FACES DA HISTÓRIA
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Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo
argentino do grupo Clarín
In search of a more comprehensive history of journalism and the example of
the argentine Clarín group
SILVEIRA, Mauro César
*
Resumo: Os valiosos aportes representados pelos recentes estudos de história do
jornalismo sul-americano permitem que se possa obter, por meio de um trabalho de
investigação científica que agregue e aprofunde as pesquisas já realizadas, uma visão mais
abrangente sobre a trajetória histórica da imprensa no chamado Cone Sul Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai -, tentando superar o caráter fragmentado e pontual que
caracteriza muitas abordagens produzidas. Na análise das origens do jornalismo nessa
região, evidenciam-se algumas semelhanças que persistem mesmo no início da segunda
década do novo milênio. As relações vitais entre imprensa e poder, sobretudo a partir dos
movimentos emancipacionistas, perduram, em maior ou menor grau, entre as nações sul-
americanas. Um exemplo disso é o grupo argentino Clarín.
Palavras-chave: Jornalismo no Cone Sul. Jornalismo latino-americano. História latino-
americana. Grupo Clarín. História do jornalismo. Jornalismo e História.
Abstract: The valuable contributions represented by recent studies of the history of the
South American journalism allow obtain through a scientific research that aggregates and
deepen the studies already conducted, a more comprehensive view on the historical
trajectory of the press on the called the Southern Cone - Brazil, Argentina, Paraguay and
Uruguay - trying to overcome the fragmented character and specific that characterizes many
approaches produced. The analysis of the origins of journalism in this region revealed some
similarities that persist, even in the beginning of the second decade of the new millennium.
The vital relations between press and power, especially since the emancipation movements,
persist, to a greater or lesser extent, between the South American nations. An example is the
Argentine Clarín group.
Keywords: Journalism in the Southern Cone. Latin American Journalism. Latin American
History. Clarín group. History of Journalism. Journalism and History.
*
Professor Doutor Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-graduação em Jornalismo da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Centro de Comunicação e Expressão Campus Universitário
– Trindade –– CEP 88040-970 – Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. A pesquisa que resultou neste artigo conta
com financiamento da CAPES (Processo nº BEX 3993/13-2). E-mail: maurocesarsilveira@gmail.com
Recebido em: 06 de fevereiro de 2014.
Aprovado em: 19 de maio de 2014.
Mauro César Silveira
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
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As bases do jornalismo sul-americano apresentam características distintas: enquanto
nos países de língua espanhola, a imprensa remonta ao período colonial, no Brasil, o
desenvolvimento sucedeu a vinda da família imperial portuguesa, em 1808, determinando
um caminho de início tardio e marcado por muitas peculiaridades, como o fato de ter
prosperado no cenário de uma monarquia cercada por regimes republicanos no resto do
continente. Esse contraste não afasta, porém, algumas semelhanças que persistem mesmo
no início da segunda década do novo milênio. As relações vitais entre imprensa e poder,
especialmente a partir dos movimentos emancipacionistas, perduram, em maior ou menor
grau, entre as nações sul-americanas. O limiar da atividade mais jornalística na região
floresceu, para o bem e para o mal, no quadro de lutas pela independência, vinculando-a, de
forma aguda, à política, como aponta, com propriedade, José Antonio Benítez (2000, p.
108):
El periodismo, además de haber sido un importante factor de esas luchas,
también fue un instrumento que contribuyó en forma sobresaliente y
prestigiosa con la cultura y constituun valioso capítulo en las memorias
de esa cultura. El desarrollo del periodismo en América del Sur, por muchas
razones, es prácticamente un nexo con la historia política de la región. El
periodismo y su evolución forman un lazo en muchos sentidos con el
progreso de América del Sur y de toda la América hispana, incluyendo las
islas del mar Caribe.
Esse vínculo com o desenvolvimento representa, também, um reflexo direto do
quadro econômico mundial, no avanço da sociedade capitalista, como assinala Nelson
Werneck Sodré (2007). Nesse sentido, o cenário econômico mas também político - da
época teve um papel decisivo na configuração da imprensa, não apenas no velho
continente. Favorecidos pela conjugação de uma série de fatores históricos, os jornais
revelaram-se, ao longo do século XIX, um poderoso instrumento de mobilização da opinião
pública, que era vista como uma expressão social que todo o governante deveria
considerar antes e depois de qualquer decisão relevante. Se na centúria anterior, impelido
pelas ideias iluministas, o jornalismo começava a se afirmar como espaço para a
manifestação do pensamento
1
, a partir dos oitocentos obteve as condições técnicas que
permitiu sua acelerada expansão.
Em 1803, surgiria a primeira máquina contínua para a fabricação do papel a partir da
pasta de madeira. Onze anos depois, a impressora mecânica, concebida pelo alemão
Koenig, seria utilizada pelo jornal britânico Times. Os processos de reprodução gráfica
também melhoraram com o avanço da litografia, descoberta em 1797 pelo bávaro Aloïs
Senefelder. E, em 1839, a criação do daguerreótipo permitiu a impressão da imagem em
metal, abrindo o caminho para a fotogravura. Além da evolução nos meios de impressão, o
1
O primeiro diário francês, Le Journal de Paris, que começou a circular em 1777, é um exemplo clássico da
imprensa periódica no século XVIII: jornalismo oficioso ou mesmo oficial, controlado por uma rígida censura do
Estado. As publicações que resultam de movimentos a favor da liberdade de expressão, antes que esse
conceito adquirisse força a partir de 1776, nos Estados Unidos, e de 1789, na França, entre outros países, ainda
não tem periodicidade definida. Veiculam opiniões vigorosas, com maior ou menor intensidade, mas são, em sua
ampla maioria, folhetos opinativos ou panfletos políticos.
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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jornalismo passou a contar com um revolucionário sistema de transmissão de dados: o
telégrafo elétrico
2
. Em consequência disso, nasceram as grandes agências noticiosas - a
Havas, na França, a Reuters, na Inglaterra, a Wolff, na Alemanha, e a Associated Press, nos
Estados Unidos, lançadas entre 1830 e 1870 -, que passaram a difundir informações, de
forma centralizada, para pontos remotos do planeta.
A conjuntura favorável conduziu o jornalismo à fase industrial, projetando-se, nos
países ocidentais, como força hegemônica na divulgação de informes sobre fatos e de
ideias e opiniões. A partir de 1850, esse processo intensificou-se e, depois do “surto”, a
imprensa caminhou para seu “apogeu”, como define o historiador francês Fernand Terrou
(1964). Foi uma conquista assentada na doutrina liberal, que consagrava a liberdade de
publicação, ainda que sua concepção tenha enfrentado períodos difíceis antes de vencer as
mais fortes resistências, como aconteceu na França
3
.
Todas as constituições liberais do século XIX dão lugar à liberdade de
imprensa concebida conforme os princípios inscritos nas declarações do fim
do século XVIII e muitas vezes expressos em termos que vamos encontrar
a escola fiel às fórmulas do artigo 11 da Declaração dos Direitos de 1789
4
.
Na Inglaterra, a abolição dos últimos obstáculos restritivos à atividade - os impostos
especiais de publicidade, que terminaram em 1853; o do selo, em 1855, e o do papel, em
1863 representou o crescimento da imprensa e do aumento do seu poder, que se
estendeu ao continente europeu. “O país é governado pelo Times”, podia-se escrever em
1855, segundo Terrou, face à influência exercida pelo jornal, que experimentou saltos
crescentes na sua tiragem
5
.
2
No século anterior, em 1739, o telégrafo ótico de Chappe ficou restrito aos comunicados oficiais e somente
indiretamente a imprensa se beneficiou dele. A difusão rápida de notícias iniciou com o telégrafo elétrico, criado
por Morse, nos Estados Unidos, em 1837, por Gauss, na Alemanha, em 1838, Weatstone, na Inglaterra, em
1839, e Foy e Breguet, na França, em 1845. Fernand Terrou (1964, p. 30-31) cita Stefan Zweig para enfatizar a
importância do invento: “Este ano de 1837 em que, pela primeira vez, o telégrafo transmite simultaneamente
através do mundo a notícia dos menores acontecimentos, raramente é mencionada nos manuais de história. No
entanto, do ponto de vista dos efeitos psicológicos provocados pela subversão da noção do tempo, nenhuma
data da história contemporânea lhe pode ser comparada”.
3
Fernand Terrou (1964, p. 39-40) relembra que, na França, a luta foi árdua e longa, marcada por uma série
extraordinária de revoluções e de mudanças constitucionais. Mas o controle da imprensa foi sendo gradualmente
reduzido: “Durante o chamado período liberal do Império, o torniquete foi se afrouxando pouco a pouco até a
supressão do sistema de advertências, pela lei de 11 de maio de 1868. A liberdade de imprensa provocou
amplos debates no parlamento.”
4
O artigo 11 da Declaração de 1789 afirma o princípio da liberdade de expressão e de imprensa: “A liberdade de
comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; portanto, todo
homem pode falar, escrever, imprimir livremente, devendo responder pelo abuso a essa liberdade nos casos
determinados pela lei”.
5
Em 1829, na Inglaterra, todos os 17 diários juntos alcançavam uma tiragem de 44.000 exemplares, dos quais
10.000 eram do Times. Em 1856, o maior jornal inglês já imprimia 60.000 exemplares. A redução do preço para 1
penny, adotada pelo Daily Telegraph, em 1861, marca o início da imprensa popular no país. A tiragem desse
jornal, que era de 30.000 em 1858, pula para 142.000 em 1861 e atinge 300.000 exemplares em 1880. Na
França, a revolução de 1848, libertou temporariamente o jornalismo e ensejou a criação de numerosas
publicações, a maior parte exibindo artigos políticos produzidos por grandes escritores da época. Já no Segundo
Império, as agressões aos direitos individuais foram acompanhadas pelo desenvolvimento econômico. Isso
Mauro César Silveira
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
9
Bem diferentes seriam as características do incipiente jornalismo sul-americano, seja
por razões de ordem técnica a agilidade do Times se devia à conquista do telégrafo
elétrico
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, que tardaria a chegar à região
7
e, principalmente, políticas, determinadas pelo
enlace da imprensa com o poder como enfatiza Benítez (2000). Embora não pudessem
usufruir, durante boa parte do século XIX, das maiores vantagens do revolucionário invento
que encurtara as distâncias, as publicações latino-americanas expandiram-se, com vigor,
em quase todos os países e trilhavam o irreversível rumo industrial ditado pelos jornais do
velho continente. Mas apresentavam uma grande distinção dos maiores jornais da França e,
sobretudo, da Inglaterra, pois eles estavam vinculados diretamente ao governo
8
. No Brasil,
sintomaticamente, o primeiro jornal editado no país, a Gazeta do Rio de Janeiro, nasceu
graças à instalação da Imprensa Régia, em 1808, depois da chegada de D. João VI
9
. Na
Argentina, despontaria La Nación Argentina, fundado, em janeiro de 1870, pelo general
Bartolomé Mitre, presidente da então Confederação Argentina. Ainda hoje, o influente La
Nación destaca, na sua página de opinião, logo acima do editorial, sua origem e reproduz o
anúncio da proposta editorial de seu primeiro número (“La Nación será una tribuna de
doctrina”). No mesmo espaço, informa que seu diretor é o tataraneto do político que lançou
a publicação no século XIX e que tem o mesmo nome do fundador (FIG.1).
permitiu a criação do Le Figaro, em 1854, direcionado à classe mais abastada e que fez sucesso graças à
publicidade e a circulação intensa, inclusive à domicílio, e do Le Petit Journal, em 1863, visando um público mais
amplo. Este jornal, lançado pelo preço de 1 sou, passou, em dois anos, de 83.000 para 260.000 exemplares. Nos
Estados Unidos, o período compreendido entre 1840 e 1890 registra o surgimento da maioria dos grandes
jornais. O New York Times, por exemplo, foi fundado em 1851.
6
Nos Estados Unidos, o avanço do telégrafo também se deve à imprensa, que ajudou a financiar a primeira
linha, em 1844, entre Washington e Baltimore, e pressionou o Congresso para que aprovasse verbas para a
rápida expansão do sistema. Com a criação da Associated Press, em 1848, os jornais tornaram-se os principais
usuários do serviço. Em consequência, o primeiro cabo submarino ligando a Europa aos Estados Unidos não
demorou muito e data de 1866.
7
No Brasil, o telégrafo elétrico ainda era uma novidade. A primeira linha, inaugurada em 1862, ligava o palácio
residencial do Imperador D. Pedro II ao quartel da polícia. Na América Latina, também. Somente em 29 de
novembro de 1866, seria inaugurado o telégrafo subfluvial entre os portos de Buenos Aires e Montevidéu. O
Brasil inaugurou seu primeiro cabo submarino transatlântico em 1874, ligando a América do Sul à Europa.
Idealizado por Mauá, o cabo foi construído pela companhia inglesa British Eastern Telegraph Company e
funcionou até 1973.
8
Evidentemente que na Europa, em maior ou menor grau, o poder político também se interessava e muito
pelo jornalismo. Bismarck, por exemplo, inspirou a fundação, em 1847, do Neue Preussische Zeitung e era um
de seus colaboradores.
9
Nessa época, a voz destoante é a de Hipólito da Costa, oposicionista e crítico, que publica o Correio
Braziliense, em Londres. Por muito tempo, o Dia da Imprensa foi comemorado em 10 de setembro, quando foi
lançada a Gazeta do Rio de Janeiro. Em 1999, a data foi alterada para 10 de junho, o dia de 1808 em que
começou a circular o Correio Braziliense, portanto mais de três meses antes da publicação oficial da Coroa
portuguesa. Mas a mudança foi efetivada depois de ampla mobilização dos jornalistas brasileiros, liderados
pelo gaúcho Raul Quevedo, culminando com a aprovação de uma lei no Congresso Nacional.
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
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Figura 1
Enquanto Bartolomé Mitre publicava no La Nación artigos e comentários de seu
interesse, o que antecipava parte da volumosa obra com sua versão da história argentina,
no Brasil, o surgimento tardio do jornalismo acentuou o enlace entre poder político e
econômico, ressalvadas as exceções dissonantes que apenas confirmam a regra geral. Os
acirrados duelos impressos no período da nossa independência rompiam a monocórdia fase
inaugural da Gazeta do Rio de Janeiro, constituindo-se numa espécie de antevisão das
escaramuças e conspirações que envolveram o jornalismo ao longo da sua história, como
assinala Isabel Lustosa (2000, p. 26-27):
Erguiam-se e confundiam-se as vozes dos intelectuais, dos políticos
envolvidos diretamente com o modelo político que se estava superando, dos
liberais exaltados, maçons ou não, com as dos aventureiros de ocasião, dos
arrivistas e dos que apenas se aproveitavam daquelas agitadas
circunstâncias para se lançar na recém-criada profissão de jornalista. Para
quem escrevem esses jornalistas? Uns para os outros e para D. Pedro.
Debatem entre si, em torno das questões constitucionais, mas seu público-
alvo é, na verdade, o príncipe, a quem querem conquistar para o projeto
político que defendem. É o que sugerem os textos e os debates travados
nas sessões (sic) de cartas.
O nascimento da imprensa, não oficial, em solo brasileiro, portanto, ocorreu no
âmbito da luta pelo poder. Se havia o compromisso com o processo revolucionário, no
momento em que, de um dia para outro, deixávamos de nos considerar portugueses para
nos assumirmos como brasileiros" (LUSTOSA, 2000, p. 25-26), estabelecidas as condições
políticas para a emancipação de Portugal, as publicações serviam apenas de trincheiras
para os principais atores políticos daquele momento histórico. De existência fugaz, com
tiragens pequenas e de abrangência limitada praticamente ao Rio de Janeiro, em universo
Mauro César Silveira
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circunscrito aos seus assinantes, esses jornais atendiam aos interesses, entre outros, de
dois personagens conhecidos por suas posições conservadoras, o antigo censor, José da
Silva Lisboa o futuro Visconde de Cairu - e José Bonifácio de Andrada e Silva.
Ironicamente, eram as mesmas pessoas que protagonizaram atos contra a liberdade de
expressão que se beneficiaram do incipiente jornalismo brasileiro, após o fim da censura
prévia.
O rígido controle dos impressos coube à junta de administração da impressão régia,
sob a liderança de Lisboa. O decreto real de 24 de junho de 1808 determinava que os
quatro membros dessa comissão deveriam “examinar os papéis e livros que se mandassem
publicar e fiscalizar e que nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons
costumes”. (apud RIZZINI, 1977, p.174). Mesmo depois que a medida caiu, em 1821, com a
entrada em vigor dos decretos das Cortes em Portugal e a consagração da liberdade de
imprensa em todos os domínios lusitanos, Lisboa sustentava que os censores oficiais
deveriam ser valorizados como os “cônsules romanos, guardas da honra da Nação e da
tranquilidade pública” (apud LUSTOSA, 2010, p.376). E José Bonifácio de Andrada seria o
responsável, entre outros atos repressivos, pela primeira ação contra o nascente jornalismo,
perseguindo, levando à prisão e à posterior expulsão do país, em abril de 1822, o principal
redator do Compilador Constitucional Político e Literário Brasiliense, João Batista de
Queirós.
Durante três anos, entre 1821 e 1823, a imprensa foi palco de “violenta disputa entre
portadores de projetos antagônicos para a nova ordem política e institucional que se
instalaria no país” (LUSTOSA, 2010, p.370). Havia muitas propostas em discussão, mas o
confronto mais intenso e que ocupou boa parte das páginas dos jornais envolveu o grupo
liderado por Bonifácio, o “Patriarca da Independência”, e o grupo maçônico comandado por
Joaquim Gonçalves Ledo. Antes que outras publicações brasileiras pudessem abrir espaços
para temas de interesse da maioria da população, seus primeiros jornais serviram de
embate para diferentes projetos em torno do novo país. E, no caso específico de Bonifácio,
atuaram como canais de divulgação de suas ideias e de sua boa imagem - como foram O
Tamoio, O Regulador
10
e O Espelho.
10
O Regulador era impresso a expensas do erário e, durante seu lançamento, o então ministro José Bonifácio
expediu cartas às províncias recomendando sua assinatura. “O Regulador foi, portanto, naquela fase, o grande
porta-voz das ideias políticas de José Bonifácio, com quem compartilhava o entusiasmo pela Monarquia e em um
de seus artigos dizia explicitamente que seu principal intento era defender o atual Ministério”. (LUSTOSA, 2010,
p.383).
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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Peculiaridades brasileiras
Ao constatar o fato de que as três grandes transições ocorridas no Brasil foram
pacíficas – bases da autonomia lançadas pela metrópole, passagem da colônia para a
independência e mudança do sistema monárquico para o republicano -, ao contrário do que
aconteceu nas demais nações latino-americanas, Juarez Bahia (1990) ressaltou essa
condição peculiar da imprensa brasileira, que se confunde com o próprio poder: “Entre os
agentes dessas passagens do poder está a imprensa, historicamente mais indissociável do
nio político nacional do qualquer outra instituição”. Alberto Cavalcanti (1995) considera
que a entrada do jornalismo brasileiro na fase industrial pode ser creditada, em boa medida,
aos incentivos financeiros da monarquia, que iniciou a prática das subvenções
governamentais à imprensa. O Correio Paulistano contou com amparo oficial, no início da
década de 60, para mecanizar sua impressão e atingir a marca de 850 exemplares diários
em 1869. Isso significa que os progressos tecnológicos obtidos pelos jornais brasileiros têm
uma base bem distinta daquela que viabilizou o londrino Times:
Era o Estado ajudando a sustentar uma imprensa a que faltava o
fundamento de um mercado econômico dinâmico, assim como o de um
mercado político (este, cercado pela política latifundiária – oligárquica, cujas
expressões tipificadoras, do ponto de vista do interesse da consolidação de
uma imprensa liberal, eram a permanência da escravatura, altos índices de
analfabetismo, inexistência de indústrias e, portanto, urbanização
acanhada, e exclusão política baseada no voto censitário). Assim, o viço
aparentado pelo grande número de jornais que nasciam encontrava sua
negação na falta de enraizamento econômico, pois não seria concebível
que a Coroa e os governos provinciais sustentassem todos os periódicos,
nem muito menos, os que lhe opusessem pela linha editorial o que
determinava rápido e igualmente numeroso falecimento de periódicos”
(CAVALCANTI, 1995, p. 69-70).
Outra característica do período imperial brasileiro era o aparecimento de muitos
jornais durante as fases de maior efervescência política – Regência e no chamado II
Império, após o fim da conciliação
11
, em 1869 -, movidos pelo entusiasmo e as contribuições
financeiras das facções políticas a que serviam. Depois do embate, derrotadas as facções
ou cooptadas pelo poder, fechavam suas portas. “No Império, jornais nasciam e morriam
com uma luxúria tropical
12
”, sintetiza Alberto Cavalcanti. Nessa época, resistiram, sem
maiores problemas, os conservadores Diário de Pernambuco, fundado em 1823, e Jornal do
11
O Ministério da Conciliação, formado durante o reinado de Dom Pedro II tinha como principal objetivo
equilibrar disputas políticas reunindo membros conservadores e liberais.
12
O fenômeno não ficava restrito aos trópicos. Com bom humor, a edição nº 1 do jornal A Academia, de Coimbra,
resumia a imprensa daquela cidade portuguesa em 1866: “Os jornais de Coimbra o como os pirilampos
luminosos e rápidos. A luz que derramam não é tanta, que deslumbre. A rapidez, com que desaparecem, essa
sim, espanta”.
Mauro César Silveira
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Commercio, do Rio de Janeiro, de 1827, ligados à classe latifundiária e editados nas duas
maiores cidades brasileiras de então.
Pelo menos no formato, essas duas publicações estavam alinhadas com o que havia
de mais moderno na imprensa mundial. Por decisão de seu proprietário, Manuel Figueiroa
de Faria o ex-caixeiro-viajante que adquiriu, em 1831, a publicação do fundador Antônio
José de Miranda Falcão -, o Diário de Pernambuco passou a ter, em 1859, a mesma
dimensão e o número de ginas que o Times. O Jornal do Commercio, principal diário do
país durante o Império, ficou mais de meio século exatos 55 anos nas mãos de uma
família francesa. Fundado pelo impressor Pierre Plancher-Seignot, o jornal foi transferido
aos também franceses Junius Villeneuve e Reol de Mougenot - que se retirou da sociedade
em 1834. Depois da morte de Junius, o Jornal do Commercio pertenceu ao seu filho Júlio
Constâncio de Villeneuve, mais tarde agraciado com o título de Conde. “E por 25 anos é
dirigido de Paris, por François Picot, francês naturalizado brasileiro que depois de trabalhar
no Rio mantém o contato com a redação através de cartas”, assevera Juarez Bahia (1990,
Vol. I, p. 41).
No singular caso brasileiro, a imprensa tornou-se, de fato, o grande palco da classe
política. Na segunda metade do século XIX, o Jornal do Commercio triunfava como o maior
canal de expressão das figuras públicas mais destacadas do país, mesmo aquelas que
apresentavam pontos de vista divergentes. Era uma proposta editorial que, de alguma
forma, retratava a notável capacidade de acomodação das forças partidárias mas também
econômicas do chamado II Império. O depoimento do jornalista Alcindo Guanabara, ainda
que marcado pela louvação, oferece uma ideia do significado daquele periódico, na vida
nacional, nessa época:
Esse alheiamento (sic) das paixões em convulsão, essa inalterável
tranquilidade, num meio tão agitado, valeram ao Jornal do Commercio a
força e o prestígio com que, no princípio do segundo reinado, ele agia e
reagia sobre a sociedade, prestígio que cresceu e acentuou-se de tal arte
que a expressão quarto poder lhe era aplicável com absoluta justiça.
Nesse trecho da vida é com verdade que se pode dizer que a história do
Jornal do Commercio se confunde com a do reinado. Evocá-la é evocar a
série de vultos que brilham na nossa política, nas nossas letras, nas nossas
artes, todos os quais ou de saíram, ou lhe deveram a consagração do
triunfo. Os grandes nomes acotovelavam-se. Justiniano José da Rocha, o
maior dos jornalistas brasileiros; o visconde de Jequitinhonha, o visconde de
Araguaia, Porto Alegre, Rio Branco, Otaviano – que sei eu – todos os
grandes nomes e todos os grandes espíritos fulguram nesses quarenta
anos, emergem agora das coleções infinitas do Jornal do Commercio e
desfilam diante dos nossos olhos, nimbados daquela glória que os nossos
sufrágios e os nossos aplausos lhes concedem e reconhecem. A ação do
Jornal do Commercio afirma-se então intensa e eficaz, no terreno político,
como no literário e artístico. Como sempre, o Jornal do Commercio não é
partidário, mas pesa deliberadamente na concha das instituições. É
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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conservador, nesse sentido; é moderado, em todos os sentidos (apud
SODRÉ, 2007, p. 189).
Para contrapor-se a esse projeto exitoso, nascia, em 1848, também na Corte, o
Correio Mercantil, por obra de Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto. Ele
entregaria a direção do jornal ao genro, Francisco Octaviano de Almeida Rosa, mais tarde
deputado e conselheiro de Estado. Nelson Werneck Sodré (2007, p. 190) observa que
“latifúndio e imprensa seriam as duas bases da carreira de Francisco Octaviano”. Durante os
vinte anos de existência da publicação, ele contaria com uma tribuna privilegiada para
ascender na vida política, alvejando seus adversários, pois a proposta editorial era
francamente partidária. No dia de maio de 1865, Francisco Octaviano assinaria o tratado
da Tríplice Aliança, em Buenos Aires, em nome do imperador D. Pedro II. Muitos outros
personagens da época também aproveitariam a força da imprensa para projetar-se. É o
caso de Manuel de Araújo, de Porto Alegre, que lançou, em 1844, a Lanterna Mágica,
considerada a primeira publicação ilustrada do país, e que apresentava trabalhos de
caricaturistas europeus. Mais tarde, entre outras honrarias, seria nomeado Cônsul Geral do
Brasil em Portugal – agosto de 1867 – e agraciado com o título de Barão de Santo Ângelo.
Mesmo aqueles que revelavam notória aptidão para a vida pública não desprezavam
a imprensa. José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco
13
, ministro dos
Negócios Estrangeiros em mais de uma oportunidade no II Reinado, escreveu muitos artigos
no Jornal do Commercio e foi um dos principais redatores de A Nação, jornal que circulou
entre 1872 e 1876. E nem D. Pedro II deixou de usar a imprensa para expressar o que
pensava, ainda que abrigado por nomes fictícios ou expressões que não o identificassem.
Juarez Bahia (1990, p. 74), citando Gondin da Fonseca, informa que, em 1856, o imperador
defendeu a Confederação dos Tamoios, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, dos
ataques de José de Alencar, com o pseudônimo de Ig, no Diário do Rio de Janeiro. Sob a
designação vaga de “Outro Amigo do Poeta”, ele teria publicado artigos em quatro edições
do Jornal do Commercio no mês de agosto daquele ano.
Além de difundir ideias e produzir tendências, de acordo com os interesses dos
políticos que ocupavam suas páginas, anonimamente ou não, os jornais do culo XIX
serviam também para a divulgação de textos oficiais, incluindo os de caráter diplomático.
Durante a guerra empreendida contra o Paraguai, houve uma farta publicação de
documentos redigidos na Corte de D. Pedro II. Todo o espaço proporcionado pela dimensão
13
Raimundo Magalhães Júnior (1957, p. 67) revela que antes de alcançar a condição de estadista José Maria da
Silva Paranhos foi jornalista, com participação ativa na imprensa da Corte, publicando folhetins no Jornal do
Commercio “já no meado do século passado”. Segundo Heitor Lyra (1977, V.II, p. 9-10), o Visconde do Rio
Branco presidiu, a partir de 1871, “o mais fecundo e certamente o mais brilhante de todos os Ministérios da
Monarquia, com uma serenidade e uma elevação só comparáveis às dos estadistas da velha escola parlamentar
britânica”.
Mauro César Silveira
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15
do Jornal do Commercio oito colunas distribuídas em páginas de 58,5 cm de largura e 98
cm de altura era bem aproveitado, pois facilitava a impressão de longos textos oficiais,
como as partes militares divulgadas pelo Ministério da Guerra, entre 1866 e 1870.
O quadro argentino e o caso de ascensão do grupo Clarín
No país vizinho, não era apenas o presidente Bartolomé Mitre que se interessava
pelo jornalismo. A disseminação dos meios impressos foi marcada pela iniciativa de muitos
homens públicos. Nas décadas que Juan Manuel de Rosas governou, com mão de ferro, a
Confederação, perseguindo os liberais unitários que tinham sua base no grande comércio
de Buenos Aires -, dois jornais destacaram-se, apesar da sua duração efêmera, causada
pelo exílio de seus proprietários: La Moda, de Juan Bautista Alberdi
14
(1837-1838), e El
Zonda, “que lucha contra la tiranía”, de Domingo Faustino Sarmiento
15
(1839-1840). Depois
da derrota de Rosas, na batalha de Monte Caseros, em 1852, outras publicações foram
criadas por personagens da vida política argentina. O Nacional Argentino, do célebre
caudilho de Entre Rios, Justo José de Urquiza, El Paraná, de José Mármol, e El
Pensamiento, de José Tomás Guido, eram alguns dos títulos mais conhecidos.
Mármol esteve à frente da diplomacia de Buenos Aires, nas décadas de 1850 e 1860,
no período em que a cidade portenha e a Confederação Argentina ficaram organizadas
como Estados distintos
16
. Quase na mesma época, o general Tomás Guido ocupava função
idêntica no lado oposto em 1860, era ministro de relações exteriores da Confederação,
presidida por Urquiza desde a cidade de Paraná. Mais tarde, ele fundaria o jornal La
América, responsável pela divulgação do tratado secreto da Tríplice Aliança na guerra contra
o Paraguai e contribuiria para desgastar os governos dos três países que combatiam a
nação guarani. Em maio de 1866, a publicação, dirigida por seu filho Carlos Guido Spano
e por Miguel Navarro Viola que fazia oposição ao então presidente Bartolomé Mitre,
defendia seus pontos de vista, com ardor, em Buenos Aires: “İEl Tratado es secreto, la
sesión es secreta, sólo la vergüenza es pública!” (apud ROSA, 1985, p.183).
14
O escritor e polemista Juan Bautista Alberti seria encarregado de Negócios da Confederação Argentina em
Londres na década de 50 do século XIX.
15
Sarmiento seria eleito presidente da Argentina durante a chamada guerra do Paraguai, no ano de 1868,
substituindo Bartolomé Mitre.
16
Regida pela Constituição aprovada em 1853, a Confederação Argentina foi presidida primeiro por Justo José
de Urquiza e, depois, em março de 1860, por Santiago Derqui. Buenos Aires, com sua carta constitucional
aprovada em 1854, foi governada por Pastor Obligado e Valentín Alsina. José Mármol também chefiou missão
diplomática do Governo de Buenos Aires no Brasil, em 1861, e foi ministro plenipotenciário da unificada
Argentina, em 1869, no Rio de Janeiro.
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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16
Para a reflexão proposta neste artigo, vamos nos deter em um caso do chamado
Cone Sul
17
que herdou práticas daquela centúria, mas se desenvolveu bem depois, ao longo
do século XX e avançou até nossos dias. Trata-se da história do conglomerado de mídia
argentino Clarín. Como ocorreu em outros países da região e no próprio Brasil, ele foi
erguido a partir de uma relação convergente entre a empresa jornalística e o poder político.
Tudo começou em 28 de agosto de 1945, quando o desacreditado jornalista e ex-ministro
Roberto J. Noble, um homem conservador que também se dedicava à pecuária de leite,
lançou o hoje conhecido tabloide portenho Clarín, com o claro objetivo de sair da
obscuridade. O diário de Buenos Aires, que seria a base do influente grupo de comunicação,
apresentou sua primeira edição bem ilustrada e de leitura agradável, com ênfase na
cobertura esportiva. A boa receptividade dos leitores estimulou seu crescimento e, em 1963,
o Clarín era o jornal de maior circulação na capital argentina. Quatro anos depois, com o
fechamento do pioneiro tabloide daquele país, o El Mundo, a tiragem saltaria de 347 mil
para 424 mil exemplares e a publicação adquiriria um caráter inovador, ao lançar a primeira
revista semanal como encarte de um jornal diário.
A morte do fundador, em 1969, não diminuiu o ritmo de expansão do grupo. Pelo
contrário. Herdado pela viúva de Roberto, Ernestina Herrera de Noble, a empresa continuou
crescendo e atingiu seu ritmo mais intenso entre o final da década de 80 e o início dos anos
90, quando diversificou suas atividades por meio de profundo endividamento em dólares.
Nessa época, o banco norte-americano de investimentos Goldman Sachs pagou US$ 500
milhões para adquirir 18% do grupo
18
. Antes disso, teve papel importante no crescimento do
Clarín o vice-presidente e atual sócio, Héctor Horacio Magnetto. Com carta branca de
Ernestina, ele adotara uma gestão desenvolvimentista nos negócios e, em pouco tempo, a
organização figurava entre as 10 principais empresas da Argentina. Entre os grupos de
mídia, passou à condição de terceiro maior da América Latina e atingiu o segundo posto na
América do Sul.
Não foi um êxito marcado apenas pela competência administrativa. Como relata
Helton Ricardo Barreto (1999, p. 65), esse contador e dirigente de uma concessionária de
veículos valorizou a prática de troca de favores com o poder político e econômico e tirou
muito proveito disso:
Junto com o “staff” que se apodera dos controles tanto da administração
quanto da redação do jornal, surge Héctor Magnetto, o personagem
responsável pela guinada administrativa e ideológica da empresa,
17
É importante ressaltar que a acepção de Cone Sul empregada no presente trabalho abrange áreas territoriais
do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, embora o termo seja utilizado também para designar o espaço
geográfico mais ao sul do continente americano, neste caso, incluindo o Chile e excluindo o Paraguai.
18
Os outros 82% das ações pertencem ao grupo diretor formado por Héctor Horacio Magnetto, Ernestina Herrera
de Noble, José Aranda e Lucio Pagliaro.
Mauro César Silveira
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17
criticado por RAMOS
19
(1993, p.118-119) por suas alianças com todos os
governos civis e militares posteriores. Dessas relações vai emergir a faceta
monopólica do grupo e sua futura feição multimídia através da incorporação
da manufatura papeleira Papel Prensa” e, no final dos anos 80, com a
absorção da Rádio Mitre e do Canal 13, entre outras vantagens. É o início
da fase Magnetto na história do jornal e do emergente Grupo Clarín.
Essas conquistas foram apenas as mais visíveis dos inúmeros favores e benesses
obtidos pelo jornal e o grupo, o que assegurou sua hegemonia nos meios de comunicação
argentinos. Depois de assumir a feição multimídia, o conglomerado investiu em suportes de
ponta, como Internet, TV a cabo e telefonia móvel, e assumiu a liderança argentina também
nesses setores. Da extensa lista de atividades da empresa, Luis Alfonso Albornoz (2007)
registra que o Clarín é o principal jornal argentino e o de maior circulação no mundo de fala
espanhola com uma tiragem média superior a 550 mil exemplares e mais de dois milhões
de leitores diariamente e destaca outros veículos bem sucedidos, como o diário esportivo
Olé e o site jornalístico Clarín.com, ambos lançados em 1996. O grupo empresarial detinha,
na época da pesquisa de Albornoz, uma grande produtora de cinema e a maior fábrica de
papel do país (numa parceria com o grupo La Nación e o próprio governo argentino). Em
comunicado oficial divulgado, na web, em 2009, o conglomerado se apresentava como “o
maior grupo de comunicação em língua espanhola do mundo” e informava possuir vinte e
seis empresas e empregar mais de 13.600 funcionários, além de negociar ações nas bolsas
de Londres e Buenos Aires.
Esses números baixaram após a aprovação da Lei de Radiodifusão ou de Meios -,
em setembro de 2009, pelo Congresso Nacional. O projeto da presidenta Cristina Kirchner,
com o objetivo de regular as empresas de comunicação do país, pôs fim à relação
privilegiada do grupo Clarín com o poder. Antes disso, durante o governo de Néstor Kirchner,
o bom comportamento dos veículos do grupo foi recompensado com a renovação por mais
dez anos de todas as suas licenças de rádio e televisão, “sem qualquer discussão”, como
denunciou o professor Gustavo Martínez Pandiani, da Faculdade de Comunicação Social da
Universidad del Salvador, em Buenos Aires. Além disso, a empresa abocanhou nada menos
que o equivalente a 22 milhões de reais em propaganda oficial entre 2003 e 2006, como
revelou o livro “Propaganda K: una Maquinaria de Promoción con el Dinero del Estado”, da
jornalista María O’Donnell. (apud PINHEIRO, 2008, p. 30-36).
As divergências começaram entre abril e maio de 2008, quando o Clarín acabou
sendo obrigado a abrir generosos espaços para os protestos dos produtores rurais,
indignados com o aumento do imposto sobre a exportação de grãos decretados pela
19
RAMOS, Julio A. Los cerrojos a la prensa. Buenos Aires: Amfin, 1993. Outra obra do mesmo autor sobre o
Clarín é Periodismo atrasado. Buenos Aires: Fundación Gada, 1996).
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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18
presidenta Cristina Kirchner. O rompimento e as hostilidades crescentes entre o governo e o
grupo empresarial geraram momentos extremamente tensos, como nas eleições legislativas
de junho 2009, quando o casal acusou o Clarín mas também o jornal La Nación - pela
derrota do ex-presidente Néstor Kirchner, candidato a deputado pela Província de Buenos
Aires. A relação do conglomerado de mídia com o governo de Cristina Kirchner desde a
aprovação da Lei de Meios da Argentina, com desdobramentos na Justiça
20
, apresenta
muitas outras facetas, igualmente relevantes, mas que não serão analisadas aqui, pois
fogem aos objetivos do presente artigo.
No rumo de uma visão mais abrangente
As considerações sobre os primórdios da imprensa nos países do Cone Sul,
apresentadas nos parágrafos anteriores, que sintetizam alguns aspectos de pesquisa em
andamento
21
, visam contribuir para o esforço coletivo dos estudiosos de história do
jornalismo na América do Sul - que recebeu valiosos aportes nos últimos anos. No Brasil,
entre muitos resultados de cuidadosa produção acadêmica, podem ser mencionados os
artigos organizados por Ana Luiza Martins e Tania Regina de Luca
22
(2008), os livros de
Marialva Barbosa (2007), de Richard Romancini (2007) e Cláudia Lago (2007), e Lavina
Madeira Ribeiro (2004). Também merecem ser destacados alguns excelentes trabalhos
pontuais, como os de Silvia Maria Azevedo (2010), sobre a revista Ilustração Brasileira; de
Marcelo Balaban (2009), que analisa a trajetória do chargista Angelo Agostini; de Lúcia
Maria Bastos Pereira das Neves (2003), que examina folhetos políticos e jornais brasileiros
e portugueses entre 1820 a 1823; e de Isabel Lustosa (2000), que aborda as batalhas
travadas entre os jornalistas brasileiros na luta pela independência. Numa outra perspectiva,
20
Alguns artigos da lei foram questionados na Justiça pelas principais empresas de comunicação daquele país.
O grupo Clarín alegava a inconstitucionalidade dos artigos que tratam da transferência de concessões obtidas
anteriormente. Em 29 de outubro de 2013, a Suprema Corte argentina declarou a constitucionalidade de todos os
artigos contestados.
21
A investigação em curso examina as semelhanças e as diferenças da trajetória histórica da imprensa nos
quatro países que integram a formação original do Mercado Comum do Sul, o Mercosul. Na fase inicial do
trabalho de investigação científica, as observações recaem, especialmente, sobre as características afins e as
especificidades do jornalismo do Brasil e da Argentina em seus primórdios. A opção metodológica decorre dos
caminhos abertos pela Nova História, lançando-se mão de diferentes fontes, de documentos oficiais a relatos em
correspondências pessoais e dados estatísticos, além da historiografia produzida, para tentar uma
aproximação com o passado. As modificações produzidas a partir de 1929, por meio do trabalho de estudiosos
que se reuniram em torno da publicação francesa Annales - Histoire, Sciences sociales, fundada pelos
historiadores Lucien Febvre e Marc Bloch, conformaram uma corrente historiográfica que, desde o final do século
passado, propicia o diálogo com outras áreas do conhecimento, estabelecendo uma relação multidisciplinar.
Essa perspectiva é fundamental para a consecução dos objetivos perseguidos numa proposta que tem a
pretensão de ampliar o olhar sobre o percurso do jornalismo sul-americano desde suas origens.
22
Tania Regina de Luca lançou em 2011, pela editora UNESP, outra obra relevante: Leituras, projetos e
(Re)vista(s) do Brasil (1916-1944), sobre essa publicação de importância crucial na história da imprensa
paulistana e brasileira.
Mauro César Silveira
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
19
além da coletânea de pequenas biografias organizada por José Marques de Melo (2005),
chama a atenção a mais recente obra deste autor, História do Jornalismo - Itinerário crítico,
mosaico contextual, lançada em 2012 no Intercom Sudeste
23
. Outra obra que deve ser
saudada é A Revista no Brasil do Século XIX - A História da Formação das Publicações, do
Leitor e da Identidade do Brasileiro, de Carlos Costa, lançada em 2013. No âmbito regional,
têm surgido muitas produções destinadas a restabelecer o passado jornalístico, como o livro
Memórias sobre a imprensa em São Borja, organizado pelas professoras Cárlida Emerim
Jacinto Pereira e Joseline Pippi.
Outra ação no sentido de avançar a pesquisa histórica em jornalismo foi a
publicação, em 2006, do resultado das discussões apresentadas no Seminário História e
Imprensa, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, realizado três anos antes. Nessa
obra, organizada por Lúcia Bastos, Marco Morel e Tânia Bessone, são apresentadas as
principais linhas de produção historiográfica das duas áreas, levando em conta os novos
trabalhos de investigação científica no país. Essas iniciativas se inserem num movimento
que envolve as associações brasileiras representativas dos pesquisadores dos meios de
comunicação - como a Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da
Comunicação), a SBPJor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo), e,
principalmente, a Rede Alcar (Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a
construção da história da imprensa no Brasil). Esta última tem feito esforços para uma
aproximação com a área de História, que acumula obras de relevância nas instituições de
pesquisa reunidas em torno da ANPUH (Associação Nacional de História).
Nos países vizinhos que integram o Cone Sul também se observam ações análogas.
Na Argentina, o professor de História do Jornalismo, Miguel Angel de Marco, lançou, em
2006, um painel sobre a imprensa nos primeiros 100 anos de independência do seu país:
Historia del Periodismo Argentino - desde los origenes hasta el centenario de mayo. Seis
anos antes, o jornalista e pesquisador Miguel Angel Cuarterolo publicou uma obra sobre os
primórdios do fotojornalismo
24
na Argentina, analisando a cobertura fotográfica da chamada
guerra do Paraguai. Na nação guarani, sobressai o trabalho de Aníbal Orué Pozzo (2007),
que examina a história do jornalismo paraguaio desde 1845. E no Uruguai, em maio de
2009, o professor e escritor Daniel Alvarez Ferretjans (1986) apresentou, na Faculdade de
23
O XVII Intercom Sudeste, realizado entre os dias 28 e 30 de junho de 2012 na Universidade Federal de Ouro
Preto, é um dos congressos regionais da Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da
Comunicação. A nova obra de Marques de Melo apresenta três conjuntos narrativos que focalizam os processos
jornalísticos, as conjunturas que os determinaram e os sujeitos que fizeram seu resgate. Seu objetivo é estimular
a pesquisa histórica do jornalismo tanto nos cursos de graduação quanto nos programas de pós-graduação,
contribuindo para as articulações entre a área e as demandas da sociedade.
24
Trabalho similar, embora mais abrangente, foi desenvolvido pelo brasileiro Joaquim Marçal Ferreira de
Andrade, em 2004, no ótimo livro História da fotorreportagem no Brasil a fotografia do Rio de Janeiro de 1839 a
1900.
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
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20
Comunicação da Universidade de Montevidéu, as grandes linhas da pesquisa que
culminaram no seu último livro, Historia de la Prensa en el Uruguay Desde La Estrella del
Sur a Internet, editado no ano anterior, e que alcança todo o percurso histórico da imprensa
em seu país.
Esses animadores esforços permitem que se possa obter, por meio de um trabalho
de investigação científica que agregue e aprofunde - os resultados alcançados, uma
visão mais abrangente da história do jornalismo nas nações que criaram o bloco econômico
do Mercosul, tentando superar o caráter fragmentado e pontual que caracteriza muitas
abordagens produzidas nos quatro países e, em particular, a maioria daquelas
desenvolvidas no Brasil, conforme já enfatizaram Ana Luiza Martins e Tânia Regina de Luca
(2008, p. 9). Recentemente, a citada Marialva Barbosa deu um passo, nessa direção, ao
lançar, em 2013, o livro História da comunicação no Brasil. A autora parte das formas de
comunicação predominantemente orais entre os escravos, no século XVIII, passa por
manuscritos satíricos e políticos, acompanha o aparecimento e desenvolvimento dos meios
impressos até alcançar o rádio, a televisão e as tecnologias digitais, no final do século
passado.
As produções recentes do Cone Sul, tanto no Brasil como nos seus vizinhos,
configuram notório indicativo de um movimento acadêmico no rumo de um quadro mais
aprofundado, mas também mais diversificado, da mídia latino-americana. O conjunto dos
estudos recentes das universidades da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, alguns deles
resultantes de pesquisa em nível de doutorado, sinalizam claramente que um meticuloso
exame das semelhanças e das especificidades da trajetória histórica da imprensa sul-
americana apresenta-se como condição indispensável para observar e compreender os
processos e produtos jornalísticos contemporâneos na região.
necessidade, portanto, de se examinar de forma mais sistemática e abarcadora o
jornalismo sul-americano, desde suas origens, objetivando aumentar o entendimento do
quadro midiático atual, marcado por imagens simbólicas construídas de uns países sobre os
outros, como já mostraram as pesquisadoras Nilda Jacks, Márcia Machado e Karla Müller no
livro Hermanos, pero no mucho (2004) e o autor do presente projeto no artigo intitulado As
marcas do preconceito no jornalismo brasileiro e a história do Paraguay Ilustrado (2007, p.
41-66). Infelizmente, ainda não se tem notícia de trabalhos que reúnam informações sobre a
trajetória do jornalismo do Cone Sul sob uma perspectiva mais ampla, regional, e que
examine o processo histórico de dois ou mais países, como os estudos realizados na
Mauro César Silveira
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
21
Espanha, em relação ao mundo ibero-americano e que renderam capítulos nas obras de
caráter geral coordenadas por Pizarroso Quintero (1994) e Barrera (2008)
25
.
Neste sentido, devem ser considerados os caminhos metodológicos apontados por
Fausto e Devoto (2004) para a construção de uma história comparada. Eles partem da
perspectiva teórica de Marc Bloch, que sustenta a necessidade de estudos de sociedades
próximas no espaço e no tempo, buscando-se, também, semelhanças e diferenças. Da
mesma forma, reveste-se de extrema importância a reflexão proposta por Del Palacio
Montiel (2000), estabelecendo como fio condutor da pesquisa a relação entre fatos ligados a
processos em diferentes lugares da mesma área geográfica, de diversas regiões e,
inclusive, do mundo inteiro. Essa autora mexicana vem insistindo, mais de uma década,
que a maior limitação para os trabalhos de história do jornalismo ibero-americano tem sido a
negação do outro. O desafio continua de pé.
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BARRERA, Carlos (Coord.). Historia del periodismo universal. Barcelona: Ariel, 2008.
25
Os dois trabalhos citados exigiram um esforço coletivo interinstitucional. O livro de Pizarroso Quintero reúne,
além dele, mais de 10 pesquisadores, de diferentes instituições. A obra coordenada por Barrera foi produzida por
13 professores que trabalham em 11 distintas universidades.
Em busca de uma visão mais abrangente da história do jornalismo e o exemplo argentino do grupo Clarín
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.1, nº1, p. 6-23, jan.-jun., 2014.
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