FRAGMENTAÇÃO E REELABORAÇÃO POSITIVA DA MEMÓRIA

EM CÂMARA LENTA, DE RENATO TAPAJÓS

  • Gabriela Rocha Rodrigues
  • Lúcia Sá Rebello

Resumo

Este trabalho dialoga com as ideias de Jean-François Lyotard quando este se refere à política do esquecimento em relação ao testemunho, e com Jacques Rancière, no que diz respeito à partilha do sensível, entre outros estudiosos. Para tanto, observamos tais questões no romance Em Câmara Lenta (1977), de Renato Tapajós. Nesta obra o narrador utiliza a técnica do flashback e do flashfoward para reconstituir a imagem do corpo morto e denunciar a barbárie ocorrida durante o regime militar de 64 no Brasil. Uma alucinatória “compulsão à repetição” é um dos vieses marcantes do romance de Tapajós: o fluxo incontrolável da memória faz com que o narrador represente seis vezes ao longo da narrativa a prisão da companheira Ela, principiando de forma fragmentada e desconexa, até atingir o desenho completo da perseguição, prisão, tortura e morte da personagem. Ao longo da narrativa observamos que o trauma é representado em sua totalidade, pois a imagem do corpo dilacerado pela violência e pela tortura equipara-se à mente do sujeito traumatizado: as memórias fragmentadas pela dor do trauma resistem e retornam incessantemente operando também uma espécie de violência contra o sujeito. No entanto, o corpo reconstruído também simboliza a coragem de enfrentar as visões aterradoras do passado e transmutá-las em narração, o que exprime um tipo de reelaboração positiva da memória e, sobretudo, a força criadora dos sobreviventes.

Publicado
2018-06-12
Como Citar
ROCHA RODRIGUES, Gabriela; SÁ REBELLO, Lúcia. FRAGMENTAÇÃO E REELABORAÇÃO POSITIVA DA MEMÓRIA. Miscelânea: Revista de Literatura e Vida Social, [S.l.], v. 22, p. 167-186, jun. 2018. ISSN 1984-2899. Disponível em: <http://seer.assis.unesp.br/index.php/miscelanea/article/view/1093>. Acesso em: 17 jun. 2018.
Seção
ARTIGOS ORIGINAIS/ORIGINAL ARTICLES