Recebido em: 12/02/2016
Aprovado em: 22/07/2016
Inventários de um mosaico: Representação
espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
Inventories of a mosaic: Spatial representation and
chorographical perspective in 19th century Brazil
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
1
Resumo: O artigo trata das representações espaciais do Império brasileiro sob a
perspectiva do olhar corográfico oitocentista. Por meio da análise de três opúsculos
impressos nas primeiras décadas do século XIX, buscamos compreender como
transformações no arranjo espacial do Império influenciaram na maneira de se enxergar
o território e distinguir suas partes. A tese principal esboçada no artigo é a de que ao
representar e inventariar o espaço, as corografias oitocentistas promoveram verdadeira
invenção do Império Brasileiro e de suas especificidades regionais.
Palavras-chave: Representação espacial; Olhar corográfico; Política imperial.
Abstract: This paper deals with spatial representations of the Brazilian Empire under the
1. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Econômica – FFLCH/USP e Bolsista da Fun-
dação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP. Endereço Institucional: Avenida Profes-
sor Lineu Prestes, 3380 – Cidade Universitária – USP – São Paulo – Brasil. E-mail: perolagold@yahoo.
com.br.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
231
perspective of 19th century chorography. In analysing three important works published
during the first 19th century decades, we aim understand how the transformations in
Brazilian special arrangement had affected the ways of recognizing territory and their
parts. At least, the main idea exposed in this article is that in representing the space,
19th century corographies had promoted the special invention of Brazilian Empire and
its parts.
Key-words: Spatial representation; Chorographical perspective; Imperial politics.
Introdução: espaço, território e representação
A emergência do Estado imperial brasileiro durante a primeira metade do século
XIX foi um fenômeno que não coincidiu com a consolidação de uma identidade política
propriamente nacional. Nos anos posteriores a sua independência, o Brasil ainda
figurava no conceito do mundo como uma construção política recente, uma invenção de
políticos locais que ainda não era depositária de efetiva adesão patriótica por parte de
seus habitantes. Para agravar o quadro, nas províncias que compunham o novo arranjo
institucional, o território encontrava-se fragmentado num sem número de identidades
regionais, muitas delas díspares entre si e refratárias às iniciativas de uniformização.
Como ocorreu, então, o estabelecimento de certos vínculos políticos nacionais
de maneira que tenha sido possível a montagem de um mosaico,
2
mesmo que imperfeito,
do Império do Brasil? Nossa proposta neste artigo é estudar os aspectos históricos
desse fenômeno relacionados ao conhecimento, representação e produção do espaço.
Em uma primeira definição, o espaço pode ser concebido como a unidade
elementar sobre a qual se estruturam categoriais de organização mais amplas e
sofisticadas como região, território, Estado, país etc. Sua identidade é definida, entre
outros fatores, pelo embate entre os limites naturais e culturais que o compõem.
No universo léxico sistematizado por Raphael Bluteau na primeira metade do
século XVIII, o espaço distingue-se em três tipos diferentes, a saber: 1) Espaço criado,
em cujas dimensões estão contidos o Universo e suas partes; 2) Espaço sagrado, ou
domínio da estância divina e 3) Espaço imaginário, “que é todo aquele vão, que fora
dos limites, e circunferencia do mundo todo se pode representar a nossa imaginação”
(BLUTEAU, 1728, p.252). Percebemos, assim, que os intelectuais do Setecentos já
empregavam o termo espaço em diferentes circunstâncias, estando atento à relação
entre imaginário e representação espacial.
Comumente atribuiu-se à História temáticas relacionadas ao domínio do tempo,
enquanto delegou-se à Geografia responsabilidade pelo estudo dos fenômenos espaciais.
Esta secção hierarquizada de conhecimentos, atualmente posta em questão, nem sempre
correspondeu aos modelos de pensamento do passado. Durante muito tempo, essas
disciplinas foram maneiras equivalentes de pensar, indissociáveis esquemas subjetivos
que coordenavam e integravam os fenômenos perceptíveis da natureza.
2. O termo “mosaico” é utilizado nesse artigo de maneira semelhante à utilizada por István Jancsó e João
Paulo Garrido Pimenta no artigo “Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo de emergência
da identidade nacional brasileira)”. Segundo esses autores, é consensual a afirmação do descompasso en-
tre os processos de independência política e da consolidação da unidade territorial, de vez que as diver-
sas provinciais de que se compunha território brasileiro não partilhavam identidades político-culturais.
Cf. JANCSÓ, PIMENTA, 2000, p. 129 – 175.
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
232
O século XIX pode ser visto como um momento de crescente historicismo e,
consequentemente, de progressiva valorização do tempo em detrimento da variável
espacial, no caso da disciplina histórica. Neste processo, nas palavras de Michel
Foucault, “O espaço foi tratado como o morto, o fixo, o não-dialético, o imóvel. O tempo,
ao contrário, foi a riqueza, a fecundidade, a vida e a dialética” (FOUCAULT, 2004, p.
14) (tradução nossa). Não que a produção histórica fosse desprovida de espacialidade;
a localização dos fatos era dado de imensa importância para os historiadores daquele
período. Entretanto, predominava a concepção de que a Geografia era disciplina auxiliar
da História: enquanto aquela preparava o cenário, esta ditava o roteiro das ações.
A predileção dos historiadores oitocentistas pela periodização do mundo
continuaria pelo século XX a enquadrar o pensamento crítico moderno, fundamentando,
inclusive, o status da História em meio à plêiade de disciplinas das Ciências Sociais.
Demorar-se-iam décadas para que os historiadores
3
percebessem as possibilidades de
se estudar sociedades pretéritas pela perspectiva do espaço.
O avanço nos estudos históricos desse tipo foi em parte possibilitado pelas
significativas contribuições da teoria relativista, cujo maior expoente, nas Ciências
Matemáticas, foi o físico austríaco Albert Einstein. Sua ideia de inexistência de um
espaço absoluto possibilitou a consideração de múltiplas espacialidades. Sob esta
perspectiva, houve considerável ampliação da concepção de espaço, que passou
a designar não apenas realidades físicas ou sociais, como também representações
imaginárias e campos discursivos.
Hoje em dia, é consensual que o trabalho do historiador não incide sobre o espaço
per se, mas sim sobre a história de suas apropriações, transformações e representações
ao longo do tempo. Ademais, a autonomia entre os espaços físico, social e mental não
se dá por uma secção rígida dessas instâncias, mas sim pelo intercambio contínuo entre
elas.
As variáveis de espaço e tempo devem ser, portanto, compreendidas em sua
dimensão de complementaridade. Tal como nos propõem Edward Soja em Geografias
Pós-modernas, as análises históricas que versam sobre questões relacionadas à
espacialidade devem buscar uma compreensão trialética entre espaço, tempo e ser
social (SOJA, 1997, p. 2).
Quanto às representações, podemos caracterizá-las como componentes de um
universo mental que se interpõe entre nossas sensações e a imagem construída acerca
de determinada realidade. Por serem construções sociais, as representações fornecem
aos homens subsídios interpretativos para a apreensão do real, fundamentando valores
e instituições normativas. Complementando esta definição, acreditamos que toda
representação espacial, desde a carta de um Império até a planta de uma habitação,
possui uma dimensão política, de vez que visa enquadrar determinado espaço a
diferentes dinâmicas de poder.
Outra característica importante das representações espaciais – diz Jacques Revel
–, é que elas são construções coletivas: mesmo que a autoria de um mapa seja atribuída
a uma pessoa apenas, essas representações estão relacionadas a tradições literárias,
convenções gráficas e projetos políticos que extrapolam a produção individual (REVEL,
3. Esforço pioneiro nesse sentido pode ser atribuído a Fernand Braudel em seu projeto historiográfico à
frente da Escola dos Annales entre as décadas de 1950 e 1960. Cf.: BRAUDEL, 1996.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
233
1989, p. 104). Sendo assim, os corógrafos, viajantes e jornalistas que descreveram a região
sul-mineira no Oitocentos são, todos, representantes do paradigma que denominamos
“gênero corográfico.
4
Em reflexão sobre o funcionamento epistemológico dos instrumentos de análise
próprios das Ciências Sociais, Pierre Bourdieu trata dos problemas inerentes ao espaço.
Para este teórico, as lutas por autoridade no campo espacial correspondem a momentos
da política governamental em matéria de ordenamento do território (BOURDIEU,
1980). Neste sentido, o autor infere que a crise de legitimidade do Estado nacional e a
emergência de formas de regionalização alternativas, fenômenos esses experimentados
pelas sociedades ocidentais na segunda metade do século XX, possam ser alguns dos
fatores responsáveis pelo crescente interesse de historiadores pela problemática
espacial.
Refletir sobre a formação territorial do Império do Brasil no século XIX é
necessariamente se debruçar sobre questões concernentes ao domínio do espaço e
sua institucionalização. Sendo assim, o conceito de território adquire centralidade
neste artigo, devendo ser compreendido como suporte pelo qual pessoas e coisas são
administradas, além de ser coeficiente das ações de poder.
No que concerne aos limites territoriais, esses são definidos não apenas por
critérios econômicos ou geográficos, mas também e, sobretudo, por ser zona de
competência institucionalizada. Assim, enquanto espaço é uma categoria geral,
ilimitada, que pode gerar ambiguidades, o território chama atenção para o princípio de
organização, relacionando-se intimamente às dinâmicas de poder e representação.
5
Desta breve reflexão, percebemos que espaço e território estão longe de serem
categorias de análise inócuas. Cabe, portanto, estimarmos como as reflexões de
Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Edward Soja entre outros teóricos relacionados à
problemática do espaço podem nos ajudar a lidarmos com fontes corográficas sobre o
espaço brasileiro.
O material para a elaboração deste artigo consiste, basicamente, em
opúsculos corográficos produzidos durante o período imperial
6
, que versam sobre o
território brasileiro. A sequência de análise foi estruturada no sentido de perceber
o desenvolvimento do paradigma corográfico durante o período imperial. Para isto,
abordamos a questão provincial no conjunto da política administrativa brasileira, de
4. Sobre os gêneros textuais, Luiz Antônio Marcuschi caracteriza-os como eventos altamente maleáveis
e dinâmicos que surgem emparelhados a inovações tecnológicas e necessidades sócio culturais (MAR-
CUSCHI, 2005, p. 19). Vale observar, como Jean-Michel Adam, que a função dessa categoria é, basicamen-
te, ordenar e estabilizar as atividades comunicativas, classificando-as de acordo com seu enunciador,
circunstâncias espaço-temporais, conteúdos, propriedades funcionais, suportes, estilo e composição.
Adaptados à metodologia da pesquisa histórica, a análise de gêneros textuais torna-se uma ferramenta
no trato das corografias oitocentistas, auxiliando-nos a identificar as características temáticas, estilís-
ticas e estruturais que remetem essas obras ao discurso de conhecimento do território (ADAM, 1997, p.
665).
5. Em estudo sobre os mecanismos de representação e produção do território francês na modernidade,
Jacques Revel obseva que o conhecimento do território é condição inseparável do exercício da soberania,
fazendo parte essencialmente do segredo de Estado (REVEL, 1989, p. 103).
6.Os opúsculos analisados são: 1) Corographia Brasílica ou Relação Histórico Geographica do Brasil
(1817), de Manoel Ayres de Casal; 2) Corographia ou abreviada História Geographica do Império do Bra-
sil (1829), de Domingos José Antonio Rebello e 3) Diccionario Topographico do Imperio do Brasil (1834),
de José Saturnino da Costa Pereira.
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
234
maneira a identificar nuances do processo de unificação territorial que caracterizou o
Estado nacional no século XIX.
Corografia: gênero e características
Hoje em dia pouco utilizado, o termo corografia era empregado com frequência no
passado para designar obras que tinham como fundamento a descrição pormenorizada
de um objeto espacial. Como qualquer gênero textual, o gênero corográfico é de
difícil definição formal, devendo ser contemplado em seus usos e condicionamentos
sociocomunicativos.
O paradigma de sistematização do espaço ao qual fazemos referência foi
estabelecido pelos gregos, os quais distinguiam três especialidades de percepção
visual: a topographia, que descrevia as condições de um lugar (topos); a khôrographia,
representando o caráter único das regiões (khôroi); e a gêographia, caracterizada pela
preocupação com a totalidade da Terra (). Era na alternância, e não na oposição,
entre estes elementos que residia a essência do conhecimento geográfico (CLAVAL,
1999, p. 189)
O gênero corográfico foi, portanto, produto e produtor de modalidades
específicas de elaboração de conhecimento sobre o espaço. Desde suas origens, as
corografias estiveram fundamentadas em princípios textuais e convenções estilísticas,
os quais serviram para organizar e dar sentido ao discurso de inventário de riquezas.
A principal característica que confere identidade e polissemia ao gênero
corográfico é o compromisso deste com a descrição qualitativa de uma região
7
. Vale
observar que, nas corografias, o emprego da linguagem visual, da pintura de palavras,
tornou-se uma convenção estilística para se detalhar os aspectos de um objeto espacial.
Ademais, por tratar da constituição de uma região em sua especificidade,
identificamos no paradigma corográfico certas semelhanças com a pesquisa antiquária,
praticada por eruditos desde o Renascimento. Ambas as formas de conhecimento
baseiam-se no tratamento sistemático das informações. Assim, enquanto o antiquariato
descobre uma moeda antiga e sobre ela discorre exaustivamente, o corógrafo representa
uma vila ou cidade de maneira pormenorizada e crítica.
O texto predominantemente descritivo das corografias se articula, por sua
vez, em outra característica importante do gênero, que é a taxonomização do mundo e
hierarquização dos elementos que o compõe. Não raramente, as corografias do século
XIX trazem tabelas e sumários nos quais discriminava-se toda a matéria que iria ser
descrita na obra. Assim, ao submeter a região aos princípios de classificação corográfica,
o que se estava buscando era o controle de uma realidade dinâmica e multifacetada.
Complementariamente à perspectiva linear, o olhar corográfico se desenvolveu
de maneira a submeter o espaço ao domínio hegemônico do intelecto e da razão. Sendo
7. Como categoria de análise, região é uma unidade que compreende diversas características, podendo
ser utilizada para designar diversos níveis dentro de uma taxonomia. Sendo assim, uma região pode de-
signar tanto uma fração do Estado nacional como um agrupamento de municípios que tenham em comum
características econômicas, culturais e/ou geográficas. A definição desse termo, portanto, não é alvo
de consenso: varia de acordo com a perspectiva teórica adotada para analisar determinado fenômeno
espacial. Para uma compreensão mais pormenorizada do termo, ver: FRÉMONT, 1980; TUAN, 1980; RON-
CAYOLO, 1986; BEZZI, 2004.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
235
assim, não é estranho que a perspectiva corográfica tenha predominado em documentos
de caráter militar, estratégico e estético, tais como mapas, roteiros de viagens e mesmo
em obras pictóricas dos gêneros natureza-morta e paisagístico.
Contudo, por mais que busque a síntese da essência de determinada região,
todo exercício de descrição corográfica tem seus limites, e esses se traduzem na
impossibilidade de representação do espaço real tal como ele se coloca às vistas do
observador. Isto porque, nos explica Edward Soja:
O que se vê ao olhar para as geografias é obstinadamente simultâneo,
mas a linguagem dita uma sucessão seqüencial, um fluxo linear de
afirmações elocutivas, limitada pela mais espacial das restrições terrenas, a
impossibilidade de dois objetos (ou palavras) ocuparem exatamente o mesmo
lugar (como numa página). Tudo o que podemos fazer é recompor e justapor
criativamente, num experimento com afirmações e inserções do espacial no
veio preponderante do tempo (SOJA, 1997, p. 9).
Por conta desta limitação fundamental, o mais minucioso dos inventários do
espaço será sempre uma construção, resultado da seleção de elementos historicamente
determinados. A natureza, sob os olhos do corógrafo, torna-se portanto paisagem
8
,
entendida como uma forma de ver o espaço e nele atuar material e simbolicamente de
vez a produzir impressão de ordem e controle.
Do Reino à Regência: corografias do Brasil
As novidades tecnológicas e técnicas do século XIX acabariam por modificar
não apenas as formas de percepção do espaço, como também as modalidades de
representação do mesmo. Na busca por atender às necessidades de consumo do
público leitor e estimular a produção de conhecimento, os editores da época adaptaram
o gênero corográfico a textos de diferentes naturezas e suportes materiais.
Nesse contexto, a corografia tomou forma do que conhecemos hoje por História
Local, produção historiográfica que diz respeito a umas poucas aldeias ou cidades
inseridas em uma região. Este novo gênero textual consistia numa mescla de descrição
topográfica e narrativa histórica. Também é característica deste tipo de historiografia o
tratamento sistemático das informações, bem ao modelo da pesquisa antiquária, além
de referência a personalidades locais, num tom muitas vezes sentimental e laudatório.
Mas o que fazia da região objeto tão interessante aos olhos dos homens do
Oitocentos? Pierre Goubert estima que, por um longo período, pelo menos até que as
idéias passassem a circular mais rapidamente e os homens se deslocarem com mais
frequência e rapidez, o ponto de referência da maioria das pessoas era a paróquia
8. O conceito paisagem foi trabalhado por Denis Cosgrove em suas relações com a perspectiva linear e a
noção de landschaft, própria da cultura alemã. Na concepção do autor, a paisagem é uma maneira de ver,
resultado de uma apropriação simbólica do indivíduo que compõe e estrutura o espaço de acordo com
princípios geométricos (COSGROVE, 1985). Para Alan Baker, geógrafo que estuda as relações disciplina-
res entre Geografia e História, paisagem não é apenas uma maneira de ver, mas também uma maneira
de pensar e agir, em suma, uma construção social, tanto intencional quanto espontânea (BAKER; BIG-
GER, 2006). O geógrafo Paul Claval, por sua vez, concebe a paisagem como suporte de representações
espaciais e matriz cultural que contribui para transmitir usos e significações de uma geração à outra
(CLAVAL, 2006).
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
236
natal ou uma pequena cidade e seus arredores (GOUBERT, 1972). Daí que, num tipo de
vida tão confinada, as atividades intelectuais e o próprio olhar sobre o espaço fossem
investidos de um forte sentimento de amor pátrio. Vale observarmos que, na etimologia,
os termos pátria e país derivam de uma mesma raiz historica, ambos designando lugares
de origem de uma determinada comunidade, espaços cotidianos carregados de grande
valor afetivo e simbólico.
Outra hipótese para a predileção oitocentista pela História Local ao invés de
uma síntese histórica geral é a de que, àquela época, os territórios nacionais ainda não
haviam sido consolidados a ponto de poderem ser inventariados, sem que se diluíssem
numa multiplicidade de regionalismos. Nesse sentido, o paradigma corográfico seria
expressão do nível de identidade espacial mais elementar partilhado pelos habitantes de
determinada região.
No Brasil, os processos de elevação à categoria de Reino e, posteriormente,
de Independência política, ocorridos na primeira metade do século XIX, expandiram
a noção de espaço entre as elites provinciais; alterando-se nelas a maneira de ver o
mundo e de nele se representarem e se reconhecerem. Em poucas décadas, instituições
que faziam parte do legado colonial português foram desativadas ou se transformaram
em outras realidades.
O desejo de alinhavar as diversas peças que compunham o grande mosaico
imperial brasileiro, sujeitando-as à supremacia do governo central, foi manifestado nas
mais diversas esferas de poder. No âmbito político, por exemplo, o sancionamento da
Carta Constitucional de 1824 confirmou o papel fundamental a ser desempenhado pelo
Imperador na gestão administrativa das províncias, através da nomeação direta dos
presidentes provinciais.
Tendo em vista a instituição de um passado comum, os agentes da formação
nacional empreenderam uma série de resignificações acerca de alguns temas
consagrados, como o bandeirismo e a descoberta de ouro nas Minas. Outras temáticas
próprias da geografia brasileira sofreram processos de reescrita e adaptação ao projeto
maior de civilização dos trópicos. Lembramos que, desde a década de 30 do século
XIX, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) constituiu-se num espaço
privilegiado, mas não único, para se pensar questões relativas ao passado, presente e
futuro nacional.
Anteriormente à institucionalização do conhecimento promovida pelo IHGB, o
paradigma corográfico já vinha sendo exercitado por viajantes estrangeiros, religiosos
e aventureiros locais, que nos legaram suas impressões, mormente sob a forma da
oralidade. Um dos primeiros esforços de compilação e sistematização de informações
gerais sobre o território luso-brasileiro foi feito por Manuel Aires de Casal, padre de
origem portuguesa e presbítero secular do Crato, região da província do Ceará.
Sua obra Corographia Brasílica ou Relação Histórico Geographica do Brasil,
publicada pela Imprensa Régia em 1817, investe-se de grande importância para a história
da leitura no Brasil, não apenas por ter sido o primeiro livro editado nesse país, como
também por ter se constituído verdadeiro modelo corográfico para empreendimentos
posteriores.
Observamos que a obra foi dedicada a D. João VI, fato que nos sugere que,
ainda naquela época, a Coroa promovia e legitimava o conhecimento do espaço luso-
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
237
brasileiro. Na dedicatória ao monarca, seguindo os códigos de louvor do Antigo Regime
ainda vigentes, Aires de Casal descreve as dificuldades enfrentadas na elaboração da
corografia, buscando alcançar a legitimação real de seu empreendimento:
Persuado-me que uma tal obra merecerá o acolhimento que V. R. Majestade
costuma prestar a tudo que pode ser útil a seus vassalos, a cujo proveito
sacrifiquei os melhores anos da minha vida, empreendendo esta obra original,
e tão superior às minhas forças, e cabedais, que por vezes, descorçoado à
vista de um tropel de dificuldades, determinei abrir mão da empresa: Assim
aconteceria se não me dominasse uma simpatia por esta ciência encantadora e
conjuntamente me alentassem amigos inteligentes e patriotas receosos de que
os meus trabalhos e fadigas descessem comigo à sepultura (CASAL, 1945, p. X).
Dessa forma, o autor de Corographia Brasílica atribuía o êxito de seu trabalho à simpatia
que nutria pela corografia, “esta ciência encantadora”, nas suas palavras. Além disso, ao evocar
o alento que recebera amigos preocupados com a publicidade de sua obra, Aires de Casal nos
fornece subsídios para afirmar que, durante o reinado joanino, as corografias eram realmente
empreendimentos coletivos de forte cunho político.
O conteúdo da Corografia Brasílica divide-se em dois tomos: no primeiro, além
do texto de introdução, são listadas as províncias do centro-sul, com suas respectivas
vilas e cidades. O segundo tomo apresenta dados relativos à província do Rio de Janeiro
e às demais províncias setentrionais. No conjunto da obra, cada capítulo é uma unidade
textual que independe das demais. Porém, se lidos sequencialmente, eles prefiguram
uma totalidade, fornecendo uma noção de Reino do Brasil, mesmo que esta ainda não
fosse clara aos agentes da formação nacional nas primeiras décadas do século XIX.
Quanto ao direcionamento lógico da Corografia Brasílica, estimamos que ele
tenha se orientado no sentido da afirmação da unidade nacional: para Aires de Casal, as
diversidades regionais existiam em função da totalidade, e não o inverso.
A guisa de introdução, o autor faz referência a uma tópica discursiva recorrente
nas corografias do período, qual seja a contextualização da empresa colonizadora
portuguesa no processo mais amplo de descobrimento e exploração do continente
americano. Intercalada ao texto introdutório, a transcrição daquela que era considerada
a certidão de nascimento da nação brasileira, a carta de Pero Vaz de Caminha, datada
de 1500.
O imperativo econômico fica patente na passagem em que o autor localiza o
território luso-brasileiro no contexto das relações comerciais. Para ele, a América,
segunda das quatro partes da terra em grandeza, e que por si só forma um hemisfério,
ou a metade do globo terrestre(CASAL, 1945, p. 17) era composta de duas partes, norte
e sul, sendo que
na Meridional está o Brasil, a mais oriental das seis províncias, em que os
geógrafos a dividem; e fica entre o Equador e o paralelo de 55 graus de latitude
austral, na mais vantajosa situação para o comercio, não só com o restante da
América, mais ainda com as três partes do Antigo Mundo (p. 17).
No processo de instituição dos marcos de orientação, os cursos de água foram
considerados balizas ideais, na medida em que desenhavam uma linha contínua e bem
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
238
visível na superfície do território nacional. Eram também divisões mais perenes que os
marcos de pedra ou de madeira, pois estes podiam ser quebrados ou mudados de lugar de
acordo com os interesses de uma ou outra parte conflitante. Nesta citação, percebemos
como o autor atribui aos rios a qualidade imanente de dividir circunscrições territoriais:
Esta vasta região [Brasil] tem ao norte o Oceano Atlântico, e o Rio das
Amazonas ou Maranhão, que a separa da Província de Terra-Firme; ao meio-
dia o golfo, que recolhe o Rio da Prata; ao oriente o mencionado Oceano; ao
poente o Rio Paraguai, que corre do norte para o sul, e o Madeira, que corre
em contrario; vindo a ser uma península, cujo istmo, que tem mui poucos
côvados de largura, fica entre as origens dos rios Aguapeí e Alegre, que são
ramos secundários daqueloutros (p. 20).
A natureza brasileira limitava-se por um circuito hidrográfico formado pelos
rios Amazonas, da Prata, Paraguai, Madeira e pelo Oceano Atlântico, perfazendo uma
contiguidade territorial. Ao relacionar os componentes corográficos do Reino do Brasil,
Aires de Casal demonstra, assim, uma visão de síntese em vias de formação.
Quanto ao conteúdo específico sobre as províncias do Brasil, este encontra-se
dividido entre os dois tomos. No primeiro, além do texto de introdução, são listadas
as províncias do centro sul, com suas respectivas vilas e cidades. Notemos que as
descrições dessas unidades administrativas normalmente vinham acompanhadas de
comentários sobre a potencialidade econômica delas, arrolando-se produtos minerais,
agrícolas e pecuários.
O segundo tomo, por sua vez, inicia-se com dados relativos à província do Rio de
Janeiro, seguida das províncias setentrionais. O que concluímos desta organização é que
ela reproduz e legitima um modelo de hierarquização do espaço imperial luso-brasileiro,
no qual as províncias mais próximas à Corte prevaleciam na ordem de importância
sobre as demais.
Com esses dados, estimamos que Aires de Casal tenha contribuído
substantivamente para o estado da política econômica de sua época, uma vez que sua
obra buscasse o aproveitamento dos recursos naturais de que dispunha o Reino do
Brasil. Ademais, o crescente interesse da corte joanina pelos assuntos da terra brasílica
e o desejo de regenerar o império luso-brasileiro foram condições que possibilitaram o
aparecimento desse tipo de inventário corográfico.
O regionalismo que ganhou contornos mais acentuados no Brasil após a
Independência política não se desenvolveu antagonicamente ao sentimento de identidade
nacional, mas, sim, sob o signo de um pacto político de privilégios e concessões
firmado entre as províncias e o governo central. Nesse contexto, notamos a presença
da visão corográfica no projeto político imperial, utilizada como recurso para forjar a
nacionalidade brasileira em congruência com as identidades políticas provinciais.
Durante o Primeiro Reinado, muitas corografias foram elaboradas sob a forma de
compêndios didáticos para serem utilizadas em instituições de ensino no Império. Seus
conteúdos organizaram-se de acordo com as diretrizes da pedagogia da nacionalidade,
objetivando lapidar o sentimento patriótico dos alunos
9
. Como exemplo deste tipo de
9. Sobre a pedagogia da nacionalidade em compêndios escolares, ver: THIESSE, 1995; ANDERSON, 2008;
MELO, 2008.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
239
material didático destacamos o título Corographia ou abreviada História Geographica
do Império do Brasil, de Domingos José Antonio Rebello.
Esta obra, escrita por um negociante local e publicada na província da Bahia em
1829, foi oferecida especialmente aos alunos do Colégio dos Órfãos de São Joaquim, da
cidade de Salvador. Logo nas advertências de leitura, impressas sob o título da obra,
podemos identificar a lógica de percepção espacial do autor, que vai da totalidade do
continente americano à especificidade municipal. A obra serviria, portanto:
Para uso dos seus Alunos, a fim de que adquirem conhecimentos Geográficos
preliminares d’America em geral, e seu descobrimento; e com particular
individuação do Brasil; especialmente da Província, e Cidade de S. Salvador
Bahia de Todos os Santos (REBELLO, 1829, folha de rosto).
Percebemos aqui o valor utilitário do conhecimento corográfico, empregado na lapidação
do patriotismo e na introdução do estudante no mundo da leitura. Na concepção do autor,
o estudo pormenorizado da província era ponto de partida para a ampliação dos horizontes
estudantis, devendo ser empreendido antes de se conhecer a história de países estrangeiros.
Ademais, as informações contidas numa obra como a de Domingos Rebello não deveriam ser
extensas ou demasiado complexas, mas sim de fácil apreensão, abreviadas na medida certa para
principiantes da perspectiva corográfica.
Para Rebello, era indesculpável que se ignorasse a grandeza do território nacional. A
qualidade e a diversidade dos produtos naturais eram sinais evidentes da prosperidade nacional,
as quais faziam do Brasil, nas suas palavras, um mimo da Natureza:
Não é pois o intenso amor da Pátria quem agora fala; é a Natureza prodigiosa,
e que espanta ver a sua constante produção neste País delicioso, e ameno nos
três Reinos Mineral, Animal, e Vegetal; onde quase sempre existe (pode-se
assim dizer) uma continuada Primavera, e Outono, porque em todo o ano há
frutas, flores, todos os legumes, e hortaliças (p. 33).
Assim, ao reconhecer o Brasil como um país, mais especificamente o “país natal”
tanto do autor quanto dos leitores, a Corographia ou abreviada História Geographica
direcionava a perspectiva dos alunos de maneira a fazê-los perceber os particularismos
de que se compunha a totalidade. Tal maneira de ver o mundo é certamente um dos
elementos mais importantes na construção de qualquer identidade nacional, pois molda,
desde tenra idade, a percepção espacial do sujeito, fazendo-o remeter-se sempre aos
referenciais regionais e locais.
Na década de 1830, o arranjo institucional do Império viria sofrer modificações,
dada a conjuntura de crise do Primeiro Reinado. No período das Regências, a despeito das
instabilidades políticas e constantes ameaças de desintegração territorial, percebemos
um progressivo amadurecimento do Estado nacional brasileiro, quando os interesses
e motivações específicos das elites provinciais passaram a ser melhor articulados ao
governo central.
Resultado de negociações parlamentares que se iniciaram em 1831, a ementa
constitucional de 1834 – conhecida igualmente por Ato Adicional – promoveu um
novo delineamento do perfil do Estado brasileiro com base na descentralização. Uma
das principais medidas, considerada a essência descentralizadora da reforma, foi a
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
240
transformação dos Conselhos Gerais em Assembléias Legislativas Provinciais. Com
isto, as províncias, que antes eram apenas unidades territoriais, passaram a dispor de
um legislativo próprio.
As corografias desse contexto espelham o espírito otimista de muitos políticos e
intelectuais brasileiros em relação à ampliação das franquias provinciais. Exemplo disso
pode ser encontrado no Diccionario Topographico do Imperio do Brasil, obra de José
Saturnino da Costa Pereira
10
, engenheiro e militar rio grandense, publicada no Rio de
Janeiro em 1834.
Antes de analisarmos o conteúdo da obra, chamamos atenção para a variante
do gênero corográfico praticada por Costa Pereira. Diferentemente de outras obras
analisadas, cujas informações corográficas organizavam-se por diferentes critérios
metodológicos e/ou políticos, esta constitui-se num dicionário topográfico, com
estrutura de organização de conteúdos própria deste tipo de publicação. No prefácio
do Dicionário Topographico, o autor fornece dados gerais sobre o Império do Brasil,
cuidando de observar que a melhor maneira de se perceber a totalidade imperial seria a
partir de suas particularidades provinciais:
Na vasta superfície do Brasil, abrangendo 5º de latitude ao N. do equador, e mais
de 34º ao Sul; e com quase 18º de longitude nas visinhanças da Equinocial, já se
vê, que o país deve apresentar aspectos mui variados, terrenos de naturezas
diversas, elevações, e vales diferentemente extensos e configurados; diferentes
climas, produções, etc., que não podem ser encarados debaixo de um só ponto
de vista, para descreverem em geral, de maneira que se forme ideia do todo.
Remetemos por isso os nossos leitores aos Artigos, em que cada uma das
Províncias individualmente se descreve, e onde se faz menção, de cada um
dos objetos digno de observar-se na respectiva localidade, e onde podem ser
considerados singularmente, sem relação ao todo (PEREIRA, 1834, p. 1).
Nessa passagem, Costa Pereira atesta a impossibilidade de uma síntese unilateral
do Brasil, visto que esse país existia sob o signo da diversidade. A melhor maneira
de se vislumbrar o território do país seria, portanto, remetendo-se às especificidades
regionais, as quais deveriam ser descritas em artigos independentes entre si. Isso nos
revela uma lógica textual em que as diversidades perfaziam a unidade, perspectiva essa
semelhante à de Aires de Casal, porém inserida em uma conjuntura política distinta da
desse autor.
Mesmo tratando as províncias de maneira pormenorizada, Costa Pereira evita
mencionar um importante objeto da descrição corográfica: os números de população.
Isso porque “algumas notas, que podemos obter acerca da população, são baseadas em
principios tão falíveis, que nenhuma confiança nos merecerão, para as transmitir aos
nossos leitores” (p. XIIJ). O próprio autor admitia que essa omissão tornava sua obra
“imperfeita” e passível de críticas. A lacuna sobre a população, contudo, não foi
exclusividade da obra em questão, tendo sido notado o mesmo problema em Aires
de Casal.
10. Por incumbência do governo brasileiro, esse militar escreveu diversos outros compêndios didáticos
para uso da Escola Militar, tais como: Compendio de Geografia elementar (1836); Elementos de cronolo-
gia (1840); Lições elementares de óptica (1841); Elementos de astronomia e geodesia (1845); Apontamen-
tos para a formação de um roteiro das costas do Brasil (1848). In: BLAKE, 1893, v.2, p. 185 – 187.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
241
Sobre a criação das províncias, Costa Pereira comenta que “estas divisões tiveram
por base o cômodo publico na administração da justiça, e o sistema de indagação dos
fenômenos da natureza não pode sempre quadrar com uma divisão de território feita
com diverso fim” (p. V). Assim, o autor reconhecia o caráter artificial do sistema de
divisão do Império, atestando a não correspondência entre limites políticos e fenômenos
da natureza.
Para Costa Pereira, a descrição parcial consistia num eficiente recurso para se
delinear a superfície do Império. Contudo, ele não era adequado à representação do
litoral brasileiro. Sua justificativa é a seguinte:
As descrições parciais do litoral não podem, ao contrário, oferecer ideia clara
do seu complexo: a direção das Costas, os Recifes, e Baixos que as bordão;
o sentido, e velocidade das correntes; os ventos gerais, as monções, as
estações, etc., são circunstâncias, que se não podem considerar, conservando
o sistema de divisão, em que as Províncias estão repartidas, e que nada tem de
particular a estes respeitos (p. VIIJ).
Sob essa perspectiva, o Estado nacional brasileiro fundamentava-se na
diversidade de aspectos topográficos, climáticos, hidrográficos e econômicos que
caracterizavam cada uma das províncias que compunham o Império do Brasil. Unidade
e diversidade regional eram, assim, faces de um mesmo projeto nacional defendido por
alguns políticos durante o período das Regências, o qual legitimava certas autonomias
provinciais.
Ademais, podemos argumentar que, ao enunciar a existência de diferenças físicas
entre as regiões, a perspectiva corográfica neutralizava outras formas de diferenciação,
deslocando-as da sociedade para o plano geográfico. Sendo assim, a diversidade da
natureza seria uma espécie de justificativa para as inúmeras clivagens e desigualdades
sociais.
Considerações finais
Neste artigo, analisamos a construção do paradigma corográfico a partir das obras
de três autores representativos desse gênero no Brasil: Manoel Aires de Casal; Domingos
José Antonio Rebello e José Saturnino da Costa Pereira. É interessante observar que,
embora remetam a conjunturas políticas distintas, as obras analisadas constituem uma
relação de identidade textual e histórica entre si, que é pautada pela ideia de inventário
das riquezas do território. Ademais, acreditamos que elas estejam circunscritas a uma
tradição corográfica portuguesa, de acentuado caráter administrativo e militar, da qual
fazem parte diversos inquéritos produzidos ao longo do período colonial.
Em estudo crítico para uma edição de Corographia Brasílica, Caio Prado
Jr. analisa a formação cultural de Aires de Casal, seu método de pesquisa e fontes
por ele consultadas, avaliando as contribuições desse corógrafo para o estatuto do
conhecimento geográfico no século XIX. Segundo ele, a obra em questão aparece num
momento de inflexão do pensamento geográfico, quando os paradigmas da geografia
clássica conviviam com uma nova ordem de concepções, fundamentada na metodologia
das ciências naturais. Nesse sentido, Prado Jr. atribui a Aires de Casal “a atitude do
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
242
analista, intérprete e glosador de textos escritos, em contraste com a do observador
crítico do mundo exterior, daquele que olha diretamente os fatos, neles inspira sua
reflexão e deles procura concluir” (PRADO JÚNIOR, In: CASAL, 1945, p IX).
Sob essa ótica, podemos concluir que enquanto viajantes como Saint-Hilaire, Spix
e Martius buscavam na natureza a corroboração empírica para suas teorias, autores como
Aires de Casal e os demais analisados nesse artigo vasculhavam arquivos e bibliotecas
à procura de documentos, conferindo maior credibilidade a textos consagrados do que
a informações retiradas diretamente da natureza. Isso, contudo, não os desqualifica
como detentores de um método crítico de análise, pois, se os objetos de representação
corográfica – rios, montanhas, planícies, serrados, etc. – eram, em rigor, os mesmos
para viajantes e corógrafos de gabinete, os olhares que sobre eles incidiam eram muito
diferentes.
Compreendidas sob essa perspectiva, as corografias oitocentistas se afiguram
como lugares de resistência a projetos políticos e intelectuais hegemônicos. A coexistência
de paradigmas de percepção espacial não foi, portanto, harmoniosa, evidenciando-se
em uma série de disputas pelo monopólio da definição legítima de território nacional.
Essa hipótese é válida para refletirmos sobre os processos de formação da identidade
política nacional e produção do território brasileiro, além de nos instar a perceber o
paradigma corográfico sob a perspectiva do embate e da descontinuidade.
Vimos, portanto que, no processo de fundação da nacionalidade brasileira
ocorrido na primeira metade do século XIX, a visão corográfica desenvolveu-se
em concomitância com a ordem política do Estado, ora reiterando o modelo de
hierarquização espacial vigente, ora fornecendo subsídios para críticas ao sistema
de divisão territorial. Nesse contexto, a exaltação corográfica das qualidades de uma
região ganhou dimensão especial, prefigurando o gosto romântico pelo que havia de
único em cada localidade. Esse recurso, ademais, se mostrava poderoso recurso de
argumentação política utilizado pelas elites locais para fundamentar projetos políticos
e interesses econômicos específicos.
Fontes Documentais e obras de referência
BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro.
Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1883. 2 vols.
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico...
Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1713.
CASAL, Manuel Aires de. Corografia Brasílica ou Relação Historico-Geografica do
Reino do Brazil. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1945.
PEREIRA, José Saturnino da Costa. Diccionario Topographico do Imperio do Brasil. Rio
de Janeiro: Typ. Commercial de P. Gueffier, 1834.
REBELLO, Domingos José Antonio. Corographia ou abreviada História Geographica do
Imperio do Brasil. Salvador: Typ. Imperial e Nacional, 1829.
Inventários de um mosaico: Representação espacial e olhar corográfico no Brasil, século XIX.
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
243
Referências
ADAM, Jean – Michel. Genres, textes, discours: pour une reconception linguistique du
concept de genre. Revue belge de philologie et d’histoire, t. 75, n. 3, p. 665 – 681, 1997.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras,
2008.
BAKER, Alan R. H.; BIGGER, Gideon. Ideology and Landscape in Historical Perspective.
New York: Cambridge University Press, 2006.
BEZZI, Meri Lourdes. Região: uma (Re) visão historiográfica – da gênese aos novos
paradigmas. Santa Maria: Ed. UFSM, 2004.
BOURDIEU, Pierre. L’identité et la représentation. In: Actes de la recherche en sciences
sociales, v. 35, p. 63 – 72, nov. 1980.
BRAUDEL, Fernand. The Mediterranean and the Mediterranean World in the Age of
Philip II. Berkeley: University of California Press, 1996.
CLAVAL, Paul. Orientar-se e reconhecer-se. Marcar, recortar, institucionalizar e
apropriar-se do espaço. In: A Geografia Cultural. Florianópolis: Ed. UFSC, 1999. p. 189
– 218.
CLAVAL, Paul. As abordagens da Geografia cultural. In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES,
Paulo César da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato (orgs.). Explorações geográficas. 2 ed.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. p. 89 – 117.
COSGROVE, Denis. Prospect, perspective and the revolution of landscape idea. In:
Transactions of the Institute of British Geographers, v. 10, n. 1, p. 45 – 62, 1985.
FOUCAULT, Michel. Des espaces autres. In: Empan, n.54, p. 12 – 19, 2004.
FRÉMONT, Armand. A região, espaço vivido. Coimbra: Almedina, 1980.
GOUBERT, Pierre. Local History. In: Historical Studies Today. New York: W. Norton &
Co., 1972.
JANCSÓ, István; PIMENTA, João Paulo Garrido. Peças de um mosaico (ou apontamentos
para o estudo de emergência da identidade nacional brasileira) In: MOTA, Carlos
Guilherme (org.). Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000). São Paulo:
Ed. SENAC, 2000, p.129 – 175.
MARCUSCHI, Luiz Antonio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO,
Ângela Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros
textuais e ensino. 4 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. p. 19 – 36.
MELO, Ciro Flávio Bandeira de. Senhores da história e do esquecimento: a construção
do Brasil em dois manuais didáticos de História na segunda metade do século XIX. Belo
Horizonte: Argumentum, 2008.
PRADO JÚNIOR, Caio. A Evolução da Geografia e a posição de Aires de Casal. Boletim
Paulista de Geografia, São Paulo, n. 19, p. 71 – 97, 1955.
REVEL, Jacques. A Invenção da sociedade. Lisboa: Difel, 1989.
CASTRO, Pérola Maria Goldfeder Borges de
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.3, nº2, p. 230-244, jul.-dez., 2016.
244
RONCAYOLO, Marcel. Região. In: ENCICLOPÉDIA Einaudi. Porto: Imprensa Nacional,
1986, p.161 – 189.
SOJA, Edward. Geografias pós-modernas. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1993.
THIESSE, Anne-Marie. Ensinar a pátria pela região. In: Educação - Revista do Centro de
Educação UFSM, Santa Maria, v. 34, n. 1, p. 13 – 27, jan/abr 2009.
TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente.
São Paulo: Difel, 1980.