A FACE IMPURA DO MUNDO: POESIA, TESTEMUNHO E PAISAGEM
DOI:
https://doi.org/10.5016/hqy4bj36Palavras-chave:
Abjeto, Jorge de Sena, Paisagem, Poesia, TestemunhoResumo
Este artigo propõe uma análise da poesia de Jorge de Sena a partir da presença pulsante e originária do abjeto, compreendido como elemento estruturante na relação do poeta consigo mesmo, com o outro e com a paisagem-mundo. Partindo da teoria do abjeto formulada por Julia Kristeva, o estudo explora como a poesia seniana articula uma tensão constante entre a busca por identidade e a confrontação com aquilo que é rejeitado, marginalizado ou inquietante. A obra de Sena revela um eu lírico que se confronta com suas próprias zonas sombrias, explorando o desconforto e a repulsa como pontos de contato inevitáveis na construção da subjetividade. Essa dinâmica do abjeto emerge na relação com o outro em poemas que desvelam o embate entre eros e thanatos, amor e violência, atração e repulsa. Ao mesmo tempo, a paisagem-mundo, na poesia de Sena, é marcada por um sentido de estranhamento e deslocamento, no qual o espaço físico e simbólico se torna palco para o confronto com o abjeto — seja na figuração da morte, do exílio ou da corrupção dos ideais humanos. A análise busca demonstrar como a abjeção do mundo, longe de ser um elemento de negação ou destruição, é assimilada na poética seniana como força geradora, tensionando e recriando os limites entre o eu e o mundo, o humano e o inumano, o belo e o grotesco. Dessa forma, a poesia de Jorge de Sena inscreve-se como um campo privilegiado para a problematização das fronteiras do sujeito e da linguagem poética.
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