Et tiene muy a coraçon el danno et el quebranto que el et la cristandad auien
recebido em la batalla [...] porque assi como fuera grand ademas la soberuia
et el quebranto et la desonra que el [el rey] ali tomara, que assi touiesse el
guisado de tomar grant emenda de los enemigos renegados de la cruç quel a
ell esto fizieran et loando a Dios et a su merçed, assi le cumplio.
8
A produção do discurso acerca da monarquia guerreira – essencial à construção
da ideologia régia – não supõe uma atitude unilateral ou mesmo uma imposição dos
monarcas aos seus súditos. Precisamos lembrar que o poder desses reis não derivava
apenas do controle ou da utilização de certos instrumentos de coerção ou de regulação
social. Manifestava-se, dialeticamente, uma demanda por determinadas atitudes que
partia dos súditos, expectativas nutridas em relação a esse ícone da autoridade que
precisavam ser respeitadas.
O passado como arquétipo para a teoria política afonsina
Vimos, até aqui, a construção de mais um paradigma para a monarquia castelhana
do século XIII que tinha na sabedoria (e em toda a extensão desta virtude) a sua principal
expressão. Contudo, a afirmação de um rei sábio em Castela não pode nos levar a crer
que este era o único paradigma ao qual se dedicava o discurso político de então. Os
mesmos documentos que exortam o conhecimento e a justiça como características
necessárias à realeza, também não deixam de evidenciar outros aspectos da ação régia.
O envolvimento em sangrentos conflitos armados constituiu um elemento
constante em boa parte da história do reino. Estas marcas são perceptíveis não apenas
nos tratados políticos e na grande profusão de referências à guerra na legislação, mas
também nos modelos idealizados de governantes que são apresentados pelas obras
históricas para inspirar a ação dos monarcas que sucederiam o rei sábio
9
. Mais do que
8. E têm muito no coração o dano e a destruição que ele [o rei] e a cristandade receberam em batalha[...]
porque assim como foi grande demais a soberba, a destruição e a desonra que [o rei] ali recebeu, que
assim tivesse ele cuidado para realizar uma grande reparação dos inimigos renegados da cruz, os quais
assim o fizeram, e louvando à Deus e graças o sua mercê assim se cumpriu. (Primera Crónica General.
Volume II p.692- 693.c.1013. Tradução livre).
9. A Segunda Partida dedica dois títulos às guerras e outros aos cavaleiros, peões, guardas, besteiros, lan-
ceiros e outros soldados que não integravam a nobreza, mas eram indispensáveis em tempos de conflito.
Usos do relato histórico pelo poder régio em Castela e Leão (1252-1284)
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 157-175, jul.-dez., 2016.
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uma nova imagem ou requisito, a sabedoria em muitos momentos é mostrada como uma
qualidade complementar à liderança dos chefes militares. Vimos, no capítulo anterior,
que a memória dos reis guerreiros desempenhou um importante papel na afirmação da
legitimidade da realeza castelhana baixo-medieval.
Grande parte destas passagens encontra-se na literatura cronística do período.
Individualmente, a sabedoria dos homens (e principalmente dos líderes) é retratada
nestas crônicas como um misto de força e talento para a arte de governar e guerrear.
Reis míticos da antiguidade greco-romana apresentados no relato são descritos como
homens sábios porque capazes tanto de conquistar territórios por meios militares,
como de mantê-los, administrá-los e povoá-los, fazendo-os prosperar. Este é o caso
da história do mítico rei Espan, que não só conseguiu conquistar a Espanha, como
a povoou e fez em suas terras “lauoras marauillosas” (Primera Crónica General de
Espana. Volume 1. cap. 9. p. 11).
Esta representação dos reis da antiguidade como bons administradores revela mais
um paralelo em relação à realidade enfrentada pelas monarquias do século XIII. Não só no
reino de Castela de Afonso X, mas em outras regiões da Europa vemos um progressivo
movimento pelo qual os príncipes passam a se comportar mais como chefes estadistas
do que como líderes guerreiros. Em face de uma conjuntura na qual o soberano se via
diante de uma vasta amplitude de terras para povoar e para administrar, tal como no reino
castelhano no início do governo do rei sábio, a figura de um “rei útil” emerge como uma
realidade necessária à instituição monárquica (LE GOFF, 2002, p. 407).
Em Castela, este modelo ideal de realeza é percebido como aquele que consegue
congregar tanto as condições do sábio, como a boa educação, o gosto pela música,
pelas leis e pelas letras, como as funções do soldado, ou seja, o êxito no campo de
batalha, o bom manejo das armas, a desenvoltura ao cavalgar, os valores da cavalaria
cristã. Ao retratar Júlio César, a crônica enfoca especificamente nestes dois conjuntos
de virtudes:
Fue Julio Cesar uno de los meiores caualleros del mundo; nunqua fue omne
que mas batallas uenciesse que ell, ni que mas matasse enemigos (...) E pero
on todo aquesto nunqua Julio Cesar tantas batallas ouo nin tantos embragos,
ni ouo tanto de ueer que dexasse de leer ni de estudiar noche ni dia, et de
aprender muy de coraçon, de guisa que tanto apriso en griego et en latin,
que fue ffilosopho. Nunqua fue ninguno que mas ayna escriuiesse que ell, ni
que mas ayna leyesse. E escriuiendo quatro escriuanos quanto mas escreuir
podien, dicto ell uma uez quatro epistolas em uno, em muy frermosos latines,
et auondolos a todos quanto escrevir pudieron. E demas sabie bien uersificar,
et uersificaua muy fremoso et much ayna.
10
(Segunda Partida. Títulos XXIII e XXIV).
10 Foi Júlio César um dos maiores cavaleiros do mundo; nunca houve homem que nas batalhas ven-
cesse ele, nem que matasse mais inimigos[...] e mesmo com tudo isso, nunca houve batalhas nem embargos,
nem houveram coisas a serem vistas que zeram com que Júlio César deixasse de ler e de estudar dia e noite,
e aprendia com muita vontade, e aprendia tanto em latim como em grego, e foi lósofo. Nunca houve ninguém
que com mais vontade escrevesse nem que lia com mais vontade que ele. E escrevendo com
quatro notários para que assim pudesse escrever mais, ditou ele uma vez quatro epístolas seguidas em
um latim muito primoroso, registrando tudo quanto pudesse escrever. E também sabia rimar e escrevia rimas
muito bonitas com muita eciência. (Primera Crónica General de Espana. Volume 1. cap. 117. p. 94. Tradução
livre).
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Difícil não reparar nas semelhanças entre o imperador romano e o príncipe de
Castela. A atenção dada ao amor ao estudo – a ponto de transformá-lo em um filósofo
– aliada ao apreço que cultivava pela escrita e pela música, nos leva a pensar se o
personagem retratado não é Afonso X ao invés do general romano. Mas a descrição
deste governante perfeito não se limita às suas qualidades intelectuais. Júlio César
também é mostrado como o um dos melhores cavaleiros de seu tempo, o homem que
ganhou mais batalhas do que qualquer outro. Percebemos nesta passagem como a
guerra e a sabedoria se unem para construir o governante ideal. A escolha de Júlio
César para personificar tal figura não se dá ao acaso. Suas proezas militares e o feito
de unificar um império dividido aproximavam-se muito da própria conjuntura pela qual
passava o reino castelhano nos tempos do Rei Sábio.
O recurso de valer-se da imagem dos imperadores romanos para apresentar esta
realeza multifacetada – e que beirava a perfeição – não se limitou à figura de Júlio
César. Outros líderes militares da antiga Roma foram lembrados tanto por suas virtudes
intelectuais quanto pela habilidade guerreira.
Vespasiano (69 d. C. – 79 d. C.), imperador que sucedeu a Nero, é retratado como
bom administrador, pois teria reconstruído diversas cidades assoladas pelas guerras
de seus antecessores. A crônica ainda lhe atribui um primeiro incentivo ao trabalho
intelectual sob o patrocínio da própria corte imperial.
Muchas cibdades que fueron destroidas por todas las tierras del mundo (...)
refizlo las todas muy meior de lo que ant era; ouo muy grand sabor de mantener
las artes de los saberes e de las refazer, assi que el fue el primero que puso la
camara dell emperador cient marcos por cadanno a cada uno de los maestros
que leyen y rectorica em griego et en latin, e otrossi a los gramatigos et a los
otros maestros daua les muy grand algo por que mostrassen em Roma de sus
artes.
11
Sucessor de Vespasiano, Tito é mostrado como sendo aquele que conseguiu
alcançar um perfeito equilíbrio no manejo das armas e das letras.
Era omne de muy grand fuerça, et de tan buena memoria que no auie par. Era
muy sotil a marauilla porá aprender de toda arte, quiere de batalla, quier de
paz; et muy sabidor de armas et de caualgar; assi que numqua se combatio
cauallero com el a que firiesse de lança, que le no matasse o lo no derribasse
del cauallo en tierra (...). E era muy letrado em griego et em latin, quier em
fablar et mostrar um pleyto em qualquier lengua dellas, quier em fazer libros
de qual natura sel antoiasse. E otrossi sabie algo en musica, de manera que
cantaua alegremientre et com cordura. Em toda manera de caualleria era
maestro acabado.
12
11. Muitas cidades que foram destruídas por todas as terras do mundo[...] reconstruiu todas de forma
muito melhor do que eram antes; e houve muita estima em preservar as artes dos saberes e das refazer.
Assim, foi ele que colocou primeiro sob a arrecadação do imperador [a quantia de] cem marcos por cada
ano a cada um dos mestres de leitura e retórica em grego e em latim, e também o fez aos gramáticos e
aos outros mestres lhes dava muita coisa para que mostrassem em Roma as suas artes. (Primera Crónica
General de Espana. volume 1. cap. 185. p. 137. Tradução livre).
12. Era homem de força muito grande e também de boa memória que não havia igual. Era muito inclinado
à maravilha de aprender todo tipo de arte, quer seja de batalha, que seja de paz, e era muito conhecedor
das armas e de equitação, tanto que nunca houve um cavaleiro que tenha lutado com ele que ele não
matasse ou tenha derrubado sobre a terra[...] e era muito letrado em grego e em latim, tanto no simples
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Ainda sob o governo do rei sábio a guerra não deixou de ser concebida como um
importante cenário para a valorização das virtudes régias, principalmente das virtudes
cristãs. Na documentação cronística, percebemos como grande parte dos mil cento e
trinta e cinco capítulos da Primera Crónica General são dedicados às narrativas de
batalhas ambientadas na antiguidade, no período da dominação romana na Península
Ibérica, do reino Visigodo, e na expansão dos reinos de Castela e Leão. Esta lógica
guerreira da crônica teve continuidade mesmo quando Sancho IV assumiu a redação final
do documento, valorizando as últimas incursões militares feitas em terras andaluzas,
descritas com grande riqueza de detalhes. Desta maneira, a guerra não cessava de
povoar o cotidiano e o imaginário dos homens da Península Ibérica do século XIII.
Fossem os reis guerreiros, sábios ou mesmo ambos, seus cognomes não
obliteravam aquela que era a mais importante das imagens atribuídas à realeza. Tanto
o rei da cultura quanto o rei das armas deveriam demonstrar certo comportamento
esperado. Estas expectativas não eram nutridas apenas pelas camadas mais humildes
da população, mas por boa parte da sociedade. Em uma sociedade fortemente marcada
pela religião, tal como era a sociedade castelhana do século XIII, era esperado que
o governante se mostrasse como o mais virtuoso de toda a comunidade. O rei da
comunidade cristã castelhana precisava ser um rei cristão.
Realeza e aristocracia guerreira
A presença de elementos comuns à cultura dos homens de armas se mostra
fartamente presente não apenas nos registros da história do reino, mas em diversas
outas obras produzidas no governo de Afonso X. Além da sociedade castelhana do
século XIII ter se constituído como uma sociedade marcada pelo combate e pelos
conflitos militares, em incontáveis casos o apoio da aristocracia guerreira definiu as
principais disputas nas quais se envolveu a monarquia.
A produção do discurso acerca da realeza guerreira não supõe uma atitude
unilateral ou mesmo uma imposição dos monarcas aos seus súditos. Precisamos
lembrar que o poder desses reis não derivava apenas do controle ou da utilização de
certos instrumentos de coerção ou de regulação social. Manifestava-se dialeticamente,
mediante uma demanda por determinadas atitudes que partia da própria população,
expectativas estas que eram nutridas em relação a esse ícone da autoridade e que
precisavam ser respeitadas.
As percepções ou imagens que os indivíduos ou grupos sociais faziam tanto do
poder como do seu representante contribuíam para determinar o seu comportamento
no contexto em que se expressava a sua autoridade (STOPPINO, 2004, p. 937). Não só o
detentor do poder é constrangido pelas expectativas em relação ao seu comportamento,
mas também as demais pessoas submetidas à sua autoridade. Muito daquelas imagens
revelavam características do próprio meio social do qual seus promotores eram oriundos.
Os governantes de um estado envolvido em constantes lutas povoavam o imaginário
típico dos guerreiros. Nada mais cabível para um rei, cuja história do território esteve
perenemente mergulhada em disputas armadas, do que ter associado à sua pessoa o
falar quanto na apresentação de pleitos em qualquer língua destas, também conhecia muitos livros de
qualquer natureza que houvesse. E ainda, sabia algo de música de maneira que cantava alegremente e
com beleza. E em todos os assuntos de cavalaria, era um mestre completo (Primera Crónica General.
Volume I. cap. 186. p. 138. Tradução livre).
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código de comportamento daquela parcela da sociedade responsável pelos combates
armados, especialmente quando estas normas comportamentais e estes valores se
difundiam por boa parte da coletividade de seu reino.
Nas próprias compilações legislativas já era possível perceber que era dever dos
soberanos saber manejar as armas. Convinha que fossem conhecedores do modo de
viver da cavalaria, para que assim pudessem amparar o seu rebanho e conquistar seus
algozes.
Aprender deue el rey otras maneras (...) ca em fecho de Caualleria conuiene
que fea fabidor, para poder mejor amparar lo fuio, e conquerirlo de los
enemigos. E porende deue faber caualgar bien, e apueftamente, e vfar toda
manera de armas, tambien de aquellas que há de veftir para guardar fu cuerpo
(...) E de las que fon para lidiar, afi como la lança, e la efpada, ha de fer muy
mañoso para ferir com ellas.
13
As virtudes da cavalaria – a coragem, a força e a cortesia – passam também a
fazer parte do repertório de qualidades que se procurava associar aos reis castelhanos.
No decorrer do século XIII, as crônicas castelhanas foram largamente utilizadas pela
literatura régia para ressaltar os valores que os reis e os guerreiros deveriam possuir.
Georges Duby nos mostrou que a ética entre os cavaleiros da Idade Média pedia que os
combates entre estes fossem empregados de forma justa e direta (DUBY, 1995, p.119).
Seguindo esta lógica, temos o um momento da crônica quando o rei castelhano,
que era fartamente retratado como um guerreiro honrado, nega-se a utilizar qualquer
tipo de subterfúgios para vencer suas batalhas, enfrentando seus inimigos abertamente.
Em um dos relatos de suas batalhas, o monarca recusa veementemente um plano
de atrair as tropas muçulmanas para uma armadilha. Tal atitude se deu em função de que
o estratagema envolveria uma simulação de fuga por parte das tropas cristãs, atitude
esta que o governante terminantemente abominava, não admitindo que nem os inimigos
nem os seus aliados pensassem que ele cogitava uma debandada.
Fizzo assi el noble don Alffonsso [VIII] rey de Castiella, et dixo: “si este conseio
fuere tenido por bueno et tomado em buena parte, pero trae periglo consigo:
ca el pueblo et los otros que lo non ouieren prouado, quando uieren tornar
atrás, non judgaran que batalla ymos buscar, ms que fomos de la batalla” [...]
Non conuiene de tirarse nin de asconderse de la vista de los enemigos, mas
aun que ueyendolo ellos et non nos podiendo embargar nin estoruar nin nos
tener danno, que podriemos uenir al logar conuinient a la batalla.
14
13. O rei deve aprender outras técnicas (…) pois para o feito da cavalaria convêm que ele seja bom co-
nhecedor para que, assim, possa melhor amparar aquilo que é seu e conquistar seus inimigos. E sendo
assim, deve saber cavalgar bem e de maneira correta, bem como usar todos os tipos de armas, assim
como aquelas [armaduras] que deve vestir para guardar o seu corpo (…) e as [armas] que servem para a
batalha, a lança e a espada, precisa ser muito habilidoso para ferir come elas. (Segunda Partida. título V.
lei.XIX. Tradução livre).
14. Fez assim o nobre rei dom Afonso [VIII] rei de Castela, e disse: “se este conselho fosse considerado
bom seria e levado a cabo, mas traz perigo consigo, pois o povo o os demais que não o ouviram, quando
virem que recuamos, não irão achar que fomos batalhar, mas sim que fugimos da batalha” [...] não con-
vém que se retirem nem que se escondam da vista dos inimigos, mas sim que eles vejam que nãos podem
embargar não podem nos estorvar, nem nos fazer dano, e que poderíamos ir ao lugar conveniente na
batalha. (Primera Crónica General. Vol.II. cap.1016. p. 698. Tradução Livre).
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Desta forma, a coragem era ressaltada como um atributo imprescindível à figura
régia. Governantes continuavam a ser retratados como um homem que não temia ser
morto em batalha. Lançavam-se com ferocidade sobre seus inimigos:
Entonçes, dixo el noble rey de cabo al arçobispo: “arçobispo, aqui mueramos,
ca tal muerte conuiene a nos,.[...] Entonces, el noble rey don Alffonso, non
demudada por ello la cara ni su loçano gesto, nin demudada la palabra, parosse
esforçado et firme, como fuerte varon armado, et como leon sin espanto; ca
porá morir o pora uençer firme estaua.
15
Adicionalmente à coragem, destacava-se o empenho e a postura infatigável que
estes homens ilustres demonstravam durante o combate. O próprio cronista justifica
a prolixidade de suas referências alegando que os reis não paravam de conquistar
e batalhar (Primera Crónica General.vol II. cap.1023. p.706). Só mesmo grandes
adversidades, como a fome e a carestia, dilapidados os mantimentos ao longo de
sucessivas e ininterruptas campanhas militares, seriam capazes de refrear o ímpeto de
continuar a expandir o território Como chefe militar, viver com armas à mão era o preço
da própria existência como rei.
Mesmo no desempenho de suas atribuições régias percebe-se uma lógica belicosa
no que tange a aplicabilidade de suas funções. Tal lógica se expressa ao observarmos
quais eram as noções de justiça e de paz que Castela do período de “Reconquista”
definia nesta documentação. Em episódio retratado na crônica, o rei castelhano realiza
a justiça executando sumariamente os criminosos que encontra em seu caminho. De
igual maneira, o soberano resolve contendas menores e aplica a justiça também com
base na força das armas, sem hesitar em derramar sangue
Desque el rey don Fernando [...] salio de Burgos et començo a andar por la
tierra fazendo muy grant jutiçia et castigando su tierra et perdonandola bien,
ca era muy mester. Et el rey fazendo esto, fallo y muchos querellosos, et
endereçoilos bien ante ende saliese, et mato y muchos malfechores. (Primera
Crónica General. vol. II. cap. 1061. p.742).
A paz, por conseguinte, era alcançada uma vez que as terras do reino encontravam-
se livres do medo que a insegurança transmitia. Insegurança suscitada tanto pelos
contestadores da autoridade central como pelos inimigos da fé cristã. Os governantes
castelhanos e leoneses são mostrados dedicando boa parte de suas vidas aos campos
militares e aos cercos de cidades inimigas. As qualidades atribuídas à estes homens
estão em consonância com os valores da cavalaria expostos acima, com o diferencial
que, na figura régia, tais virtudes mostram-se mais fortes e mais marcantes.
A força destes reis é constantemente mostrada através de grandes atos de
violência e destruição contra seus adversários. A destruição das cidades que não se
submetiam a sua autoridade era tanta que “não lhes sobrava coisa alguma de pé por
detrás de suas portas” (Primera Crónica General. vol. II. cap. 1063.p.743).
15. Então, disse o nobre rei em resposta ao arcebispo: “arcebispo, aqui morreremos si tal morte convêm
a nós” [...] então o nobre rei dom Afonso, não alterando suas feições , nem seus graciosos gestos, nem
alterando suas palavras, parou de forma rígida e firme, como forte homem armado, e como um leão sem
espanto, para morrer ou para vencer firme estava. (Primera Crónica General. Vol II. cap.1019. p.702. tra-
dução livre).
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Mais do que em qualquer outro lugar, a península seria o principal espaço dentro
do qual o próprio monarca se beneficiaria de seu renome. Assim como os cristãos o
conheciam, seus adversários também escutavam os feitos de suas conquistas e temiam
a força de seu exército. Em algumas passagens de suas crônicas, vemos que a mera
visão do rei nos campos de batalha provoca pânico e fuga entre os exércitos inimigos.
“Et outro dia de grant mannana el rey don Fernando amanescio com ellos, et los morros
quando vieron que era y el rey, touieronse por perdidos et salieron luego a el con
pleytesia”.
16
O que está em jogo aqui não é uma discussão sobre a veracidade de tais fatos,
mas a ressonância que nos permite entrever: a figura do rei era familiar a ambos as
facções em combate. A perspectiva de combater um exército que havia conquistado
tantas vitórias, de certo potencializava a imagem do rei combatente entre os guerreiros
muçulmanos.
O discurso político do século XIII não se resumia apenas a enaltecer os atos de
violência. Como exemplo de combatente armado, o monarca deveria cultivar, na mesma
medida, o exercício de outras qualidades necessárias tanto ao ordo militar quanto aos
governantes. Afonso X, em suas Siete Partidas, relembrava que os reis devem possuir
quatro virtudes para governar o mundo temporal:
Cordura es la primera de las quatro virtudes que há el rey muchó menester,
para biuir em efte mundo bien derechaente. Ca efta faze ver las cofas, e
judgarlas ciertamente (...) la fegunda virtud es Temperança, ca efta es cosa
que faze al hombre biuir derechamente, nin cambiando nin ufando las cosas
mas do que lo cumple fu natura. La tercera es Fortaleza de coraçon. Ca efta
faze el ome amar el bien, e fegirlo, e aborrefer el mal, puñando fempre em
lo desfazer. La quarta virtud es Jufticia, e es madre de todo el bien, e en ella
caben todas las otras, ayuntando los coraçones de los omes, faze que fean
afsi como uma cola, para biuir derechamente, fegund mandamiento de Dios,
departiendo e dando a cada vno fu derecho
17
.
Voltemo-nos por um instante para a temperança ou sobriedade de julgamento.
Nem o rei ou mesmo os guerreiros podiam se entregar à violência desregradamente,
pois como já vimos este comportamento não era adequado aos seguidores de Cristo.
A história dos antigos reis de Castela, anteriores ao tempo de Fernando III, é utilizada
como exemplos de soberanos que souberam pôr as armas de lado e usar a diplomacia.
Em um destes momentos, destaca-se o episódio em que o rei Sancho III, na iminência de
guerrear com seu irmão o rei Fernando II de Leão propõe um acordo que pudesse selar
a paz entre ambos e poupar-lhes um embate direto
18
.
16. E outro dia de grande manhã, o rei Don Fernando amanheceu com eles, e os mouros quando viram que
estaba ali o rei, momaram-se por perdidos e sairam logo e se renderam. (Primera Crónica General. vol.
II. c.1063. p. 743. Tradução Livre).
17. Prudência é a primeira das quatro virtudes que o rei deve muito cultivar para viver neste mundo de
forma apropriada. Pois ela faz ver as coisas e os permite julgar corretamente [...] a segunda virtude é a
temperança, pois esta é a coisa que permite os homens viver apropriadamente, sem mudar ou usar as
coisas mais do que são necessárias. A terceira é a força do coração. Pois esta faz o homem amar o bem
e segui-lo, e lutar contra o mal, procurando sempre o desfazer. A quarta virtude é a justiça, e é a mãe de
todo o bem, e nela cabem todas as outras [virtudes], unindo os corações dos homens, fazendo com que
sejam unidos em uníssono, para viver corretamente segundo a vontade de Deus, repartindo e conceden-
do a cada um [aquilo que é] seu por direito. (Segunda Partida.Título V. lei VIII. Tradução livre).
18. (Primera Crónica General. Vol.II. cap. 986. p.666).
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A honestidade e o cumprimento da palavra dada são atributos igualmente
retratados nas narrativas de vida de Fernando III. Valores igualmente próprios da
cavalaria (DUBY, 1995, p.118), a palavra do rei é mantida mesmo quando este faz alguma
concessão ao seu inimigo.
Na medida em que estes reis guerreiros eram apresentados como modelos de
bons governantes, havia no mesmo sentido histórias de reis que poderiam servir como
exemplos de governantes ruins. Estes “maus exemplos” guardavam os vícios e fraquezas
que os homens de armas procuravam afastar de si, como covardia perante o combate
ou a cobiça dos tesouros pilhados ou ganhos.
Geralmente, os governantes islâmicos são retratados de forma inversamente
proporcional aos monarcas da cristandade. Uma vez que os defensores da cruz de
Cristo são mostrados como homens valorosos e honrados, seus algozes, por outro lado,
aparecem como covardes e traidores da pior espécie.
Um clima de constante desconfiança é apresentado como um elemento comum
aos diversos estados islâmicos da península. No relato das crônicas é possível observar
como as próprias alianças entre os soberanos muçulmanos eram desrespeitadas e como
estes próprios não confiavam uns nos outros.
Mas a infidelidade não é o defeito mais grave ressaltado pelas crônicas
castelhanas. Naquela sociedade guerreira não havia desonra maior do que a covardia em
situações de combate e o abandono dos companheiros de armas em plena batalha. Os
momentos mais emblemáticos da figuração negativa dos reis muçulmanos são quando
estes se colocam em fuga para salvar suas próprias vidas, entregando-se ao medo.
Desta forma, as crônicas mostravam os antagonistas dos monarcas cristãos como o
avesso da honra cavaleiresca. O objetivo deste recurso retórico era claro: desacreditar
o grupo adversário, cujo exército durante tanto tempo ameaçou os reinos cristãos do
norte peninsular.
No tocante à cobiça, encaixavam-se neste quadro, de maneira um tanto constante,
os soberanos cristãos que guardavam rivalidades históricas com os reis de Castela, tal
como os monarcas de Navarra. Um deles, Sancho, conhecido como “o Bravo”, foi taxado
de “valente das mãos e covarde da vontade” (Primera Crónica General. Vol.II.cap.1005.
p.684).
Grande parte destas adjetivações se deve às alianças que os soberanos de
Navarra, em especial o próprio Sancho citado acima. Ao retratar o rei de Navarra e seus
aliados islâmicos, este tipo de aliança é abordado como um grave pecado, com o intuito
claro de desmoralizar não só o governante, mas todo o reino rival. A mensagem era
clara: a aliança com aqueles que eram considerados inimigos da fé poderia fazer com
que os monarcas ficassem carregados de bens, mas desprovidos de suas possessões e
de sua honra.
A cobiça, tanto dos reis quanto dos homens, mostra-se como uma outra fraqueza
presente especialmente após as batalhas. Neste momento, muitos homens, como aves
de rapina, se lançam sobre os corpos dos seus inimigos vencidos buscando despojar-
lhes de seus bens mais preciosos. A busca por estas riquezas fazia parte das demandas
daqueles homens que prestavam o “serviço militar” – constituindo em alguns casos a
parte essencial de sua renda – e seriam poucos os que não lançavam mão de tal prática.
É possível destacar as inúmeras tentativas da Igreja para afastar um pensamento
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173
tão mundano da cavalaria que lutava pelos desígnios de Deus. Na Primera Crónica
General, o arcebispo de Toledo ameaçou de excomunhão a todos que se rendessem
a tais modalidades de enriquecimento. Não obstante, apenas os guerreiros mais ricos
e abastados (ou os mayores omnes) ficaram isentos de tal ato, guardando assim sua
honra e sua nobreza, para “non se abaxar a tales cosas”.
Et tantas cosas de los alaraues yazíen em el campo, que aduir podien los omnes
tomar la metade; et quien robar quiso, muchas cosas fallo y que tomasse
e leuasse, conuiene a saber: oro et plata, vestiduras preçiadas et ropas de
casa, ropa de seda muchas e nobles, et mucho otros affeytos, et todas estas
cosas por la mayor parte ouieron los peones et los caualeros de Aragon, ca
los mayores omnes que auien ell amor de la fe et guardauan la onrra de la ley
et se querien dar por libres et non se abaxar a tales cosas, et guardaran sus
noblezas, desdennando todas estas cosas [...] porque el arçobispo de Toledo
deuedara et descomulgara el dia dantes a todos aquellos que em la dexassen
de matar et crebantar los enemigos, et se metiessen a tomar ninguna cosa dell
campo , fasta que toda la batalla fuesse librada.
19
De maneira análoga, o rei de Castela constituía-se mais uma vez como um
exemplo alheio a tais fraquezas, principalmente a da cobiça, sem nunca dar vazão aos
vícios da carne. Conforme apontava o costume, o soberano dividia igualmente o butim
de guerra com todos os soldados, nunca separando qualquer parte mais valiosa para si
mesmo.
Cabe agora empreender uma breve reflexão acerca dos objetivos almejados
pela documentação oficial do século XIII (ou pelos mandantes de sua execução) ao
apresentar desta maneira estes personagens históricos. Tanto empenho, por parte
dos cronistas, em ressaltar as qualidades de seus regentes decorre, antes de mais, da
própria conjuntura política interna do reino. Conforme vimos nos capítulos anteriores,
o poder central viu-se diante de duas revoltas nobiliárquicas apenas durante o governo
de Afonso X. Tais revoltas expuseram o grau de desgaste existente na relação entre o
governante e seus vassalos diretos, situação esta que levou a monarquia a desenvolver
múltiplos instrumentos retóricos que tentassem resgatar a cadeia hierárquica onde os
condes e duques deveriam estar submetidos à vontade do seu rei através dos laços de
subordinação pessoal.
As representações que ressaltam os aspectos guerreiros da monarquia
desempenham neste sentido um importante papel. Ao valorizar um tipo específico de
virtude e comportamento atribuía-se ao soberano uma singular notoriedade, fazendo
com que ele se destacasse perante os demais senhores locais. Com isso, o exercício do
seu poder estaria respaldado por toda uma tradição de lutas religiosas empreendidas
desde antigos tempos, por todos os homens que detinham a dignidade régia.
19. E tantas coisas dos árabes jazia no campo que os homens podiam pegar a metade delas, e quem quis
roubar, muitas coisas haviam para tomar e levar, convêm saber: ouro e prata, vestidos preciosos e roupas
de casa, muitas roupas de seda nobre e muitos outros artigos , e a maior parte de todas as coisas pega-
ram os peões e os cavaleiros de Aragão, mas os maiores homens que haviam amor pela fé, guardaram
a honra da lei [de Cristo] e se queriam dar por livres e não se rebaixar a tais coisas, e mantiveram sua
nobreza, desdenhando de todas estas coisas [...] por que o arcebispo de Toledo deserdara e excomungara
no dia anterior todos aqueles que deixassem de matar e de destruir os inimigos, e se colocassem a tomar
coisas do campo até que toda a batalha fosse encerrada. Primera Crónica General. Vol.II.cap.1020.p.704.
Tradução Livre.
Usos do relato histórico pelo poder régio em Castela e Leão (1252-1284)
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 157-175, jul.-dez., 2016.
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Fundamentada em símbolos próprios da cultura local, esta faceta da realeza
apresentava uma série de pontos recorrentes para a construção de imagens dos atores
políticos: seus reis possuíam um temperamento marcante, tinham a seu favor toda uma
conjuntura histórica e tomavam parte (ou criavam) acontecimentos importantes.
A estratégia do discurso não passava apenas pela enumeração dos predicados
dos seus atores políticos. Sua importância para esta pesquisa é mais profunda do que
o significado das palavras que o qualificavam. Estava na forma como os homens, em
especial o rei, eram apresentados. Ao associá-lo ao mundo dos guerreiros e das suas
virtudes, percebemos que a instituição régia não concebia uma separação estrita entre
o seu representante máximo, o rei, e o segmento aristocrático ao qual era incumbida a
função de proteger a sociedade. Tanto o governante como os homens que muitas vezes
desafiaram a sua autoridade ao longo do século XIII partilhavam dos mesmos valores e
viam-se como membros da mesma classe.
No caso do rei Afonso X e os nobres de seu reino, o antagonismo que muitas
vezes levou a realeza e a elite senhorial a lutar uma contra a outra não pode ser
compreendido como um fator completamente anômalo a esta dinâmica. Munidos dos
ideais de Reconquista e de Cruzada, os reis de Castela começaram a projetar sobre si, em
pleno século XIII, uma aura que procurava lhes conceder uma inigualável proeminência
em relação aos demais monarcas cristãos.
A própria crônica indica que a função da figura régia apontava para a guerra e
para a defesa do território como algumas de suas principais incumbências, utilizando a
cruzada contra os inimigos da fé cristã como construção mental que tinha por finalidade
aglutinar toda a heterogênea população do recém unificado reino de Castela e Leão
na luta contra um inimigo comum, liderados por seu augusto soberano. Precisamos
lembrar que o poder desses reis não derivava apenas do controle ou da utilização de
certos instrumentos de coerção ou de regulação social. Manifestava-se, dialeticamente,
uma demanda por determinadas atitudes que partia da própria população, expectativas
nutridas em relação a esse ícone da autoridade que precisavam ser respeitadas.
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